maré – nossa história de amor [dir.: lúcia murat, 2007]

Sempre penso muitas vezes antes de escrever sobre um filme que não tenha gostado, porque, por menor que seja o comentário, isso me fará relembrar a experiência ruim de assisti-lo, do mesmo modo que transcrevê-la não me trará o menor prazer – exceto quando são filmes como High School Musical – O Desafio, que já são motivos de piadas por si só. Dito isso, não sei o que me motiva a comentar Maré – Nossa História de Amor, já que o filme se leva bastante a sério, pretendendo alcançar relevância do ponto de vista social e passar boas mensagens – não que o cinema precise disso, mas se quer transmitir algo de positivo  para o espectador [e falar da capacidade de transformação do indivíduo pela arte, como o filme pretende, é sempre válido], que seja de forma bem feita e bem construída. Porém, o resultado é desastroso para uma obra que quer ser muito. Vale dizer ainda que Maré tenta, com muitos tropeços, transpor a clássica história de Romeu e Julieta para a periferia carioca: ao invés de Montecchio e Capuleto, temos o lado A e o lado B da favela, cada um dominado por um grupo de traficantes, e, logicamente, o casal principal é separado por essa divisão. Mas essa proposta – a qual, particularmente, acho até promissora, mas que deve ter feito Shakespeare se contorcer em seu túmulo – é mal explorada pelo roteiro, como tudo que o longa pretende contar: a índole dos personagens mudam de um instante ao outro – e por isso a tal mensagem positiva acaba não surtando efeito algum -, acontecimentos surgem na tela sem o menor preparo, os diálogos repetem as mesmas ideias para o espectador, por mais que, ao fim do filme, pareça que nada foi, de fato, contado. O romance, aliás,  é quase que negligenciado com o decorrer do longa – o que é um erro grave para uma história de amor – e parece incapaz de parecer justificável ou ganhar a empatia do espectador – inclusive eu, um ser sensível por excelência, gargalhei com o final trágico.

Porém, a diretora Lúcia Murat é que, surpreendentemente, já que havia realizado um trabalho satisfatório em Quase Dois Irmãos, apresenta um amadorismo que transforma Maré num filme desconfortável. Não apenas uma vez, a cineasta encerra suas cenas erguendo a câmera para o alto e fazendo movimentos incompreensíveis, transforma sequências de tiroteio em brincadeira de criança – até porque os tiros soam sempre muito falsos – e, por algum motivo, insere rappers cantando vez ou outra, num fundo nitidamente digital, um breve resumo do que está acontecendo na história, o que, além de extremo mau gosto e carente de sentido narrativo, parece que um videoclipe com uma música muito ruim pode interromper o filme a qualquer momento. Os números musicais poderiam amenizar o resultado final, mas talvez, com esforço, apenas um não soe gratuito, apesar de pecar na execução [“Minha Alma (A Paz que eu não quero)”]. No fim, quando não é ruim, Maré – Nossa História de Amor é redundante.

nota | 1

Anúncios

stanley kubrick * 26/07/1928

O receio de remorso resolveu fazer jus à soberania dos maiores diretores que já estiveram entre nós. Se comentei que Bergman é um dos diretores favoritos deste blog, acrescento que Stanley Kubrick ocupa a primeira posição dessa predileção. Preciso agradecê-lo afinal, pois veio com Laranja Mecânica e De Olhos Bem Fechados – só entraria em contato com 2001: Uma Odisseia no Espaço anos depois, o qual considero o melhor filme do diretor  – a percepção que o cinema poderia ser algo muito além do que estava costumado a ver e sentir. Se gosto de cinema, Kubrick é o maior culpado.

