10 filmes da minha infância

Virei homenzinho, não ganho mais presentes e 12 outubro se transformou em apenas um dia sem aula na faculdade. Não há mais nada a ser comemorado. Aliás, nunca houve o que ser comemorado. É mesmo uma data que se resume em pais mais pobres e crianças mais felizes. O receio de remorso, porém, aproveita o dia de hoje para postar os 10 filmes que marcaram a infância deste blogueiro que não assistiu Os Goonies, Curtindo a Vida Adoidado e De Volta para o Futuro na Sessão da Tarde há alguns anos. Eu juro que esses filmes nunca passaram na minha televisão! Mas tive boas experiências, outras inesquecíveis, outras traumatizantes.

Vamos a elas. Feliz dia das crianças, amiguinhos! E não deixe de dizer quais foram os filmes da sua infância nos comentários.

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exorcistaO Exorcista

Começo pelo mais traumático. Entre meu irmão, minha prima e eu, três crianças que não se separavam, eu era o mais novo, o mais bobão, o mais fácil de ser enganado. Chegaram com o VHS de O Exorcista informando apenas ser um filme de terror, nada de mais, e como desconhecia o significado do título, encarei a aventura. Resultado: meses e meses lembrando da Regan todas as vezes em que colocava a cabeça no travesseiro para dormir. A primeira noite após assisti-lo, passei em claro – no quarto dos meus pais, obviamente -, acordando minha mãe entre pequenos intervalos de tempo com medo da minha cama balançar e o demônio se apossar de mim.

operacaocupidoOperação Cupido

Confesso: Operação Cupido já foi meu TOP 1 de todos os tempos. Isso quando o assisti pela primeira vez, claro, há longos anos. Foi quando também torcia para ir a algum acampamento e encontrar um irmão gêmeo perdido e com ele unir novamente nossos pais. Hoje meu top 1 já não é mais esse, mas toda vez que passa no Disney Channel faço questão de assistir. E faz lembrar que a Lindsay Lohan também já foi uma criança fofa e normal.

ovoodonavegadorO Vôo do Navegador

Clássico do Cinema em Casa, marcou muita das minhas tardes em que não ia a aula. Acho que não é muito popular [ou é?], mas me lembro até hoje de algumas cenas com perfeição, daqueles bichinhos estranhos e de uma cena que eu morria de medo, na qual aparece o pai do menino envelhecido. Por qual motivo, eu não faço a menor ideia.

ToyStoryToy Story

Assisti a primeira animação computadorizada no cinema!, o que já seria razão suficiente para entrar na lista. Mas também comprei o VHS logo no lançamento, então aconteceu de não parar de assistir, decorar as falas, as músicas, que estão bem gravadas até hoje. Toy Story também foi uma grande influência: escrevi meu nome na sola do pé do meu boneco de Ultraman e fazia-o dormir ao meu lado.

showdown_in_little_tokyoMassacre no Bairro Japonês

Aqueles homens tatuados me amedrontavam. A primeira vez que assisti, o choro veio na sequência da sauna – até hoje não me esqueci -, onde ocorre um massacre, muito sangue, a água da piscina fica vermelha e por aí vai. O final também marcou, em que o vilão é preso numa espécie de roleta e começam a girar o rapaz. Uma coisa do tipo. Em toda exibição pela TV, o medo surgia, mas não deixava de assistir. Agora me pergunto por que meus pais deixavam eu ver um filme como esse.

monella_travessaMonella – A Travessa

Tinto Brass fez parte da minha infância. Isso para uma criança pode ser traumatizante. Mesmo sendo uma comédia-erótica – mais erótica do que engraçada -, a atendente da locadora deixou eu alugar Monella. Foi uma das primeiras vezes que vi cenas de sexo com forte erotismo, com direito a captura das partes íntimas. O problema é que já com um tempo de filme, meu pai chegou em casa  e mandou desligar imediatamente o vídeo-cassete – ainda assistia com a minha prima, o que agravava a situação. Em seguida, meu pai foi ter uma conversa séria com a atendente da locadora.

matildaMatilda

Até hoje é um filme que tenho um grande prazer em assistir, continuo achando divertido. A sequência em que Matilda invade a casa daquele monstro da escola me encheu de tensão. É engraçado como algumas cenas ficam bem registradas: ainda me recordo da fita vermelha da personagem principal presa na árvore. E que criança não gostaria de ter poderes como os de Matilda?

