brilho de uma paixão [2009]

festrio2009

Bright Star, de Jane Campion
Austrália/França/Reino Unido, 2009
Mostra Panorama do Cinema Mundial

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Brilho de Uma Paixao

Da diretora e roteirista Jane Campion, vencedora do Oscar em 1994 de Melhor Roteiro Original por O Piano e indicada à Melhor Direção pelo mesmo filme, Brilho de Uma Paixão traz à tela a história de amor entre o jovem poeta falido John Keats e Fanny Brawne, ambientada na Londres bucólica de 1818. Em outras palavras, é mais um romance de época, com boa produção, recriação correta dos trajes, ambientação e costumes do período narrativo e locações bem apresentadas. O porém é a falta de diferencial do filme, que não oferece nada que o espectador já não tenha visto em produções parecidas.

Como uma antiga história de amor, o casal da trama encontra conflitos como a diferença social entre eles e a ausência do escritor entre uma viagem e outra, período em que se comunicam através das cartas que rompem a dor da moça pelo aguardo de notícias. Ainda há a doença que porá a vida do rapaz em risco – acontecimento que não será surpresa se você conhecer a história de vida de John Keats, bem como seu fim, e por isso, a cena de talvez maior emoção, não causa efeito algum. Para agravar, a direção de Campion mantém a condução lenta, deve na melhor exploração da trilha sonora e até as belas imagens de divulgação do filme [como a que ilustra esse comentário] passam despercebidas.

O início chegou a prometer, com a interpretação de Abbie Cornish que parecia render uma personagem feminina à frente de seu tempo, com particularidades curiosas, mas que no fim não fizeram diferença. Ficou na promessa. Com duas horas de duração, a impressão é que Brilho de Uma Paixão andou em círculos e não saiu do mesmo lugar.

[Estreia nacional prevista para 23/10]

nota_5,5

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aconteceu em woodstock [2009]

festrio2009Taking Woodstock, de Ang Lee
EUA, 2009
Mostra
Panorama do Cinema Mundial

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takingwoodstock

A versatilidade do diretor taiwanês Ang Lee é um atributo que chama atenção em sua filmografia. Passando por diferentes gêneros e histórias das mais variadas, a narração da vez volta-se para um dos festivais de música mais marcantes da história, o Festival de Woodstock – que não aconteceu Woodstock, mas na pequena White Lake. Graças ao jovem Elliot Tiber [Demetri Martin em um personagem irresistível], mesmo controverso à comunidade local, os extensos gramados da cidade, e o quintal de sua casa, tornaram-se o abrigo de milhares de hippies que traziam consigo ideologias, sexo, cores e drogas. Em Aconteceu em Woodstock, esse cenário que evoca o natural e a liberdade – o lado oposto do que a mesma geração viu na Guerra do Vietnã – ganha um registro vivo enquanto acompanhamos a relação de Elliot com as transformações locais e, principalmente, as suas próprias.

Tudo ocorre gradativamente, no ritmo comum aos filmes do diretor. O pacato lugar e o gramado ainda florido e vazio são vistos inicialmente ao som de trilha sonora econômica de Danny Elfman, a qual também evolui para o rock a medida que todo aquele ambiente é preenchido. Acompanhar esse processo é a chance de presenciarmos, mesmo distante e décadas passadas, uma dose daquele acontecimento de forma muito próxima, não exatamente ao Festival, mas do que e quem o fez acontecer, já que o roteiro e a direção não nos permitem sair da perspectiva de Elliot. O que torna essa experiência tão agradável é o clima da narração, a sensação de um espírito pulsante e livre daquela geração – ainda que desconhecido para quem não a vivenciou -, de pessoas que parecem felizes demais, despreocupadas demais a qualquer coisa que não seja daquela realidade – como a última cena ressalta. Como o policial que ingeriu fumaça em excesso e por isso não agia segundo seu ofício, o espectador pode facilmente se levar pela atmosfera que o longa reside. A mesma que parecia presente naquele lugar.

