sem título

Começaram a sentir uma coisa e a chamaram de amor. Era só sentida, sem discernir, era bom e ruim, mais bom que ruim e por vezes mais ruim que bom. E a palavra amor passou a representar uma coisa que ninguém sabe o que é, já tentaram explicar – cientificamente até -, mas ninguém chega num denominador comum. Mesmo assim, todo mundo procura, todo mundo quer. Feito doce de São Cosme e São Damião. Ninguém gosta daquelas marias-moles – ou seria maria-moles ou marias-mole? -, cheias daquele açúcar grosso e ruim e como fica tudo misturado naqueles sacos com os santos estampados vestindo roupas estranhas, às vezes a maria-mole – agora no singular, porque ninguém coloca mais de uma maria-mole no saco, porque vai sempre parar na lixeira após uma única mordida, aquela pra comprovar que o doce realmente é uma merda e você não quer comê-lo inteiro -, ela se mistura com o doce de abóbora, feito sabão alaranjado e duro e também uma merda, e fica pior ainda. Mas como o doce é de graça, a gente pega. O amor é caro, o amor tem cara? Quem colocou esse nome? E raiva? Sentes uma coisa que dá vontade de socar a porta a parede a janela e pimba, lá vai você dizer que sente raiva, porque raiva tem cara de raiva? (Já formou a imagem dela na cabeça, como se ela fosse uma pessoa? Acho que seria uma bela mulher.) Quem pôs nome nos sentimentos? Deus? Adão? Eva? O homem de neandertal, vá saber. Porque acho que faz muito sentido uma garrafa com umas hélices em seu fundo disposta sobre uma base com alguns botões pequeninos se chamar liquidificador. É fácil dar nome ao que vemos – só não foi difícil chamar Deus de Deus porque ele se autodenominou. Mas daí chamar pelo nome essas sensações estranhas é um pulo muito grande, muita prepotência, muito poder – dado por quem? Partiram do princípio: somos da mesma espécie, sentiremos todos as mesmas coisas – ainda que eles apareçam quinhentos trezentos duzentos anos depois de nós. Pior que herdamos tudo! Não, pior: herdamos porra nenhuma. Porque tem um monte de impressões e embrulhos e coisas misturadas dentro da gente, do nosso peito, do nosso coração que não fazemos ideia do que são. Tá lá, sem nome, mas tá lá. E aqui.

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