o mensageiro [dir.: oren moverman, 2009]

Não é preciso campos de batalha para retratar a guerra. Nem de bombas iminentes a explodir sob o sol a pino no Iraque. Em The Messenger, o conflito reside no próprio soldado, a batalha é emocional e as armas necessárias talvez não sejam mais que autocontrole e uma rigidez que não pode se fragilizar. Oren Moverman [roteirista do ótimo Não Estou Lá] compõe, tanto no roteiro quanto na direção, um lado da guerra até então carente de atenção, quando o soldado já tá dentro do caixão e outros soldados sobreviventes precisam informar o falecimento para sua família. Assistimos episódios como esse em outros filmes, mas as cenas geralmente não duram mais que um minuto, a esposa do falecido entende o recado quando vê dois soldados na porta de casa, começa a chorar, ninguém fala nada do lado de lá da tela e, provavelmente, do lado de cá, nem sobra tempo para o espectador notar – nem vivenciar – que o fato não é uma simples passagem. Mas que também deixa sequelas, em quem noticia ou é noticiado. E com uma premissa que poderia tender para a emoção barata, a maior sensação é um forte impacto – e por vezes, não deu para piscar ou se mexer na poltrona. Resultado de um elenco irretocável [Ben Foster é capaz de protagonizar um filme de tamanha densidade como esse,  Woddy Harrelson ainda consegue se superar e faltou Samantha Morton nas premiações] e uma direção inspirada e direta, precisa em revelar seus personagens e surpreendente pelo apuro estético.  Sejamos claro: O mensageiro merecia ainda mais reconhecimento que Guerra ao Terror – e aposto que seu produtor não ficaria enchendo a caixa de e-mails de ninguém.

nota | 8,5

o pecado da carne [haim tabakman, 2009]

Chegou a vez de judeus também serem gays. Quero dizer, está fora do meu conhecimento se algum filme já contou uma história parecida, mas o israelense O Pecado da Carne [ou Eyes Wide Open, título internacional] faz dois judeus se apaixonarem numa Jerusalém ortodoxa. Neste cenário religioso e conservador, Deus é um tanto carrasco, que faz seus servos passarem por testes durante a vida. A pergunta “Por que Deus criou o desejo?” é respondida imediatamente pelo mesmo judeu que levantou a questão: “Para a purificação da alma. Temos uma missão”. E é assim que Aaron, o dono desse pensamento, encara sua homossexualidade, inibida através de sua família, esposa e a penca de filhos que fez. Não dá para culpá-lo. Quando começa a viver um relacionamento homoafetivo com Ezri [segundo ele, “uma obra-prima”, e não há do que discordar], um judeu a quem dá emprego e abriga num quarto  em seu açougue após sua chegada na cidade, a comunidade reage pautada em suas crenças. É um preconceito “justificável” – e meta aspas aí, por favor -, reflexo do Deus que acreditam, somado a todo aquele discurso ignorante e estúpido de por em risco as crianças e tudo mais. Não seria muito diferente da realidade do brasileiro, mas, ao menos aqui, não são pendurados cartazes pela cidade informando a “vergonha”, nem apedrejam seu estabelecimento. É quase uma cassação. E tudo isso sem nenhuma manifestação pública de afeto, apenas na sugestão.

Porém, em filmes com temática gay, mais interessante que as imposições externas, são as dificuldades que eles impõem para os próprios sentimentos, ainda que, obviamente, seja um reflexo desse meio. Em O Pecado da Carne, Deus é o fator determinante para a auto-repressão. A homossexualidade é, em sua essência, um pecado, te afasta dEle e precisa ser vencida. Não é mais que um desejo da carne, a qual precisa ser sacrificada – e nesse sentido, percebe-se que o açougue, local onde os personagens não apenas trabalham, mas concretizam seu amor,  funciona como uma forte analogia com os conflitos e ideologia dos personagens. Mais uma vez, vê-se um amor libertador só por ser verdadeiro. Verdadeiro com o próximo e com consigo mesmo. E ainda que essa catarse soe familiar para filmes do gênero, Haim Tabakman faz um um bonito trabalho, com delicadeza e discrição, num contexto que também deve ser colocado em pauta.

nota | 7,5

preciosa – uma história de esperança [lee daniels, 2009]

Preciosa é um poço de desgraça. A história da menina que dá título ao filme começa infeliz, e à medida em que é narrada, agrava em crueldade e covardia. Dependendo do seu grau de sentimentalismo, prepare-se para litros de choro, vindos também de uma esperança e otimismo que o filme precisa inserir – algo que o pavoroso subtítulo brasileiro sugere – após longos minutos depressivos. Como tudo se dá, porém, pode dificultar um envolvimento mais profundo por parte do público. Em outras palavras, encaro da seguinte forma: ou essa desgraça – e a salvação que está por vir – te deixa emocionalmente arrasado ou Preciosa não é mais que uma tentativa frustrada de fazer cinema e emocionar. Um professor – ou professora, no caso – que surge como um messias para transformar a vida da protagonista – negra, humilhada, também pela própria família, e num cenário que não oferece soluções – já não cheira a novidades. E enquanto o roteiro piora esse quadro, Lee Daniels faz escolhas questionáveis de edição, que vão desde o incompreensível [spoiler quando a menina é informada que o pai é soropositivo e a conversa é interrompida por sua imaginação –  inclusive, um problema que se repete constantemente /spoiler] ao destoante [Precious na sala de aula, com a câmera girando e girando enquanto alguns vídeos são exibidos nas parede da sala], mas acerta na fotografia, que muito contribui para o desconforto nas cenas passadas na casa da protagonista. Daniels acerta na mesma proporção de seus equívocos, mas no geral, entrega um filme mediano e frio, que reside sua maior vitalidade nas interpretações. Apesar de achar que Mo’Nique é favorecida por sua personagem, desempenha com a eficiência para tornar a mãe de Precious odiosa e repulsiva. E Gabourey Sidibe, na pele da personagem-título, é o melhor do filme. Ok, ele não oferece muita coisa, mas não deixa de ser um mérito da atriz. Porém, nada é de encher olhos. Nem de lágrimas, nem de admiração.

nota | 6.5