Não é somente um trabalho de direção de arte e figurino, o qual, sem subestimá-lo, é eficiente em recriar época e estilos e oferecer um visual atraente. Mas é um fruto, sobretudo, da direção de Ang Lee, e só por ser capaz de materializar esse clima, merece méritos. Aliás, é um diretor de certa forma até discreto com o uso de sua câmera; porém, transmite muito dos personagens – seja ao se aproximar deles ou ao revelar sua óptica – e alcança diretamente o público ao valorizar uma direção a favor do que há na tela. Como dois longos planos-sequências os quais, ao mesmo tempo que não perdem o foco em Elliot, não evitam em revelar os acontecimentos ao seu redor, o estado que o Festival deixou a cidade e seus moradores. Ou ainda a beleza e inocência como o pai do protagonista observa o banho nu dos hippies, na cena que talvez melhor exemplifique a sensibilidade de Ang Lee sobre sua narração.

Ainda há um aspecto documental que valoriza o longa como um registro de um evento real e pretérito, e em diversas passagens, é como se o espectador estivesse situado no meio daquela multidão. O split screen [recurso que consiste na divisão da tela] é mais uma vez empregado por Lee – como fizera em seu Hulk -, mas desta vez nos aproximando ainda mais da visão do protagonista. Revelando a mesma cena em diversos ângulos, o recurso, sempre curioso, funciona como um bom exercício especialmente em alguns momentos, como na cena da encenação de uma peça, quando o espectador nota antes de alguns personagens o que irá se suceder e o efeito cômico é facilmente alcançado.

Com um leque de personagens e um elenco que oferece grandes trabalhos [os maiores destaques, além de Martin, fica por conta de Imelda Stauton e Liev Schreiber], Aconteceu em Woodstock encontra sua fraqueza ao se encaminhar para o fim, quando perde o ótimo ritmo ao alongar em excesso algumas sequências já com tempo de projeção avançado. Incomoda, porém, a agradável experiência presente até então jamais se perde por completo. Quando os créditos finais surgem, é preciso voltar ao mundo real. Fica uma boa lembrança, como deve ter sido, ainda mais, os três dias de Festival para aquelas milhares de pessoas.

nota_8

cobertura festival do rio 2009

festrio2009

Começa amanhã, dia 24, e segue até o dia 8 de outubro, a melhor época do ano para quem gosta de cinema e mora no Rio de Janeiro. A edição anual do Festival do Rio oferece uma programação de mais de 300 produções, entre curtas e longas metragens, dos segmentos, países e diretores mais variados. Este ano, além de Quentin Tarantino em carne e osso e seu Bastardos Inglórios encerrando a mostra, o público carioca poderá conferir em primeira mão títulos como Coco Antes de Chanel, Aconteceu em Woodstock, Tokyo!, Nova York, Eu Te Amo, Abraços Partidos, An Education e tantos outros que passaram pelos principais festivais do mundo. The White Ribbon, de Michael Haneke, vencedor da Palma de Ouro no último Festival de Cannes, é um outro bom exemplo do que não pode ser perdido.

Na programação, há também os longas que provavelmente nunca chegarão aos cinemas brasileiros em outro período e o Festival é a única chance de conferi-los. Ou ainda a oportunidade de [re]ver na tela grande filmes cultuados como Dançando no Escuro, de Lars von Trier, e alguns exemplares da filmografia da atriz Isabelle Hupert, comemorando o ano da França no Brasil. No meio de tudo isso, a Première Brasil é a mostra competitiva entre as produções nacionais. Concorrem obras dos cineastas Marcelo Gomes – em co-direção com Karim Aïnouz -, Eliane Caffé, Sérgio Bianchi, Beto Brant, dentre outros.

O receio de remorso fará um grande esforço – já que, infelizmente, as obrigações diárias não dão folga – para comentar brevemente todos os filmes conferidos no Festival do Rio. Sempre entre conquistas e frustrações, pois, se por um lado, Aconteceu em Woodstock já está garantido, por outro, posso começar a dar adeus a minha sessão de Bastardos Inglórios com o Tarantino sentado ao meu lado. Os ingressos para essa sessão, obviamente, se esgotaram em poucas horas.  Mas ainda ficarei de plantão na porta do cinema em busca de meu DVD de Kill Bill autografado. E, conseguindo ou não, também dividirei a experiência por aqui.

