esse blog não morreu – não ainda…

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Devido às centenas de e-mails que lotaram meu correio eletrônico pedindo, quase implorando, que eu retornasse com o blog, resolvi dar um sinal de vida. Meus dias tem sido uma correria que quase não sobra tempo para ir ao banheiro, além de quase morrer esta semana por problemas de saúde – quase fui o primeiro caso de gripe suína registrado no país. Deixando o exagero e o momento A Praça é Nossa de lado, apenas gostaria de dizer que o receio de remorso ainda não morreu. Esses dias ausentes me fizeram perceber o quanto gosto de compartilhar minha opiniões com vocês e, da mesma forma,  ler o que vocês tem a dizer em seus blogs, algo que fiz sem registrar com comentários. Então além de uma leve indisposição que me assola, o último texto que escrevi foi sobre uma peça de teatro para a faculdade – e acredito que ninguém ia querer lê-lo aqui. É verdade que ultimamente ando frequentando mais teatro que cinema, e a faculdade, portanto, tem ocupado parte do meu tempo. Quem acha que cenógrafos não têm o que estudar se engana.

Informo então que amanhã estarei postando os filmes vistos em abril e já tenho alguns posts em mente. Tentarei manter uma média de três atualizações semanais, o que particularmente acho uma quantidade satisfatória. Não que alguém se importe com isso, mas enfim…

Minha intenção era retornar com uma resenha sobre Sinédoque, Nova Iorque, assistido ontem. O problema é que a mente dessa pessoa que vos escreve ficou repleta de interrogações ao fim da sessão e aí não teria muito que dizer conscientemente. Mas você viu? Ficou tão perdido quanto eu?

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o que vem por aí…

… da série Já pode rir.

Após sua participação em Sweeney Todd, de Tim Burton, e o sucesso do engraçadíssimo Borat, pelo qual se tornou de vez uma figura conhecida  no cinema – amada por uns, detestada por muitos outros -, o comediante Sacha Baron Cohen retorna este ano no longa-metragem Brüno, na pele do personagem-título, um repórter de moda alemão e homossexual. O trailer já revela situações de puro constrangimento [para os outros] típicas do seu humor e as novas fotos divulgadas deixam clara a persona que Cohen irá encarnar desta vez. Parece menos relevante – socialmente falando – que Borat, mas as imagens nos preparam para uma sessão com muitas risadas e imperdível para quem gostou do longa anterior protagonizado pelo ator.

O filme tem direção de Larry Charles, também responsável por Borat e pelo ótimo documentário Religulous, e estreia no Brasil 31 de julho.

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UPDATE: Eu ri mais com o cartaz do que qualquer uma dessas fotos.

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músicas do cinema #3

Porque nós podemos ser felizes, você não vê?
Se você apenas me deixar cuidar de você
E te manter aqui comigo

“That Thing You Do!”, por The Wonders
| The Wonders – O Sonho Não Acabou [1996]

Há quem não viu o filme, mas não há quem não conheça That Thing You Do!, provavelmente a música de maior sucesso de uma banda que não existiu. Ou melhor, existiu apenas no querido longa de Tom Hanks, The Wonders – O Sonho Não Acabou, o qual provavelmente marcou as tardes de muitos ao ser exibido centenas de vezes na tevê em tempos passados. E a música, concorrente ao Oscar em 1997, é praticamente um personagem do filme, embala os melhores momentos da história e torna a experiência para espectador muito mais divertida. Emocionante também, pois como não se contagiar com a alegria dos componentes da banda quando ouvem a música tocando pela primeira vez no rádio? Inesquecível.

boogie nights – prazer sem limites [1997]

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Há quem tenha algum dom. Inclinação musical, artística, mexer a orelha ou ter um pênis agraciado pela natureza. Eddie [Mark Wahlberg] possui este último. Seu falo é como uma lenda: no clube noturno onde trabalha, bastam 5 dólares para que ele comprove os muitos centímetros com os quais foi premiado. Jack Horner [Burt Reynolds, indicado ao Oscar na categoria de Melhor Ator Coadjuvante e vencedor do Globo de Ouro por sua atuação], diretor de filmes pornôs, não pretende desperdiçar o talento nato de Eddie, o qual, por sua vez, não irá ignorar a oferta do diretor, usará seu grande talento como instrumento de trabalho. Se não bastasse, é quase uma máquina de fazer sexo – basta pagar para se mostrar eficiente. Não foi problema, por exemplo, quando na filmagem de seu primeiro filme pornô o cameraman esqueceu de um closer no ápice da cena [que você sabe qual é]: Eddie pôde repetir sem dificuldades.

