tops 2010 | viagens

Fico bobo. Metade da minha faculdade quando volta das férias comenta a viagem para Paris, a temporada na Itália, e sem esquecer da passada rápida na Alemanha. Admiro. Já eu, não sou ryca nem nada – ir para a Região dos Lagos pode soar como um evento épico. 2010 ainda não foi o ano em que conheci a Europa, mas visitar lugares tão apaixonantes do Brasil – na companhia de amados amigos – foi especial o suficiente para tornar essas humildes viagens inesquecíveis.

 

# Flip 2010 [Paraty – RJ]

A Feira Literária de Paraty tornou-se evento obrigatório anual após a primeira ida ao evento. Mesas e entrevistas são programações fundamentais – e supreendemente prazerosas, quando, claro, os integrantes conduzem com clareza o assunto proposto –  que  ocupam boa parte do dia, reservando para a noite, bem, à noite eu voltava para onde estava alojado, mas não faltam bares e restaurantes na cidade. É claro que Paraty já seria um encanto por ela mesma – ainda que, há de convir, aquelas ruas não sejam o melhor lugar para caminhar. A cidade mais parece uma maquete em escala real, preserva suas marcas e arquitetura e a vontade é regressar alguns séculos e vivenciar a história do lugar. Senti-la, ao menos, é possível logo quando os pés alcançam o chão de pedra – esqueçam a dificuldade para caminhar, a experiência se complementa justamente aí [afinal, que outra sensação podemos vivenciar com tamanha semelhança da sociedade passada a não ser compartilhar o mesmo andar?]. Trago na memória Benjamin Moser e o licor de capuccino.

 

# Ouro Preto/Belo Horizonte [MG]

Há menos de um mês retornei de Minas com a sensação de que a vida precisa ser vivida. Clichê? Demais. Brega? Tão quanto. Mas não foi exatamente essa sensação, na verdade. Foi algo muito parecido com liberdade – se ela existe, creio que a experimentei por alguns dias. Porque a melhor coisa é acordar – ainda que num quarto assustadoramente bagunçado ou com uma ressaca infernal, a qual valeu a pena por todos os acontecimentos da noite anterior, que não vêm ao caso a fim de preservar minha reputação – e ter um dia inteiro numa cidade ainda a ser descoberta com a única obrigação de se divertir. A vida poderia ser assim. Sempre. Como não é,  relembro com um carinho e felicidade imensa a beleza imensurável de Ouro Preto e suas igrejas e ladeiras que muito exigiam mas sempre recompensavam, e a perdição – com as muitas Heinekens e ótimas músicas – e luzes de Natal de Belo Horizonte. Tão importante quanto, as incontáveis risadas dadas e compartilhadas com excelentes companhias.

tops 2010 | 5 CDs

Não acompanhei os lançamentos musicalistas ao longo do ano, exceto dos artistas já aguardados. Então se o seu álbum preferido não estiver aí embaixo, é mais provável eu não ter ouvido que não ter gostado – apesar que metade do mundo ovacionou o novo cd do Arcade Fire e eu nem aguentei ouvir inteiro. Já agora no final do ano ouvi excelentes álbuns – obrigado, Matheus! -, mas por ter ouvido pouco, deixo nas devidas menções honrosas e reservo os mais marcantes para o top.

Segue abaixo, sem ordem de preferência.

 

# Pipe Dreams – Mark Salling

Não colocava a menor fé nesse CD solo do Mark Salling, ainda que suas músicas em Glee estejam entre minhas preferidas. Mas a gente já começa pensar em oportunismo e tal. Talvez não em oportunismo, mas uma coisa como “Continue só fazendo Glee que você vai bem”. Porém, as 4 primeiras faixas do álbum indicam que Pipe Dreams tem seu valor. Mesmo que o resto do CD não tenha o brilho de seu início – mas há ótimas músicas ainda, como “Illusions”, “Fugitive” e a que da nome ao trabalho -, o conjunto é bastante satisfatório por conta da boa voz do ator/cantor e estilo agradável. Melhor faixa: Mary Poppins

 

# Leonie – Jan A.P. Kaczmarek

Apesar do filme ser um completo desconhecido entre nós, a trilha de Leonie felizmente foi lançada este ano, um alívio para quem admira o trabalho do compositor. Kaczmarek mantém o excelente nível de sua trilha sonora anterior, a do longa Sempre ao Seu Lado – há ainda a trilha de Get Low entre esses dois trabalhos, mas apenas a coletânia de músicas do filme foi lançada até o momento -, e obtém um resultado nitidamente ao seu estilo,  predominado pelo piano, violino e violoncelo. Tem lá sua semelhança com a trilha de Ao Entardecer, mas da primeira a última faixa é um deleite. Ouça, mesmo que nunca assista ao filme. Melhor faixa: Yone’s Mad

