c.r.a.z.y. – loucos de amor [dir.: jean-marc vallée, 2005]

Tem uma coisa meio de destino que me levou a C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor. Se há uma força, entidade, um deus que rege o cinema, ele estava guiando minhas decisões quando, numa lista de folhas intermináveis com todos os longas em exibição no Festival do Rio 2006, eu escolhera assistir a esse filme apenas pelo título, sem saber do que se tratava. Achei bonitinho “crazy” vir como sigla – e “Loucos de Amor”, ainda que um subtítulo desnecessário, tem lá sua graça. E pronto, julguei o livro pela capa [o filme pelo título] e deu certo. Muito certo. Por conta de todo esse acaso intuitivo que me levou a assisti-lo no cinema, mas não só por isso, C.R.A.Z.Y. é um dos filmes da minha vida. Numa lista de 10, estaria entre os 5 primeiros, facilmente.

Então quatro anos depois compro o DVD – e rever um filme depois de quatro anos é uma experiência completamente nova. Desta vez, cheguei ao fim com os olhos molhados. Pra não passar vergonha, fui pro banheiro chorar devidamente, longe da figura paterna. Essa figura, sabe como é, do homem da casa, do cara que você não quer desapontar e que te deposita um monte de expectativas e fica feliz por ver levar sua amiga pro quarto – você só irá conversar, mas ele acha que irá além do papo – e espera muitos netinhos do seu casamento. Mas aí algo pode dar errado.  “Errado”. Em outras palavras, as coisas não saíram como planejadas: seu filho é gay, não gosta de meninas, ou até gosta, mas, enfim, não por muito tempo. Ou tenta gostar, o caminho é mais fácil.

Felizmente, o filme não se foca apenas nessa questão – porque com uma família daquela e um bando de personagens, seria um crime o roteiro se limitar a apenas um deles. C.R.A.Z.Y. aborda toda a questão sexual, da descoberta, da não-aceitação de modo muito verdadeiro, mas isso se torna um detalhe – ok, um detalhe muito importante – no meio de uma narração tão rica, que começa nos anos 60 e chega até aos 80, com figurino, trilha sonora e direção de arte acompanhando as mudanças de cada década, e dá para sentir o clima de cada uma. O personagem Zac vai muito além do jovem homossexual mergulhado em seus conflitos. Não dá para defini-lo sem levar em conta a ligação transcendental com sua mãe, a diferença com seus irmãos – sobretudo a relação delicada, e por isso mais interessante, com o irmão drogado -, sua visão de Deus e, sobretudo, a amizade com seu pai – relação que se encerra numa cena absolutamente singela, e que me faz desabar por imaginá-la tão distante da minha realidade.

Se o roteiro cria quase que um entidade familiar, realista e problemática, repleta de  diferenças e instabilidade, Jean-Marc Vallée nos deixa à vontade entre ela. Nosso relacionamento se estabelece através do relacionamento de Zac com eles, mas a partir de um determinado momento, você passa a entender como as coisas funcionam, se acostuma com a música que o pai canta em todas as festas, já sabe que Zac vai ganhar um grande mas péssimo presente de aniversário, se constrange com as confusões e quer que tudo termine bem. Quando os créditos finais aparecem após duas horas – das mais agradáveis que um filme pode proporcionar -, minha vontade foi dar stop e começar tudo de novo. Não consigo ficar mais quatro anos sem viver essa experiência.

nota 9

Nota: Um #epicfail para o DVD brasileiro. Nem pela ausências de extras, mas por te obrigar a assistir três trailers de filmes merdas antes de entrar no menu – nem um FF é permitido.

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direito de amar [dir.: tom ford, 2009]

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Como irei te explicar que assisti uma obra-prima? Mais: como irei te convencer que tenho razões suficientes para dizer que A Single Man é um filme irrepreensível? Se havia algo que eu pensava, além do filme, na sala de cinema, era como desenvolver este post, descrever o que estava sentindo, elogiar seus aspectos sem cair numa centenas de adjetivos que acabam justificando nada. Quando os créditos finais surgiram, eu estava emocionalmente arrasado, desanimado por voltar a realidade, e tive que respirar fundo, como se precisasse me recompor de uma densa experiência. Eu esqueci que estava numa sala de cinema, os 100 minutos passaram como 30, e, ao avanço da metragem, a vontade que ela tardasse a chegar ao fim.

Nada disso pode interessar a você. Você ainda não sabe nada sobre o filme. Eu apenas falei de mim, não sobre ele. Mas lamento, está sendo completamente difícil digitar alguma frase que não contenha a descrição das minhas sensações. Pois nem adianta muito falar de suas qualidades técnicas, dizer que o figurino e a direção de arte expressam o charme dos anos 60 de forma eficiente e sofisticada, que a fotografia, além do fantástico sentido narrativo, resulta em planos inesquecíveis [como esquecer o rosto da Janet Leigh todo azul no anúncio de Psicose que preenche a tela enquanto o carro do personagem principal estaciona em sua frente?], que a trilha sonora é muito OMFG e entra sempre no momento exato, colocando aquelas imagens numa capacidade de envolvimento e emoção imensurável, e como cada instrumental se harmoniza com a forma de Tom Ford compor suas cenas. E esses tipos de comentários que, enfim, vão reduzir completamente o que seus atributos são capazes de causar.

