saló ou 120 dias de sodoma [dir.: pier paolo pasolini, 1975]

O problema de comentar sobre Saló ou 120 Dias de Sodoma é que qualquer texto que descreva suas cenas se torna quase tão asqueroso, nojento, repulsivo – e qualquer outro adjetivo que possa vir seguido de um embrulho no estômago  – quanto o filme. Quase, pois se ao descrever que em dado momento um personagem abaixa as calças, se agacha, defeca e obriga um outro a comer suas fezes de colherzinha formo uma imagem desagradável em sua mente, Pasolini culminará então por suscitar as piores sensações no espectador disposto a passar algumas horas num casarão em companhia de fascistas pervertidos e molestadores de jovens inocentes e virgens. Se os filmes de Pasolini nunca descem fácil – não pejorativamente falando, mas por conta da narrativa densa e crua, propositalmente lenta e silenciosa que compõe -, a experiência desta vez é ainda mais desgastante, e seus créditos finais é um bendito alívio.

Mas, afinal, Saló é um filme ruim? Vejamos. A premissa de transpor o conto de Marquês de Sade aos últimos anos da Itália fascista é genial: Pasolini faz da corja de Mussolini um bando de doentes sexuais que escolhe a dedo as vítimas de seu sadismo. Um cenário de torturas, humilhação e hostilidade que se comunica com a barbárie para além dos muros. É por isso que dentro da mansão apenas o sexo forçado é válido, impera-se uma ditadura sexual e masoquista como meio de domínio e opressão e, portanto, qualquer contato carnal que fuja desde princípio torna-se sentença de morte. É o momento histórico de um país sob a óptica mais exacerbada de seu diretor? Possivelmente. O problema é que em meio a banquete de fezes, histórias grotescas contadas pelas velhas mais pervertidas do cinema, cenas de tortura captadas em  planos fechados e sexo brutal – mas vale dizer que ele é nitidamente simulado – é difícil o espectador pensar além do que seus olhos avistam. Como uma verdadeira obra de arte, dada a visão de seu autor, resta ao público encarar como convém.

nota | 5,5

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across the universe [dir.: julie taymor, 2007]

Após duas horas e dez minutos de filme, que não são pouca coisa mas avançam sem causar tédio, nota-se que a força de Across the Universe está principalmente nas canções. Dos Beatles. Não que o resto possa ser ignorado, mas se o longa está repleto de ressalvas, as músicas conseguem manter o interesse e a boa experiência quando as coisas desandam. O roteiro insere o romance de Jude e Lucy [que nomes inspirados, não?] no contexto sociopolítico dos anos 60 dos EUA, isto é, sexo, drogas, rock ‘n’ roll e guerra do Vietnã. E seria só uma história de amor bonitinha se Lucy não fosse uma menina engajada nas causas ideológicas da juventude de seu país. O roteiro sabe lidar com essas duas vertentes, equilibrando as duas facetas do filme sem tender demasiado para um único lado. Porém, o desfecho, por mais emoção que passe – e “All You Need is Love” sendo cantada em cima de um prédio contribui bastante -, soa corriqueiro. E é incompreensível o final forçado e apressado já que o roteiro insiste na longa sequência do Dr. Robert, do tal Mr. Kite e toda aquela viagem alucinógena que nada acrescenta à narrativa e é dispensável para contextualizar a época, acarretando apenas numa brusca queda de ritmo.

Sequência como essa ressalta outros dois aspectos do filme. O primeiro é positivo: Julie Taymor busca boas imagens, e consegue, unindo figurino, direção de arte, efeitos visuais, fotografia – que compõe quadros dos mais coloridos ao mais frio, sempre a favor da cena – em sequências musicais inspiradíssimas. O segundo ponto é o desejo de inserir  músicas dos Beatles o máximo possível, as quais nem sempre fluem naturalmente. Se por um lado, canções como “If I Fell”, “All My Loving”, “Hey Jude” – ainda que esperada -, “Girl”, “Revolution”, “Something” fazem suspeitar da banda britânica ter idealizado a história do filme ao compô-las, tamanha a conveniência com que são entoadas ao longo da narrativa, por outro, a presença da personagem Prudence, por exemplo, não se justifica e aparenta ser apenas um motivo para a música “Dear Prudence” ser incluída na trilha – o mesmo vale para Mr. Kite e a composição “Being For The Benefit Of Mr. Kite!”. Os problemas de Across The Universe, porém, se tornam pequenos diante a beleza e dor sentida em “Let it Be” ou o contexto criativo no qual  “Come Together” e “I Want You” são inseridas. A proposta de fazer um longa com músicas dos Beatles, então, foi cumprida, com êxito.

nota | 8

versinho da ausência

Era uma vez um blogueiro pobre.
A vida não é mole,
Nada se resolve,
Blogueiro sem pc, não pode!

O computador do blogueiro, puft!, quebrou.
Ele até que chorou,
Também lamentou,
Mas de nada adiantou.

Ele terá que se retirar,
Por um tempo difícil de especificar.
Enquanto isso tentará,
Poeminhas melhores realizar.