 

# The Lady Killer – Cee Lo Green

Este descobri já no fim do ano, mas como The Lady Killer se revelava melhor a cada vez que ouvia, sua inclusão na lista era questão de merecimento. E isso segue até hoje, enquanto o CD toca e, pimba, de repente surge uma música ainda melhor que a anterior, te fazendo aumentar o volume e se balançar na cadeira – quando não, levantar e dançar de verdade. As melodias são diversas e um certo ar de nostalgia em algumas canções é só um bônus de um disco que ainda vou ouvir muito em 2011. Melhor faixa: a linda No One’s Gonna Love You

 

# Imperfect Harmonies – Serj Tankian

Com a volta do System of a Down [eba!], talvez este seja o último trabalho solo do Serj – e se sim, encerrou com seu melhor CD individual. Imperfect Harmonies é perfeito – ou quase, sempre pulo “yes, it’s genocide” -, alcança um equilíbrio ideal entre ritmos mais pesados e melancólicos, as composições, menos políticas e mais românticas, agradam e aquela belezinha de voz do Serj fecha o pacote.  Melhor faixa: Gate 21

 

# Night Train – Keane

Muito foi criticado, e, de fato, Night Train não é a melhor coisa que Keane já apresentou, mas o resultado final é acima da média e soa, claramente, como um projeto quase experimental, repleto de parcerias e novidades, como Tim no vocal e música em japonês. O disco é, na verdade, um EP, e isso pode prejudicá-lo pela pouca quantidade de faixas – apenas 8, desfavorecidas pela abertura do CD, uma curta introdução com sons indecifráveis, e pela última faixa, um antigo, porém ótimo, b-side. Mas não importa: ainda é Keane, um tanto diferente e menor que o habitual, mas digno de menção e muitas audições. Melhor faixa: Clear Skies


Menções honrosas | The Family JewelsMarina & The Diamonds, basicamente por causa da linda “Oh No!” | Kaleidoscope HeartSarah Bareilles, que não entrou por pouco | a trilha de Alexandre Desplat para Harry Potter e As Relíquias da Morte Parte 1 | o fofíssimo Música de Brinquedo Patu Fu | 8Bit Heart – Simon Curtis, a coisa mais pop que ouvi este ano | todos os CDs de Glee, que não achei justo colocar na lista por algum motivo que estou até agora tentando descobrir. | Uptade: Acabo de lembrar do Sou EuDiogo Nogueira

 

tops 2010 | 5 acontecimentos

Vamos lá, 5 fatos que marcaram minha vida em 2010. Se isso interessa a você? Ah, bobagem, gente!

# Assistir Six Feet Under

O Felipe Rocha, aquele lindo do Indubitavelmente, me fez o favor – ok, só tive que emprestar uns 30 DVDs a ele – de compartilhar seus boxes de Six Feet Under, série que, possivelmente, é a melhor coisa que já fizeram na televisão norte-americana. Trocá-la por alguns filmes era uma atitude dolorosa, mas sempre válida, já que é impossível ficar indiferente a um episódio da série – vivo tendo descontroles emocionais -, quase um dossiê sobre a vida e a morte. Faltam 11 episódios para chegar ao fim, mas eu não quero me despedir da família Fisher. Assista antes de morrer, sem trocadilhos.

# Sair da igreja [Vou para o inferno?]

Eu cansei. Cansei de religião, cansei de ter que seguir o que um homem fala no púlpito – sem eu poder questionar demais, porque se eu questionar demais tenho grandes chances de ser repreendido e me sentir culpado por agir diferente -, cansei de acreditar que a Bíblia pode ditar por completo nosso comportamento hoje, cansei das pessoas que pregam amor e são incapazes de aceitar diferenças, cansei de pessoas que falam de Jesus aos berros – quando que Jesus era pura mansidão -,  cansei porque me apresentaram um Deus que é muito diferente do qual eu creio. Prefiro passar as noites de domingo em minha casa.

# – Mãe, sou gay.

Saiu um elefante das minhas costas. Comecei com um “Mãe, não sei nem se Deus me aceita, mas eu queria que você me aceitasse” para impactar de uma vez. A partir daí seguiu uma conversa linda, choro e, no fim, compreensão. E essa foi a maior prova de amor que já recebi na vida.

