carnaval atlântida

[eu não queria escrever, mas prometi pra minha pessoa que irei escrever sobre todo filme brasileiro que assistir – e talvez nao brasileiro também, ainda estou resolvendo com ela. nem que seja uma frase, um adjetivo ou vinte parágrafos.] estava achando Carnaval atlântida uma maravilha até certo ponto. aquela coisa da metalinguagem é bem bacana, meio ácida. Cecílio B. de Milho é genial! quando falam que as chanchadas eram uma cópia barata, inferior, b, dos musicais hollywoodianos eu concordo em parte, porque sim, tem cara de b – a sequência do sonho do josé lewgoy tem uma cenografia terrível, poucos tecidos suspensos ao fundo, parecia essas escolas de samba do grupo de acesso do rio de janeiro -, mas havia certa ironia/crítica, ainda mais depois do anos 50, como aquele final de Depois eu conto, de 56. era como se o próprio cinema brasileiro falasse para ele mesmo que não está pronto para filmes como Helena de Tróia, uma superprodução. era como se, o que é bastante grave, falasse para si mesmo: você está condenado aos musicais carnavalescos! mais grave ainda: o cinema brasileiro, o brasil, o cinema brasileiro como manifestação cultural, não é nada além de carnaval e uma história com mocinhos e vilões. por um lado, tem a questão “qual a necessidade do brasil contar uma epopeia grega?”. se fosse contar, que fosse mesmo com a nossa cor local – no fim das contas, é mesmo o que os personagens propõem, e é bom, parece-me coerente. aliás, não era isso mesmo que as chanchadas faziam, depositar a cor local no que veio de fora com cor de fora? mas isso se faz de muitas maneiras. não fazíamos da melhor maneira, nossos bailarinos eram ruins, havia pouco sincronismo, rara beleza nos movimentos e na imagem. no outro lado, outra questão: “só temos histórias embaladas em pacotes carnavalescos?” não é fácil condenar a chanchada na mesma proporção que não é fácil defendê-la. terreno irregular, bem mais impreciso ao pisá-lo que quando avistado de fora. em carnaval atlântida, os números musicais carnavalescos são bem inseridos, ou melhor, acontecem algumas vezes em meio a um diálogo, o que é esporádico nos filmes do gênero – geralmente são aquelas sequências consecutivas que nunca chegam ao fim, como em Tudo é azul. não esperava, por exemplo, grande otelo e colé santana puxarem “se você pensa que cachaça é água!” no fim daquela cena engraçadíssima, nem aquele número do oscarito com a cubana (maría antonieta pons), isso me agradou. em contrapartida, que história mal construída! o romance dos bonitinhos eliana e cyl farney, o noivado da cubana com o lewgoy, o mote dos detetives, o desfecho do lewgoy – tudo muito mal desenvolvido, mal escrito. uma coisa é ser bobo, banal, simples, outra coisa é ser ruim. perguntei-me em alguns momentos como o cinema brasileiro conseguiu viver tanto tempo com as chanchadas. questionamento ruim, do meu tempo. mas não é um desprezo, jamais, é só um pensamento pós-cinema-novo, pós-retomada. não me julgo.