
Sempre penso muitas vezes antes de escrever sobre um filme que não tenha gostado, porque, por menor que seja o comentário, isso me fará relembrar a experiência ruim de assisti-lo, do mesmo modo que transcrevê-la não me trará o menor prazer – exceto quando são filmes como High School Musical – O Desafio, que já são motivos de piadas por si só. Dito isso, não sei o que me motiva a comentar Maré – Nossa História de Amor, já que o filme se leva bastante a sério, pretendendo alcançar relevância do ponto de vista social e passar boas mensagens – não que o cinema precise disso, mas se quer transmitir algo de positivo para o espectador [e falar da capacidade de transformação do indivíduo pela arte, como o filme pretende, é sempre válido], que seja de forma bem feita e bem construída. Porém, o resultado é desastroso para uma obra que quer ser muito. Vale dizer ainda que Maré tenta, com muitos tropeços, transpor a clássica história de Romeu e Julieta para a periferia carioca: ao invés de Montecchio e Capuleto, temos o lado A e o lado B da favela, cada um dominado por um grupo de traficantes, e, logicamente, o casal principal é separado por essa divisão. Mas essa proposta - a qual, particularmente, acho até promissora, mas que deve ter feito Shakespeare se contorcer em seu túmulo - é mal explorada pelo roteiro, como tudo que o longa pretende contar: a índole dos personagens mudam de um instante ao outro – e por isso a tal mensagem positiva acaba não surtando efeito algum -, acontecimentos surgem na tela sem o menor preparo, os diálogos repetem as mesmas ideias para o espectador, por mais que, ao fim do filme, pareça que nada foi, de fato, contado. O romance, aliás, é quase que negligenciado com o decorrer do longa - o que é um erro grave para uma história de amor – e parece incapaz de parecer justificável ou ganhar a empatia do espectador – inclusive eu, um ser sensível por excelência, gargalhei com o final trágico.
Porém, a diretora Lúcia Murat é que, surpreendentemente, já que havia realizado um trabalho satisfatório em Quase Dois Irmãos, apresenta um amadorismo que transforma Maré num filme desconfortável. Não apenas uma vez, a cineasta encerra suas cenas erguendo a câmera para o alto e fazendo movimentos incompreensíveis, transforma sequências de tiroteio em brincadeira de criança – até porque os tiros soam sempre muito falsos – e, por algum motivo, insere rappers cantando vez ou outra, num fundo nitidamente digital, um breve resumo do que está acontecendo na história, o que, além de extremo mau gosto e carente de sentido narrativo, parece que um videoclipe com uma música muito ruim pode interromper o filme a qualquer momento. Os números musicais poderiam amenizar o resultado final, mas talvez, com esforço, apenas um não soe gratuito, apesar de pecar na execução ["Minha Alma (A Paz que eu não quero)"]. No fim, quando não é ruim, Maré – Nossa História de Amor é redundante.