# Primeiro trabalho profissional

A faculdade de cenografia me fez conhecer uma outra arte a qual, ao que tudo indicada, vai me acompanhar para o resto da vida: indumentária. Daí que um grupo de amigos resolveu formar uma companhia de teatro, montaram uma peça e, como um tiro no escuro, me convidaram para assinar os figurinos. Resultado: além de premiada em festivais, seguiremos para uma segunda temporada num importante teatro aqui do Rio. Continuo pobre, mas feliz por já ter começado uma carreira que torço para ir longe, muito longe.

# Fazer psicanálise

Não que eu seja muito problemático, mas chegou uma hora que era confusões demais e explicações de menos. Solução: Freud! Saio das sessões ora me sentindo um merda, ora revigorado, mas o processo é válido. Parece que muda principalmente a forma de lidar com nossas próprias atitudes, passadas agora a uma rigorosa análise feita por nós mesmo. O que é importante, ainda que por vezes cansativo.

Em tempo,

eu e meu Wall-E natalino desejamos a todos os cinco queridos leitores, um brega…

*não sei tirar foto de natal

E um 2011 repleto de bons filmes e realizações!

tops 2010 | 5 livros

Sem ordem de preferência, porque seria pedir demais da minha pessoa.

# Conversas com Woody Allen, de Eric Lax (e Woody Allen)

A coleção de entrevistas feita e organizada – por temas – por Eric Lax compreende desde o primeiro trabalho de Woody Allen até o lançamento e sucesso, que empolgou o cineasta, de Match Point. Allen discorre com detalhes os diversos níveis de criação de seus filmes e comenta sobre cada produção, afirmando suas predileções e ressalvas entre curiosidades e análises das obras. Aqui, sua vida pessoal – esse não parece ser o foco do livro – é sobreposta por uma agradável aula de cinema de um artista veterano ainda no auge de sua criação. Mesmo com quase 500 páginas, leria outras 500 sem hesitar.

# Angústia, de Graciliano Ramos

Arrisco-me a dizer, com medo de ser injusto, que neste ano nenhum outro livro me deu um prazer tão grande quanto Angústia – o que talvez soe irônico por conta do título. Mas foi daqueles que abrir o livro era uma das melhores coisas para se fazer no dia. Se Luís da Silva é um personagem memorável, é sobretudo pelas palavras com as quais Graciliano compõe sua narração, sempre incisiva e de um grau de intensidade que torna o leitor, sem opção, um cúmplice de sua passionalidade, amargura e obsessão.  Da primeira a última página – que encerra um único parágrafo disposto em 10 páginas -, uma obra-prima.

 

# A Hora da Estrela, de Clarice Lispector

O imenso prazer que senti com Angústia, Clarice também me proporcionou, de maneira diferente. Difícil não sorrir com as palavras do narrador – que se tornavam ainda mais admiráveis por ser claramente a voz da autora -, sorrir de admiração por sua verdade, pelo receio de sua escrita e pelo modo como apresenta sua personagem. Macabéa, em sua simplicidade, é encantadora por si só, mas A Hora da Estrela vai muito além da história sobre uma nordestina: é justamente o ato de narrar – e o grau de envolvimento do autor com a narração – que torna o livro tão especial. Um dos meus preferidos de todo o sempre.

 

# O Espírito das Roupas, de Gilda de Mello e Souza

Com um atraso de 30 anos para sua publicação – na década de 50, quando foi escrito, a moda ainda era vista como frivolidade no meio acadêmico -, o extenso estudo da brasileira Gilda de Mello e Souza ultrapassa formas, cortes e tecidos, ainda que a roupa do século XIX, época focada pela autora, seja claramente analisada. A diferença de tal análise, porém, é a relação da moda com o comportamento da sociedade vigente, que Gilda discorre com clareza e profundidade, resultando num estudo antropológico e social primoroso enriquecido por imagens que facilitam a compreensão do leitor. Mudou minha vida, a acadêmica e a real.

 

# Imagens, de Ingmar Bergman

É um livro escrito pelo Bergman, isso já dispensaria justificativas. Imagens reúne depoimentos do sueco acerca de seus trabalhos, seja no teatro ou cinema – aliás, curioso como fala de sua relação com cada uma das artes -, análise de suas obras – algo muito relevante se tratando de Bergman – e detalhes de produções, mas nunca camuflando seus conflitos internos, dúvidas e inseguranças. É como se o Bergman estivesse na sua frente falando sobre seu trabalho e vida. Ou seja.

Menções honrosas | Equus, de Peter Shaffer | Pulp, de Charles Bukowski | Woyzeck, de Georg Büchner | Praticamente Inofensiva, de Douglas Adams | Caim, de José Saramago | A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector