nove motivos para assistir nine

1) Ser desprezado pela maioria dos Sindicatos – e possivelmente do Oscar daqui a alguns dias – não significa muita coisa. Claro que para um filme que surgia como forte aposta para as premiações ser imensamente criticado pela imprensa internacional – e começa a seguir a mesmo caminho entre os críticos brasileiros  -, a expectativa diminuir gradativamente é quase inevitável. Mas nessa altura da vida, você já deve ter percebido que essa história de premiação de cinema é meio bobagem, não é verdade? Eles são injustos, não premiam o que a gente gosta, indicam Sandra Bullock por A Proposta, Renée Zellweger por Cold Mountain, etc etc. E a crítica, bem, melhor confiar em nosso gosto.

2) Rob Marshall não inspira muita confiança. Chicago passa longe de ser um  bom representante de musical e Memórias de uma Gueixa é ótimo para dormir. Mas ele pode acordar não muito inspirado de vez em quando. Em Nine alcança um trabalho satisfatório, ainda que limitado. A construção da narrativa talvez seja o mais problemático. Apesar da maneira como apresenta cada música soar coerente com a proposta do filme, sua estrutura – e a força como musical – acaba comprometida, inevitavelmente. Com isso, as sequências musicais, de certa forma, soam um tanto episódicas, como se a imaginação de Guido, como um cenário em construção e inacabado, não fosse recurso suficiente para interligá-las – o número Cinema Italiano, por exemplo, como a própria personagem da Kate Hudson, parecem deslocados demais da narrativa e, sobretudo, do universo de Guido. São problemas que, caso não existissem, fariam de Nine um musical dos melhores. Mas para Rob Marshall, digamos que está ótimo. Cenas como a que encerra o filme mostram que ele está evoluindo.

3) Para quem gosta de musicais – eu gosto muito, e isso provavelmente fez diferença -, a maioria dos números já valeria a sessão. Alguns são apagados, como o primeiro de Daniel Day-Lewis e o da Mulher-Borracha [Sophia Loren assustadora], mas principalmente “A Call From The Vatican”, “Be Italian”, “My Husband Makes Movies” e “Cinema Italiano” são espetaculares.

4) Nine tem ótimas músicas. Não é apenas tratamento visual ou contribuição da coreografia, o álbum com as canções do filme é para ser ouvido muitas vezes após assisti-lo. Das canções ainda não comentadas, poderia citar “Take It All” e “I Can’t Make This Movie”. [Também gostei de “Unusual Way”, mas acho que a voz da Nicole Kidman só não me irrita em Moulin Rouge!].

5) Ainda que a direção de arte seja eficiente quanto à recriação da época e ao apuro visual – sobretudo o estúdio de cinema e os momentos musicais -, os figurinos merecem ainda maior destaque – o vestido vermelho de quando Penélope Cruz chega à estação de trem rouba a atenção.

6) Daniel Day-Lewis e Penélope Cruz entregam ótimas cenas quando contracenam. Judi Dench também tem bons momentos com o protagonista.  Kate Hudson aparece pouco mas tem presença. Só Nicole Kidman que prometia mais, mas faz bem o que propõe. Em resumo, é muita gente boa num filme só.

7) Marion Cottilard merece um tópico só para ela. Se não bastasse a beleza hipnotizante e o talento já indiscutível, canta absurdamente bem e tem um número musical muito divertido e sensual, “Take it all”.

8) Seria muita estupidez comparar 8 1/2 com Nine. O que se pode dizer é que foi uma forma diferente de se contar os conflitos de Guido. E por isso, válida.   Como Nine não poderia alcançar o que a obra do Fellini possui, é quase um sacrilégio Marshall ter buscado na sequência de Saraghina [Fergie] – e em algumas outras, mas em menor grau – tamanha semelhança estética com o longa original. Quase o xinguei pela ousadia. Mas o filme tem uma nova leitura que merece atenção, desde que a coloque em seu devido lugar.

9) Nota 8.

roberto carlos em ritmo de aventura [1968]

(idem, Roberto Farias, 1968) Talvez você se pergunte o que leva alguém, por conta própria, assistir Roberto Carlos em Ritmo de Aventura. Eu te respondo atribuindo culpa à minha curiosidade, a qual não se manteve indiferente quando li a seguinte sinopse num site de download de filmes: “Roberto Carlos faz um filme, quando se vê perseguido por bandidos internacionais que queriam levá-lo para os Estados Unidos. Os bandidos o seguem em loucas correrias pela cidade, na estrada do Corcovado, em situações de perigo”. Então o cinema brasileiro tem um raro exemplar de filme de ação, com sequências musicadas, e ainda estrelado pelo Rei. Sem dúvidas, imperdível. E claro, a sinopse não somente anunciava um desastre como, aos créditos finais, conclui-se que ele é muito – com negrito, itálico e sublinhado – pior do que poderia imaginar. Está na mesma proporção dos filmes de hoje da Xuxa, com a diferença de que a Rainha dos Baixinhos sabe ser medíocre com recursos modernos.

