dia 27 de outubro de 2011, na Glória

Do ônibus, da janela do ônibus – e nesse calor que brota direto do inferno para o Rio de Janeiro, cidade maravilhosa cheia de encantos mil e suor a fio, um ônibus com ar condicionado é muito conveniente -, então pela janela eu via, contemplava e meus olhos não escapavam da enorme bunda do outro lado do vidro. Cê lembra do Lourenço, personagem de O Cheiro do Ralo, e seu fascínio pela bunda daquela garçonete? Não foi isso que eu senti, não, foi não. Lá no filme do Dhalia – que anda sumido, cadê ele? – era bunda de mulher em corpo de mulher sob a cabeça de uma mulher. Era um homem louco por uma bunda, coisa natural, paixão brasileira. Essa bunda que eu não parava de fitar era grande e enorme e cheia de buracos e imperfeições.

O vestido vermelho, desprovido de caprichos, não alcançava o fim daquele abrupto volume. Então abaixo da barra do vestido não se via coxas, via-se ainda bunda, um restinho de bunda, aí depois sim se via coxas. Vai uma confissão: sempre achei essa putaria, isso de faltar pano para tapar tudo que se deve, atraente para burro! Deve ser coisa do inferno, assim como o calor do Rio.

A bunda, o peito e, claro, o vestido, tudo era de mulher. O cabelo também! Mal cuidado que só, mas era de mulher. O rosto não. Seus traços masculinos ainda estavam impressos na sua face maquiada e decisivamente inalcançada pelos hormônios e silicones, incapazes de reverter por completo a ordem inicial das coisas.

Ela. Mesmo com um pênis entre as pernas – não vamos esquecer desse pequeno ou grande detalhe, afinal – acho melhor chamar o ser de ela. Ela apoiava a bolsa num carro estacionado. Imagine ficar segurando uma bolsa por toda a madrugada. Tadinha, deixa ela descansar as mãos. Caso a sorte não estivesse do seu lado, ela corria o risco de ficar mais tempo do que desejava naquela rua da Glória. Rua feia aquela. O mínimo que ela podia fazer para si era ficar à vontade e conversar com suas amigas, todas seres da mesma classe.

Um casal se aproximou, homem e mulher. Não, não parecem que vão tirar a moça da rua, não parecem curtir esse tipo de brincadeira, esses corpos estranhos na cama. Eles só queriam era sair com o carro. Lá se foi o descanso da bolsa! A moça, a de verdade, parecia muito simpática, trocou umas palavrinhas com a moça de mentira, ambas riram, o rapaz que assistia a desenvoltura de sua esposa também ria como um espectador entretido numa cena cômica. O sorriso permaneceu em cada um dos rostos e só se desfez após um aceno de despedida. Que bom que não se importou com a minha bolsa em cima do carro, obrigada! Que nada, boa sorte pra você, querida, espero que encontre alguém que lhe dê uma boa grana e não seja só um filho da puta casado cansado da mulher que tem em casa.

O casal hétero foi pra casa, eles pareciam felizes um com o outro. Depois eles iam dormir, abraçados, para começar tudo de novo no dia seguinte, só tendo talvez que enfrentar um chefe ditador no trabalho ou o número baixo na conta do banco ou o pneu do carro que resolveu furar logo no meio da Av. Brasil. A outra moça ia ficar ali por longos minutos ou horas, em pé com a bolsa na mão – ou ia procurar outro carro –, só esperando alguém para comer seu cu, e então no dia seguinte sobreviveria nesse mundo de seres normais, seres que nasceram e cresceram se achando normais, só tiveram que crescer e fazer parte do sistema.

Travestis são seres que vieram errados ao mundo. É isso? Eles tentam consertar o que veio errado. Ou eles deformam o que veio certo. Só sei que me parecem tristes. No fim parecem tristes. E sozinhos, pressionados pelo modelo de vida ideal nada amistoso com as diferenças, pela hegemonia sexual dos ditadores da ordem social, pelo princípio de Adão e Eva, pelos olhares dos outros, do ônibus ou não, olhares ô viado safado, até que eu te comia ou tenha misericórdia, meu Deus ou essa porra é homem ou mulher. Um olhar nunca indiferente.

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