vai encarar? #3

Resolveram que o cinema brasileiro será um cinema sobre os brasileiros. Mas quais brasileiros? Não digo sobre o povo brasileiro, sobre personagens que podem ganhar um significado muito mais amplo ao serem inseridos numa história, mas das voltadas apenas para um trajetória unicamente individual de um mito [mito?] que, à primeira vista, parece demasiado desinteressante.

Ao contar a história de Zezé Di Camargo e Luciano, 2 Filhos de Francisco chegou aos cinemas pairado sobre um preconceito. Na verdade, o preconceito estava no espectador – em mim, ao menos – que se recusava adentrar numa sala para conhecer a trajetória de uma das duplas sertanejas mais famosas [e mais chatas] do Brasil. Após o fim da sessão, é preciso dar o braço a torcer, rever os conceitos e confessar que acabara de assistir um grande filme. Mas aí que o sucesso do longa de Breno Silveiro [o filme brazuca mais assistido após a Retomada – isso até Se eu Fosse Você 2] não significa que qualquer artista  brasileiro meia-boca mereça uma produção. Afinal, há dinheiro público envolvido.

Daniel virou ator, Titãs já entrou em cartaz, o presidente Lula deve ser o próximo de uma fila composta por Frank Aguiar, Elymar Santos [foi o que eu li por aí] e Belo [foi o que eu li por aí também]. Wilson Simonal e seu documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei é um dos selecionados para o Festival “É Tudo Verdade” que já ocorre em algumas cidades do país. Torci o nariz por mera ignorância, porém o trailer revelou que a trajetória do cantor parece mais interessante do que inicialmente aparenta.

Mas será que Rita Cadillac é conteúdo revelante para um filme? Dia 8 de maio chega às telas do cinema o documentário Rita Cadillac – A Lady do Povo, o qual revelará momentos importantes da carreira da ex-chacrete e a pessoa que há por trás de tanta massa corpórea. Para isso, como revela o trailer, acompanhamos Rita indo à feira comprar banana.

Se as coisas continuarem assim, eu também vou querer um filme sobre mim.

E então, vai encarar?

ritacadillac

palavra (en)cantada [2008]

palavraencantada

“São bonitas as canções / Mesmo miseráveis os poetas”
[“Choro Bandido”, de Chico Buarque e Edu Lobo]

Palavra (En)Cantada não é apenas um filme genuinamente brasileiro por seus realizadores serem nossos compatriotas. A brasilidade é o próprio tema, ou melhor, a nossa palavra na vertente da música e do poema é o assunto do novo trabalho da diretora Helena Solberg. É abordando o limite entre música e poesia, de quando essas artes se confundem mutuamente e formam uma unidade [ou não é sempre assim?]; a variedade que a nossa língua oferece e a diversidade de canções/poesias que com ela se pode formar, alcançando seja lá qual nicho for; os movimentos, em destaque a Bossa Nova e Tropicália, que revolucionaram a maneira de trabalhar nossas palavras e nosso som, através de depoimentos de especialistas e artistas, que a declaração de amor ao objeto de análise é apresentada.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia.”
[Os Três Mal-Amados, de João Cabral de Melo Neto]

Pois tudo é dito com muita paixão. Quando não são os conhecimentos de José Miguel Wisnik e Luiz Tatit que ganham espaço na tela, a fim de instruírem o espectador ao abordarem o tema de forma didática, passeando brevemente pelas mudanças sofridas pela música brasileira ou levantando questões relevantes, os grandes artistas, que moldam e constroem com as letras a arte, sejam os poetas ou os músicos – que vão desde Chico Buarque a Ferréz, passando por Adriana Calcanhotto, Tom Zé [e toda sua autenticidade], Lenine e Maria Bethânia -, expõem a relação individual de cada um com a palavra e o verso – isto é, com a poesia – e como isso está presente em suas músicas, além de revelarem personagens de importância inquestionável – e novamente o campo da literatura e da música se confundem – para a nossa cultura. As imagens de arquivo complementam o trabalho. Graças a elas, recorda-se  [ou se descobre, dependendo da sua idade] de Caetano Veloso em uma entrevista esclarecedora quanto ao modo como se encarava as transformações iminentes na nossa música [e era com questionamentos e muitas dúvidas]. É por elas também que são trazidas ao espectador palavras ditas ou cantatas em um tempo pretérito,  por vezes referido com uma certa saudade por quem o relembra; porém, a palavra se eternizou.

“Eu tomo uma coca-cola / Ela pensa em casamento / E uma canção me consola”
[“Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso]

E toda essa paixão contida em Palavra (En)Cantada emana facilmente para além da tela, bastando ao espectador se deleitar em meio a riqueza temática da obra e a forma como esta foi concebida. Não é sempre que  um diretor consegue unir com sensibilidade e segurança as duas maiores proezas do Brasil – no campo artístico, devo dizer – num filme que vale pela condução e construção ideais conferidas às imagens e a abordagem à uma única matéria-prima [a palavra] e o tratamento que cada artista lhe confere – e aí se evidenciam as diferenças, vistas no documentário. Mas vale, sobretudo, por ampliar a possibilidade sensitiva que o espectador leva consigo ao entrar numa sala de cinema. É um campo vasto a explorar,  é para quem gosta de música, poesia e cinema.

nota | 8,5
mais informações | site oficial, imdb

músicas do cinema #2

Minhas boas razões para te amar
Por que te dá-las?

“De bonnes raisons” e “Inventaire”, por Louis Garrel e Ludivine Sagnier
| Canções de Amor [2007]

Juro: não falarei em Christophe Honoré no receio até o seu próximo lançamento. Mas para encerrar essa overdose de posts que precisa conter, no mínimo, o sobrenome do diretor, é indispensável a presença de uma  música dentre as tantas excelentes músicas que compõem Canções de Amor, seu filme musical – do início ao fim, desta vez. Já comentei aqui que o longa não me agrada por completo – apesar de achar que uma revisada possa mudar as coisas -, mas com as canções tenho uma relação diferente: ouço o CD inteiro, sem avançar uma única faixa. Optei pelas duas músicas que dão início a obra – assim não há spoilers no vídeo -, presentes entre minhas preferidas do filme, até por serem as mais animadas de todo o álbum. Honoré conduz tudo num estilo Jacques Demy, mas sem a chatice e tédio que o último conferia aos seus musicais. Aqui tudo é muito mais agradável, mais bonito, tanto para os olhos, quanto para os ouvidos.