Em Ritmo de Aventura é antológico da primeira à última cena. Ao som de “Eu Sou Terrível”, o filme tem início com uma  sequência de perseguição em plena estrada do Corcovado, que faria Michael Bay morrer de inveja. Roberto Carlos, mesmo perseguido por um grupo de mafiosos, está sorridente e com os cabelos esvoaçantes, parecendo qualquer coisa, menos terrível, como informa a trilha sonora. Após sequências de tiros de pular da cadeira tamanha a empolgação, pimba!, o Rei, com toda sua majestade,  surge no braço do Cristo Redentor [!], diz que não é James Bond e reclama com o diretor (Reginaldo Farias no papel de Roberto Farias, o verdadeiro diretor do longa) da quantidade de metralhadoras logo no início do filme. Permita-me reproduzir o diálogo que segue entre o diretor e um dos bandidos:

Diretor: Que negócio é esse de metralhadora?
Bandido 1: Ué, foi seu assistente que mandou!
Diretor: Se o assistente mandar você se atirar de cabeça debaixo de um trem você se atira?
Bandido 1: Me atiro sim, senhor.
Diretor: Metralhadora agora não!

Se não bastasse a construção primorosa do texto, é preciso ressaltar que o diretor, por algum motivo, está na cabeça do Cristo Redentor e o bandido, negro, com roupa africana, mas de sotaque chinês, lá embaixo. Problema resolvido: o assistente retira a arma e a perseguição pode continuar, agora ao som de “Por Isso Corro Demais”. A esta altura, fica claro que sentido narrativo é pura bobagem e o mais importante é inserir o máximo de músicas possíveis do Roberto Carlos, sobretudo do CD de mesmo título do filme, lançado em 1967. Desta forma, o espectador já não se surpreende quando, após a sequência em  que joga granadas nos bandidos cantando “Você Não Serve Pra Mim” [!!!], Roberto Carlos surge dentro de um helicóptero, vestindo uma nova roupa, e foge por Botafogo, passa por Copacabana, enquanto “Namoradinha de um Amigo Meu” toca ao fundo. Quando chega na Av. Presidente Vargas, a música já é “Canzone Per Te”. Todas na íntegra, vale dizer.

Mas tudo que é muito bizarro só consegue ser engraçado no início. No decorrer do filme, a graça cede lugar ao insuportável. A maior motivação era saber que aquilo poderia ficar cada vez mais estranho – e ficou. Há coisas ainda mais surpreendentes no decorrer do longa, que desafiam qualquer sentido lógico e narrativo. Para não contar mais detalhes e estragar a surpresa caso alguém queira assisti-lo [alguém?], só preciso informar que Roberto Carlos ainda canta “Como é Grande o Meu Amor Por Você” para uma boneca de pano, viaja de foguete para o espaço,  e tudo termina numa cena de guerra. Divirta-se!

nota | 1*

* 0,5 pela metalinguagem que de tão estúpida é genial + 0,5 pelas músicas, que mesmo fora de contexto, ainda são Roberto Carlos.

julie e julia [2009]

(Julie & Julia, Nora Ephron, 2009) Sempre suspeitei dos 123 minutos de duração de Julie e Julia. Parecia longo demais para um filme nos moldes convencionais de Nora Ephron. Não estava errado, é mesmo muito tempo para contar uma história que poderia até ser mais agradável se mais enxuta. O início, por um lado, reserva boas expectativas com a história de Julia, seja por Meryl Streep, por Stanley Tucci, pela reconstrução de época bonita e elegante, surpreendente pelo o aspecto visual que atribui a este segmento;  por outro, o núcleo de Julie se agarra numa história comum, da mulher que irá encontrar em alguma atividade, que nada tem a ver com seu trabalho, uma fuga da rotina diária e, no fim do filme, um sentida na vida. O que há de interessante na relação entre as duas personagens é a grande importância de Julia para as decisões de Julie. Para o espectador, que acompanha as duas histórias paralelamente, essa forte relação se justifica ao passo que as semelhanças entre elas  se evidenciam. A edição favorece com os jogos visuais que unem os diferentes tempos narrativos, Streep entrega mais uma interpretação digna de premiações – e preciso ser redundante e atribuir a ela a maior qualidade do longa -, Amy Adams é sempre cativante e Stanley Tucci, um coadjuvante seguro e de destaque. Mas, por que  tanta demora para o final já sabido? Ainda que a participação de Jane Lynch seja triunfante, o surgimento de sua personagem contribui em nada para o desenvolvimento do mote principal, da mesma forma que o longo processo de produção do livro de Julia podia ser reduzido e a culinária ganhar mais espaço. Deu pra gargalhar na cena da cebola, mas também pra ficar entediado em algumas outras que viriam em seguida.

nota | 7

joseph and the amazing technicolor dreamcoat [1999]

O que indagava a cada nova música que iniciava em Joseph and the Amazing Technicolor Dreamcoat era a capacidade de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber imaginarem a história bíblica de José da forma como foi contada neste musical. Não me refiro somente por um texto tão arcaico ter originado canções tão divertidas e modernas, mas pela variedade de elementos que compõe a peça – figurinos, cenários, estilos musicais, etc etc. Porque aqui tem tango, country, disco, hula-hula, rock anos 50 – cantata por um faraó Elvis Presley – e algumas outras músicas que não saberia classificar. E para cada estilo desse, há uma composição de cena fantástica, de fazer Jesus Cristo Superstar um musical de amadores. Apesar de não ser um filme, o diretor David Mallet fez escolhas acertadas e em nenhum momento fica a impressão de teatro filmado – o que desvalorizou bastante Cats e a versão recente de Jesus Cristo Superstar -, sem deixar de captar a riqueza visual de cada sequência – da plateia de um teatro, por exemplo, não dá para se ter um plongée, que quando utilizado por Mallet revela um palco aproveitado do chão a cada extremidade. É um exercício criativo do início ao fim, que vai se superando a cada nova cena. O vídeo de Go Go Go Joseph exemplifica tudo que estou querendo dizer desde o início do post. E se é necessário uma nota: 10, sem pensar duas vezes.