Paul Thomas Anderson alimenta o mito. Quando o novo ator está em cena, sua câmera revela apenas as expressões das pessoas no set de filmagem, o que não deixa de ter sua graça. Apesar da história se inserir no mundo dos “filmes adultos”, expressão usada sempre por Jack, Anderson aborda essa questão sem nenhuma apelação, e o que temos assim é um universo muito abrangente, não somente o da pornografia. Estamos nos anos 70. O primeiro e extenso plano-sequência não deixa mentir: letreiros luminosos, o som dançante de Best of my Love, a discoteca animada, figurinos e caracterizações típicos da época. Assim Anderson mergulha o espectador na atmosfera de Boogie Nights. A primeira tomada revela ainda os personagens que darão início a uma narrativa envolvente e dinâmica, pois PTA realiza tudo com maestria – nem parecia seu segundo longa-metragem.

Seu domínio com a câmera já é notável nesse primeiro instante. O que o diretor faz com seu instrumento é um balé entre câmera e atores. Tudo parece estar acontecendo simultaneamente, cada personagem soa familiarizado com aquele ambiente, como se suas ações de fato continuassem ainda que não estivesse enquadrado. A câmera se infiltra de uma forma discreta, num estilo que posteriormente seria marca do diretor,  e ao focar cada personagem por um determinado instante,  nos prepara para as diversas histórias que acompanharemos, todas com um elo em comum – a indústria de filmes pornô. Paul Thomas Anderson predomina com essa linguagem por praticamente todo o longa. Se a primeira tomada já é admirável, visto o modo como se inicia e termina, as tantas outras que o diretor compõe surpreendem ainda mais. E o exercício não se torna repetitivo justamente pelas variações inseridas nestes planos-sequências: a velocidade com a qual a câmera percorre de um ponto ao outro se altera repentinamente, os ambientes variados por onde caminha sem nenhuma interrupção [como no qual mergulha na piscina junto com um personagem], a mudança de foco nos personagens e as informações que transmite com apenas uma tomada. Uma trilha sonora repleta de clássicos do tempo narrativo só enriquece tais imagens.

Além de ser um deleite para os olhos e ouvidos, tamanho o apuro estético dessas sequências, o ritmo do longa é demasiadamente favorecido com esse estilo, uma vez que a narração alcança uma fluidez importante principalmente em sua primeira parte, a qual foca o início da carreira de Eddie [agora com o nome de Dirk Diggler] – conhecemos a indústria e relações de seu ambiente de trabalho – cedendo espaço posteriormente para uma forte mudança no tom da história. A ascensão dos personagens e a divertida narração que acompanhávamos até então é interrompida. Entram as drogas, o declínio, os fracassos, fazendo PTA voltar-se para o drama específico de cada um. E não apenas o texto ganha um caráter mais denso, como a direção o salienta ao substituir a trilha sonora dançante por um instrumental repetitivo e tenso, rompe por vezes com as longas tomadas e insere inclusive uma edição fragmentada. Vemos então que aqueles personagens estão mais interligados do que se imaginava. A indústria pornográfica é sem dúvidas o que une todas aquelas pessoas, mas passamos a ver a importância de cada uma para fazer as coisas funcionarem corretamente – basta a queda de um para desencadear o efeito dominó. Sozinhas e longe daquele ambiente, os fracassos vêm à tona junto com um outro lado desconhecido, o lado que o estrelato dado pelo sucesso dos filmes pornôs ofusca.

Suas 2h30m de duração não chegam a incomodar, mas cenas como o documentário feito por Amber [Julliane Moore, também indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante], o casamento de dois personagens irrelevantes e [spoiler leve] a tentativa de Eddie como músico [/spoiler leve] poderiam ser reduzidas – ou algumas até cortadas -, cedendo espaço para outros personagens, como o de Philip Seymour Hoffman, que poderiam ser melhor trabalhados. Porém, Boogie Nights – Prazer sem Limites é muito para ser diminuído por esse pouco. É a arte de como conduzir uma câmera, como criar uma narrativa através de imagens, como transformar um texto, uma simples história, em algo muito maior. Em 1997, Paul Thomas Anderson já se firmava como um dos melhores diretores e roteiristas do cinema atual.

nota | 9.5
mais informações | adoro cinema, imdb