problem_child_2O Pestinha 2

Taí uma sequência melhor que o original. Não gostava do primeiro O Pestinha – e posteriormente, nem do terceiro -, mas essa continuação era um dos filmes preferidos da minha infância. O que o tornava tão divertido era a presença daquela garotinha loira infernizando a vida do Junior. E tudo terminava num casamento bizarro.

dolph-m77Mestres do Universo

Adoro! Ou adorava, não sei. A adaptação de He-Man para o cinema não vingou, mas quando eu tinha não sei quantos anos, achava uma obra-prima, além de gostar do desenho original. A sequência num salão de festas, onde uns monstros percorriam o casal principal, era a minha preferida. E só fui saber um dia desses que Frank Langella é o Esqueleto! Curiosidade que assusta: Dolph Lundgren em dois filmes da lista.

rei_leaoO Rei Leão

Deixei o melhor para o final. O Rei Leão não é somente um dos filmes da minha infância, mas um dos filmes da minha vida. Como eu disse lá no Cine Resenhas, foi minha primeira experiência no cinema e o precursor da minha coleção de VHS de desenhos Disney. Aliás, poderia fazer uma lista somente com os desenhos do estúdio. Todo mês, ia à loja com meu pai comprar um novo título. Foram muitos: Pocahontas, Mogli, Aristogatas, O Cão e a Raposa, O Corcunda de Notre-Dame, Aladdin e os 40 Ladrões e a lista segue. Porém, essa história é inigualável. Obra-prima.

festival do rio 2009 | resenhas de bolso

eu matei minha mãe

Eu Matei a Minha Mãe [J’ai tué ma Mère, de Xavier Dolan, 2009]

O título desperta curiosidade e não passa despercebido. Através dele, se espera uma relação nada amistosa entre um filho e sua mãe – ou um matricídio, sendo mais lógico – neste longa de estreia do jovem diretor canadense Xavier Dolan, de apenas 20 anos. Assinando também o roteiro e encabeçando o elenco ao lado da ótima Anne Dorval, no papel da mãe, o precoce Dolan é eficiente nos três oficios, criando um leve drama com momentos divertidos – ou o inverso, já que as duas vertentes são muito bem dosadas, sem pesar para um determinado lado. Explorando a relação complicada e ditada pelas diferenças entre os dois personagens – eles parecem realmente nunca se entenderem -, o filme nos mantém próximo ao rapaz, que, em seus depoimentos para a câmera, procura fazer entender para o público e para si mesmo as dificuldades de convivência dentro de casa. Marcado pela ausência paterna e lidando com a homossexualidade de forma natural, o que gera a situação mais engraçada do filme, Eu Matei a Minha Mãe vale, sobretudo, pela agradável sensação de assisti-lo.

nota | 7.5

coco avant chanel

Coco Antes de Chanel [Coco Avant Chanel, de Anne Fontaine, 2009]

A famosa estilista francesa Coco Chanel ganha sua cinebiografia através da diretora Anne Fontaine. Sendo mais preciso, o filme passa rapidamente por sua infância, quando é deixada no orfanato pelo seu pai, e foca-se, basicamente, em seu romance com o inglês “Boy” Capel, ao passo que sua inclinação para a moda surge como fruto da insatisfação com as ostentadas vestimentas femininas da época. E não apenas em relação às roupas, mas também quanto a ideias e atitudes, Coco se mostra uma mulher a frente de seu tempo, de uma postura firme que Audrey Tautou impõe com perfeição em mais um grande trabalho. Claro, tudo é romantizado e diversos momentos da vida de Coco são deixados de lado [seus famosos perfumes, onde estão?]. Ao lado de Tautou, os grandes destaques são, como esperado, os figurinos [indicação ao Oscar já!] e a trilha sonora de Alexandre Desplat.

nota | 7.5

os famosos

Os Famosos e os Duendes da Morte [idem, de Esmir Filho, 2009]