Hoje, Stanley completaria 82 anos. E talvez seja o momento oportuno para relembrarmos momentos inesquecíveis de filmes que, sem dúvidas, fazem do cinema uma arte por excelência.

férias frustradas de verão [dir.: greg mottola, 2009]

Pensamentos imediatos me ocorreram ao fim de Adventureland. O primeiro – e nem precisa assistir ao filme para chegar a tal conclusão – é o quanto as distribuidoras brasileiras são capazes de acabar [leia-se foder] com a imagem de um filme ao adaptar seu título para Férias Frustradas de Verão. Eu pensei muitas vezes se estaria fazendo a coisa certa ao assistir Férias Frustradas de Verão, e não é questão de julgar o filme pelo título, mas não dá para esperar algo interessante de uma história com esse nome. [Sem contar que o título original é muito legal e poderia ser mantido, da mesma forma que a produção merecia entrar no circuito nacional e não foi.] O que me encorajou – e assim chego à segunda observação – foi Greg Mottola, um diretor que, como mostrou no engraçado Superbad, sabe fazer filmes sobre adolescentes, sem descer o nível ou apelar para pornografia para fazer rir. Desta vez, Mottola, além de divertir [destaco a cena da piscina que me causou gargalhadas], é eficaz no andamento da narrativa, que segue em ritmo constante mesmo com  as esperadas reviravoltas. Muito por conta da excelente – e nostálgica [a história se passa no final dos anos 80] – trilha sonora e personagens que vão além dos arquétipos típicos de longas do gênero, e ainda que lide com o virgem, o nerd ou a gostosa, Mottola consegue facilmente romper a superficialidade dessas figuras. Mérito também do elenco – acho que Jesse Eisenberg ainda pode render bons trabalhos e Bill Hader tem o papel mais engraçado do filme -, que entre muitos nomes, preciso reservar uma atenção especial à Kristen Stewart, a qual faz parte da minha terceira conclusão. Eu me surpreendo como Kristen consegue ser extremamente bonitinha e atraente em filmes que não sejam da Saga Crepúsculo, me fazendo suspeitar de um suposto mal aproveitamento da atriz. Foi assim em Na Natureza Selvagem e é também em Adventureland, em que toda a atração sentida pelo protagonista por sua personagem parece justificável. E mais, somos capazes de torcer para que tudo termine bem entre eles. Algo que, aliás, foi minha quarta e última observação: a potencialidade de uma história nos fazer torcer por um final feliz que nunca, nunca aconteceria na vida real. Às vezes essa fantasia do cinema me deprime…

nota | 7,5

como esquecer: novo filme [gay] nacional

O tema da homossexualidade está de volta ao cinema brasileiro. Depois da desagradável surpresa de Do começo ao Fim, de Aluízio Abranches, que ano passado prometia ser o primeiro longa-metragem nacional a narrar uma história de amor entre duas pessoas do mesmo sexo com a esperada atenção necessária – e fracassou não só pela abordagem rasa do tema, mas também, e ainda mais grave, como cinema -, Como Esquecer, com estreia prevista para outubro deste ano, é a nova produção nacional que trará o assunto à tona, com suposto carinho e naturalidade.

Baseado no livro Como Esquecer – Anotações Quase Inglesas, de Myriam Campello, e dirigido por Malu de Martino [Mulheres do Brasil], por mais que pareça suprir a carência – sentida principalmente pelo público gay – da falta de produções brasileiras que desenvolvem, sem estereótipos e com verdade e humanidade, personagens homossexuais,  o filme traz a opção sexual como pano de fundo para falar sobre amor, desilusões e um passado ainda muito presente devido ao fim de relacionamentos. A opção soa acertada, de não lidar com conflitos sexuais e mais com sentimentos, que não são menos reais ou universais por serem vividos por personagens gays. É aquela conhecida abordagem de tornar todos iguais diante o amor, a qual ainda se mostra relevante em nosso país.

No filme, Ana Paula Arósio é Julia, uma professora de literatura inglesa que tenta reconstruir sua vida após o término de um relacionamento homoafetivo de dez anos. Em meio a conflitos internos, tenta se readaptar ao morar com seu amigo [Murilo Rosa], também no fim de um relacionamento gay, e ao longo do filme, ela vai encontrando outras pessoas que também vivem, cada uma a seu modo, a experiência de ter perdido algo muito importante em suas vidas.

Em entrevista para o programa Revista do Cinema Brasileiro, a diretora comenta detalhes sobre Como Esquecer e o faz soar como uma boa promessa. Fiquemos no aguardo.

+ informações | blog | twitter | orkut | facebook