Toda a beleza que Ford imprime em seu filme de estreia [fato surpreendente pela segurança na construção da narrativa e imagens – apesar que ele parece deslumbrado demais com o que é capaz de fazer com a câmera] preenche uma história determinada pelo passado, de um homem não mais disposto a viver, já que sua vida não parece estar em si. Colin Firth, na melhor atuação de sua carreira e já uma das melhores do ano, faz um personagem pautado por seus sentimentos – e nota-se que a fotografia do filme é um reflexo deles -, e, preso ainda no que se passou, seu futuro tornou dispensável. Para mudá-lo, bem, é preciso haver outra pessoa. Também no elenco, Julianne Moore insere em sua personagem uma força irresistível, a qual inibe uma fragilidade, que quando aflorada, constrange. Sua longa cena com Firth valeria o filme – mas ele vale por completo.

A Single Man é um desses filme que justifica meu amor por cinema. E, para mim, isso é evidente, mesmo que não faça muito sentido para você. Quando estiver menos eufórico, mais recomposto e menos deslumbrado, te explico melhor.

nota | dez

Janet Leigh

oscar 2010 | apostas [ou “só para não passar em branco”]

Ano passado foi tudo lindo, estava desocupado, vi todos os filmes concorrentes e comentei cada categoria aqui no receio. Este ano as coisas estão feias, mais exatamente, paradas. Nem todos os filmes eu assisti. Mas para não passar em branco, deixo registrado minhas apostas.

Bom Oscar a todos.

Melhor Filme |
Vence: Avatar [ou Guerra ao Terror… Mas vai Avatar mesmo]
Revolta: A não indicação de A Single Man, melhor que todos os 10 filmes.
Torço: Bastardos Inglórios

Melhor Diretor |
Vence: Kathryn Bigelow
Revolta: Tom Ford fez uma obra-prima. Faltou ele.
Torço: Quentin Tarantino. Mas a vitória da Kathryn Bigelow não será ruim.

Melhor Roteiro Original |
Vence: Dúvida cruel: Guerra ao Terror ou Bastardos Inglórios? Fico com o primeiro.
Torço: Bastardos Inglórios, mas se O Mensageiro ganhasse também ficaria feliz. Não vi Um Homem Sério.

Melhor Roteiro Adaptado |
Vence: Amor Sem Escalas
Revolta: Sem querer tocar no assunto novamente, mas faltou A Single Man.
Torço: Isso tá ruim demais. Fico com Amor sem Escalas.

Melhor Ator |
Vence: Jeff Bridges
Torço: Jeff Bridges ou Colin Firth, difícil escolher meu preferido.

Melhor Atriz |
Vence: Sandra Bullock
Torço: Não gosto da Bullock, não vi – e nem quero – Um Sonho Possível. Go, Meryl, go!

Melhor Ator Coadjuvante |
Vence: Christoph Waltz
Revolta: O que Matt Damon faz aí?
Torço: Waltz, claro.

Melhor Atriz Coadjuvante |
Vence: Mo’Nique
Revolta: Tudo errado. Faltou Samantha Morton, Marion Cottilard e Juliane Moore.
Torço: Vera Farmiga ou Maggie Gyllenhaal.

Melhor Filme Estrangeiro |
Vence: A Fita Branca [mas acho que O Profeta pode surpreender]
Torço: só vi A Fita Branca, excepcional.

Melhor Animação |
Vence: Up – Altas Aventuras
Torço: A Princesa e o Sapo

Melhor Montagem |
Vence: Guerra ao Terror
Revolta: A Single Man não seria a mesma coisa sem aquela montagem.
Torço: Bastardos Inglórios

Melhor Fotografia |
Vence: Avatar [ou seria Guerra ao Terror? Ou A Fita Branca?]
Revolta: Faltou A Single Man, de novo.
Torço: A Fita Branca, uma das mais bonitas que vi na vida.

Melhor Trilha Sonora |
Vence: Up – Altas Aventuras
Revolta: Faltou a de O Desinformante!… e de A Single Man também. E Desplat merecia a indicação, mas por Coco Antes de Chanel.
Torço: Up – Altas Aventuras

Melhor Canção |
Vence: “The Weary Kind”, de Coração Louco
Revolta: Faltou “Cinema Italiano”, de Nine.
Torço: Adoro todas as músicas, mas Coração Louco precisa ser reconhecido por uma de suas maiores qualidades, as canções.

Melhor Direção de Arte |
Vence: Avatar
Torço: Avatar

Melhor Figurino |
Vence: A Jovem Vitória
Revolta: Tá, A Single Man.
Torço: Não assisti A Jovem Vitória, mas os figurinos de Coco Antes de Chanel são a melhor coisa do filme.

Melhor Maquiagem |
Vence: Star Trek
Torço: Só assisti Star Trek, que tem um ótimo trabalho de maquiagem.

Melhores Efeitos Visuais |
Vence: Avatar, claro.
Torço: Avatar, claro.

Melhor Mixagem de Som |
Vence: Avatar
Torço: Avatar

Melhor Edição de Som |
Vence: Avatar
Torço: Avatar

Melhor Documentário |
Vence: The Cove
Revolta: Podem rir, mas eu indicaria This is it.
Torço: Err… Vi nenhum não. Acontece.