quando aquele agosto é o seu setembro

Setembro ainda está na minha cabeça. Não o mês, que tá acabando, junto com as minhas férias. Mês de saudade, fim de greve e muita confusão mental, talvez o mês em que estive mais próximo da loucura patológica. Mas o filme, brilhante filme, com a Mia Farrow dizendo ser sozinha – todo mundo acreditou nas palavras do Jobim e se fudeu – e dona de um problema, de fato, incontrolável: querer viver quando parece mais fácil recorrer a todos os calmantes do mundo. A bitch da Dianne Weist, em fina ironia e complacência, diz que não seria possível tomar milhares de comprimidos e que, bom, melhor esperar o mês seguinte – o título do filme – para a vida melhorar. Sempre aquele conselho de que tudo passa, até uva passa. [Agora, trocando em miúdos por aqui, percebo que aquele agosto talvez seja a síntese do meu setembro. Que merda.] Há muito, muito tempo Woody Allen não faz um filme como esse. O coroa podia voltar aos seus anos oitentistas e fazer coisas como A Outra e Setembro, quando Bergman e Fellini se estampavam em suas histórias. Aqui, os personagens estão à deriva da vida, de mãos e ações atadas diante a ordem das coisas – o personagem do [saudoso] Jack Warden que o diga . O princípio é: não estamos sós, por mais que nossa síndrome egocentrista nos traga a falsa ciência de tudo girando ao redor de nós, a nosso favor. Mesmo você iminente a sair de sua última crise emocional/existencial/sentimental/que-seja, e tenha presidido nesta existência por seis, sete, oito meses, nada garante que todo o restante do mundo vai colaborar para seu triunfo. Não, as pessoas não querem tirar sua mão da borda do poço justamente quando conseguiu sair do buraco, mas elas também estão presas em seus próprios mundos, e esse fato, inevitavelmente, pode afetar o seu. Allen, em seus dias mais inspirados, coloca tudo isso dentro de uma casa no campo – a câmera nem se quer olha pela janela – com um painel de pouquíssimos personagens transbordando de emoções e desejos. Um desfecho cruel para um filme imperdoável. Pegou pesado, Allen.

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