Até mais e bom Festival para todos.

amor, sublime amor [1961]

westsidestory

Com uma dose de saudosismo, com outra de compreensão, digo que não se fazem musicais como os de antigamente. Em dois sentidos. O primeiro situa-se na qualidade: os melhores musicais ficaram no tempo, há décadas atrás, quando o gênero surgiu no pós-guerra – afinal, há gênero mais divertido e ilusório? – e culminou no sucesso nos anos 50 e 60. O que não significa uma escassez de bons exemplares após essa época de ouro; acreditar no contrário seria descartar obras-primas como Hair [1979] e Moulin Rouge! [2001]. Porém, a concepção, o andamento, o ritmo, as histórias, a própria maneira de narrar através de danças e canções mudaram; natural, já que o homem, a indústria do cinema e o público também seguiram pelo caminho esperado de transformação. Mas com isso, um certo charme está irrecuperável, uma linguagem, um diferencial que apenas antigos tesouros oferecem.

Amor, Sublime Amor é um exemplo do que se perdeu. Nada mais se comunica com o espectador que as canções e danças, até a câmera parece inibida e prefere não sobressair em diversos momentos, como se o movimento do filme viesse de seu conteúdo, e nada mais. Quando Robert Wise – em co-direção com Jerome Robbins, responsável pelas coreografias do filme – rompe com o plano estático que capta os movimentos e vozes dos atores [ou dubladores, enfim], é preciso em informar e contextualizar a narração, revelando a ambientação realista da periferia nova iorquina. E assim o filme inicia, com tomadas aéreas que percorrem a cidade até chegar ao cenário da história, onde a rivalidade entre gangues determina o comportamento dos jovens.

É através da guerra entre as gangues Jets e Shanks que toda a história se desencadeia, uma vez que todos os personagens estão direta ou indiretamente relacionados a elas. A busca pelo domínio do território é acirrada, o antagonismo é claro desde o início – na melhor sequência musical que o gênero já compôs – e apesar de amenizada pelos aspectos musicais, a violência fica na  sugestão, mas a noção da verdadeira realidade que cercam esse disputa é perceptível. Nesse sentido, ao compor uma das gangues por porto-riquenhos, a canção “America”, mesmo em tom de diversão, mas clara e, de certa forma, atual, levanta a relação de imigrantes com os EUA e questiona a visão mitificada de alguns sobre o país.

No meio de todo esse quadro, surge um amor que não deveria existir. É quando a inspiração em Romeu e Julieta fica evidente. Quando também o filme passa a exigir do público o mesmo grau de romantismo do casal protagonista. Pois, para acompanhar o romance entre Tony e Maria, é preciso acreditar em amor à primeira vista, em declarações de sentimentos intensos imediatamente no primeiro encontro, num desejo por matrimônio após um dia de relacionamento. Amor, Sublime Amor requer do espectador a crença em algo que parece não existir – ou está extinto, talvez; uma história de amor que também parece perdida no tempo, de uma pureza e ingenuidade que remete a uma inocência que ficou para trás, a qual o público precisa resgatar, ele precisa acreditar nos mesmos sentimentos de Tony e Maria para adentrar nessa história. Um amor num grau inimaginável pela rapidez na qual se constituiu. Um romance clássico, que as dificuldades para concretizá-lo levam o romantismo às últimas consequências.

O maior trunfo do filme, porém, está no espetáculo musical que proporciona ao público. Não há a menor pressa em explorar os momentos musicais, é valorizada cada coreografia e canção com a passividade com que são apresentadas, sempre explorando o espaço e o sincronismo dos dançarinos em coreografias inspiradas. Como o espectador no teatro se sentiria preso na poltrona, não é possível interromper o vídeo em tais passagens, pois a sensação é a mesma, soa como uma apresentação real, já que a força e beleza de cada movimento rompe facilmente a tela. Apesar das coreografias serem os maiores atrativos, as músicas são valorizadas pelas vozes que as entoam e até sequências de cantorias mais lentas contribuem para o filme, que tem suas mais de duas horas amenizadas pelo ótimo ritmo alcançado com esse balanço.

Ganhador de 10 Oscars, incluindo melhor filme e diretor [a primeira vez que dois diretores ganharam o prêmio, fato que só viria a se repetir em 2008 com a vitória dos Irmãos Coen], Amor, Sublime Amor evoca o contraponto entre o purismo e a violência de uma juventude passada, através de um gênero que compõe a realidade de outro maneira – por mais real que seja, nunca será real. Aqui, esse fascínio é claro. E o próprio musical, como gênero, enaltecido.

nota_9,5+ informações | imdb