Os Famosos e os Duendes da Morte surge como um exemplar raro em meios às recentes produções nacionais. Tudo é desconhecido, desde a ambientação – uma isolada cidade do Sul do Brasil -, até o elenco sem nomes famosos e o diretor Esmir Filho, em sua estreia em longas-metragens. Mas a principal diferença vem da experiência que o filme pode proporcionar. Se durante a projeção, passado e presente, sonho e realidade, distância e proximidade se misturam e se confundem, ao seu término, resta um vazio imenso, a impressão que os personagens se revelaram parcialmente e os fatos não passaram de sugestões. É um filme aberto, em que os acontecimentos surgidos, ligados sempre a um passado sem definição, são vividos por personagens sem nomes, jovens, em autodescoberta, que fogem do isolamento terreno através da tela do computador e da internet. Assim, Os Famosos e os Duendes da Morte se completa na subjetividade do espectador, o qual, ao som de Bob Dylan e pela fotografia, mais uma vez, irrepreensível de Mauro Pinheiro Jr., assistiu ao maior destaque brasileiro do Festival do Rio 2009. Triste, depressivo, intimista, mas lindo, lindo demais. Vencedor do prêmio de Melhor Longa de Ficção pelo Júri Oficial.

nota | 9

sonhosroubados

Sonhos Roubados [idem, de Sandra Werneck, 2009]

Mais uma vez, a periferia carioca ganha espaço na tela do cinema. A diretora Sandra Werneck foca na prostituição de meninas menores de idade trazendo à tona uma realidade incômoda. O cenário é violento, a educação é falida, a família é inexistente e a situação particular de cada menina não favorece. Parece redundante e familiar – de certa forma, é -, mas Sonhos Roubados é um filme eficiente em sua proposta. Ao mesmo tempo em que pergunta ao público qual seria então a solução para essas meninas, uma vez que parecem acuadas pela falta de saídas, o próprio filme responde no mesmo grau de realidade, sem sensacionalismo ou tom de denúncia. Peca em partes por vitimizar ainda mais o que já está desfavorecido, mas se sustenta, além do tema, pelo trabalho técnico [mais uma ótima fotografia de Walter Carvalho] e pelas atuações, que até os atores mais novatos se sobressaem entre Marieta Severo e Daniel Dantas. Destaque para Nanda Costa, vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival.

nota | 7.5

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Abraços Partidos [Los Abrazos Rotos, de Pedro Almodóvar, 2009]

Pedro Almodóvar sempre gera expectativas. Em Abraços Partidos, elas são superadas. Em mais uma parceria com Penélope Cruz [novamente brilhante e com uma presença arrasadora na tela, como tem sido ultimamente], o diretor espanhol monta uma narrativa consistente, em que os desdobramentos dos acontecimentos revelam aos poucos uma história com surpresas até seus últimos momentos. É mais uma epopeia do diretor, com cores fortes, bela harmonia entre figurino e direção de arte e algumas cenas que só um cineasta com o apuro visual de Almodóvar é capaz de criar – interessante também como faz uso da metalinguagem presente na trama. O final é dos mais engraçadas, e se não desse tudo tão arrumado para o espectador, seria ainda melhor.

nota | 8

bad lieutenant: port of call new orleans [2009]

festrio2009

Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans, de Werner Herzog
EUA, 2009
Mostra Panorama do Cinema Mundial


badlieutenant

A primeira conclusão que se tem ao término de The Bad Lieutenant é que Werner Herzog tirou Nicolas Cage do fundo do poço. Depois de protagonizar um desastre após o outro nos últimos anos, Cage teve a chance de se redimir na nova produção do diretor alemão, indício de um possível resquício de tato para bons projetos e capacidade de ainda render ótimos papéis – pois se foi o tempo de Coração Selvagem… Mas como Terence McDonagh, o ator cria um policial  eticamente questionável e ambíguo. Viciado em drogas, de cocaína a crack, e em apostas, ele chefia a missão em busca dos principais traficantes da região, possíveis envolvidos com o assassinato de uma família de imigrantes. Sem limites algum para sair ileso da grande odisseia que acaba se formando e abusando de sua autoridade policial para isso [a cena da farmácia e o interrogatório da idosa são memoráveis], Cage cria um personagem altamente corruptível, mas igualmente adorável, indo ao encontro da abordagem que Herzorg dá à história.

Porque The Bad Lieutenant é sacana, irônico, insólito e tem seu nível de deboche superado até o último momento. Não é para ser levado muito a sério – ou as alucinações do personagem do Cage são algo além de uma grande brincadeira do diretor? -, uma vez que o roteiro joga com o absurdo para inserir sub-tramas e fazer do acaso o motivo para desencadeá-las.  Sem ignorar, porém, o embate entre os dois lados que regem a cidade – e a figura de McDonagh surge exatamente como dissolução desse meio – e o forte enredo policial que se mantém ao longo das duas horas. Contudo, Herzog parece se divertir com tudo isso. E fica difícil o espectador não fazer o mesmo.

nota_8