chove lá fora (e sobre nosso amor)

ando com uma saudade grande de escrever qualquer coisa que não seja artigo acadêmico, qualquer coisa que não tenha normas da ABNT, qualquer coisa que não dependa de citações e avaliação de doutores. e tenho sentido falta de comentar sobre filmes que assisto, porque sou dotado de pouca memória e sinto os filmes indo embora logo após os créditos finais. escrever, mesmo algumas linhas, me ajuda a manter por mais tempo minha impressão. escrever é uma maravilha para seres esquecidos como eu.

e acabei de assistir uma coisa linda – fiquei surpreso com o 5.7 do imdb. “para não falar de todas essas mulheres” é um filme do bergman que não lembro de ter lido comentários sobre ele no imagens ou lanterna mágina. e foi seu primeiro colorido, e de fato é muito colorido em alguns momentos. no último concerto do maestro, cada uma de suas mulheres tem algum elemento vermelho no figurino – ou mesmo é todo vermelho. e o cenário, a mansão do maestro, é predominantemente branca. isso não lembra gritos e sussurros às avessas? li por aí que o bergman acha que exagerou no tom da comédia. eu acho que não. fato que a primeira metade do filme é melhor que a segunda. mas o tom meio afetado parece um comentário sobre o próprio filme, ou sobre o cinema de forma geral. porque bergman também tem voz aqui, e chega às vezes a interromper a cena para inserir legendas com comentários. sobretudo por ser de quem é pareça mais interessante – já que passamos/passei a conhecer a obra do diretor a partir de seus filmes mais notáveis, que nada têm de cômico e caricato. o figurino e direção de arte merecem uma atenção especial, pretendo rever um dia com olhar voltados a eles.

ontem/hoje tentei ver “panorama do cinema brasileiro” mas não rolou, o sono me pegou. mas uau, há imagens maravilhosas de filmes brasileiros do tipo nunca-vi-nem-comi-eu-só-ouço-falar. é um documentário longo, mais de duas horas. não cheguei nem na primeira meia hora e já deu pra notar uma pintura bastante gloriosa que o filme – é do INC, o que dá pra entender – faz do cinema nacional. mas vamos ver tudo para falar direito depois. mas risquei “copacabana me engana” (1968) da lista preciso-ver. gosto bastante de “rainha diaba” (1974), que é posterior a esse mas o único do antonio carlos fontoura que assisti até então – ia dispensar o recente “somos tão jovens” (2013), mas to mudando de ideia. “copacabana” tem três cenas espetaculares. 1) odete lara e carlo mossy num barzinho na orla do bairro carioca. planos incríveis, os cortes em faux raccord, o melhor momento do texto e da atriz. uma longa cena que termina com um “não sei” após um “você me ama?”.  2) o ménage. 3) a última cena, com o pai perdoado e mãe na mesa da cozinha conversando sobre um futuro impreciso e pouco esperançoso. essas três cenas valem o filme, que não gostei muito – maldita dublagem, cria um artificialismo tão grande. parece datado, é um filme classicamente daquele tempo, seja quanto a forma, seja quanto ao conteúdo. e talvez tenha envelhecido um pouco mal – com exceção da beleza da fotografia de affonso beato.

odete lara

confissões daqueles adolescentes

fui um adolescente sadio – até certo ponto. ontem, durante a sessão de Confissões de Adolescente, que eu gostei e desgostei na mesma proporção – na quase inconstância típica de adolescentes -, numa cena habitual de sala de aula do ensino médio, virei pro Pedro e disse “eu tinha medo disso!”. sala de aula é uma selva. quando você tem 14, 15 anos, é uma selva perigosa, com predadores cruéis prontos para darem o bote. se você se vê como um animalzinho frágil e indefeso, sem a mãe por perto, a sensação é de mais perigo. alerta vermelha! minha sorte era os companheiros, amigos queridos, um grupo que você se identifica e se agarra, porto-seguro, terra firme. mas seu bando não faz ideia dos seus receios e medos entre aquela mata toda. no fim, sempre estamos a sós com nossos demônios. aliás, acho que é principalmente nessa fase da vida que somos apresentados a eles – e são fieis, o mestrado chegou e eles cá continuam. maldita gagueira! eu ia dizer maldita homossexualidade – hoje ela é um bem, antes era uma sinalizador-colorido-flamenjante-em-neon para os olhos arregalados e brilhantes dos famintos abutres do fundo da sala. no filme do Daniel Filho, que ainda é bastante televisivo mas se esforça, só tem uma lésbica. seu relacionamento fica na gaveta, não vem muito à tona, é coberto pela penumbra da globo filmes. (a mesma globo filmes que faz uma personagem dizer “aborto é crime!” e que jamais se deve abortar, discurso cristão panfletário da porra.) já os casais héteros têm cenas de sexo, pagam peitinho e bunda. eles dominam a tela, são héteros, brancos e ricos. lembrei de pro dia nascer feliz, que é mais democrático. e sonhos roubados, que é mais cruel e mostra o outro lado da moeda, uns adolescentes mais fudidos, escuros e pobres. não dava para esperar muita coisa, eu até entendo. mas choca. lembra quando a burguesia ia ao teatro para se ver no palco? mesma coisa, séculos e décadas depois. nos créditos finais, ao som de “sina”, do chato do djavan, cantada pelo elenco (confesso, ficou simpática), aparece o nome do matheus souza como roteirista. ah sim, entendi tudo agora! aliás, o ex-estudante da puc já escreveu diálogos melhores. constrangedor cássio gabus apresentando copacabana pras filhas, que como boas barratijucanas não devem vir muito pra zona sul – já pode entrar pra listinha das piores cenas do ano.

em tempo, sinto saudade de buenos aires.