welcome to burlesque

Vou contar algo que você já sabe, mas não custa reforçar: não há nada novo em Burlesque. A personagem da Christina Aguilera – que embarangou depois das filmagens – é aquela menina boazinha do interior que sonha em ser alguém na cidade grande. Seu sonho: cantar. E ela canta, há de convir. Grita até quebrar o vidro, mas é daqueles gritos gostosos de ouvir – eu, averso a sua carreira, estava na poltrona do cinema torcendo por um novo número musical. Ela chega em Los Angeles e conhece Burlesque, uma espécie de casa de show e boate chefiada pela Cher. A Cher dá medo ao mesmo tempo que é linda: não move um músculo da cara, tem a mesma expressão o filme inteiro, voz de travesti, ovo na boca, me fez chorar de vergonha quando ela chorou numa cena tamanho o horror, mas ela tem algo adorável dentro de si que me fez querer abraçá-la – sem contar seus cabelos negros que vão do liso com franjinha ao cacheado juba de uma cena a outra, coisa de diva. Juntando as peças: a Christina sonha em ser cantora e a Cher tem uma casa de show. Entendeu?

Além da Chris realizar seu sonho, a mocinha passa a morar com o Cam Gigandet – e a partir desse momento eu acho que você já não precisa mais nada no mundo. O Cam é daqueles caras que à primeira vista é bonito, depois fica estranho, mas quando tira a blusa, você morre – extramamente comum, é verdade, mas gostoso, inegável. Mas o rapaz tem namorada e, portanto, as coisas não serão fáceis para eles – o romance, aliás, ainda que desenvolvido em meio a diálogos infantis, acontece de modo natural e gradativo, fato que o favorece. Além do mais, o Eric Dane passa a cobiçar a menina. Outro problema: ele sofre de grave desvirtuamento de caráter, é um pilantra e egocêntrico. Mas antes de tudo ele é rico, muito rico, absurdamente rico e mais gostoso que o Cam. Eu saberia com quem ficar, mas a Chris é uma menina de valores – diferente de mim, que sou um menino de valores – e se verá num leve dilema. E como pano de fundo, Cher é uma caloteira e o Burlesque tem tempo certo para fechar suas portas. Já imaginas o que verá ao fim das duas horas de projeção?

Burlesque é um filme fácil, constituído de tramas rasas, absolutamente previsíveis e parece não fazer questão de amenizar esta impressão. O roteiro, assinado pelo diretor Steve Antin, evidencia a estreia de seu autor no ofício, pois o material recorre a uma estrutura e soluções que carece de novidade: se o atraso e desleixo com o trabalho é a primeira – e única – informação que temos acerca de determinada dançarina da boate, seu papel na narrativa está reservado ao antagonismo, não ultrapassando esta barreira ao longo da projeção. Do mesmo modo, Christina mostrará seu valor e passará a comer pizza com as coleguinhas de trabalho, as mesmas que, tamanha maldade!, outrora esnobaram a menina – e uma pizza nunca significou tanto no cinema. Trocando em miúdos, é pura reciclagem – ou mesmo mera apropriação – de ideias.

Caso não se tratasse de um musical, Burlesque seria uma merda, e das grandes. Mas Antin, apesar de uma direção nitidamente limitada, decidida apenas em mostrar de modo muito contemplativo os acontecimentos – inclusive nos números musicais, em que falta inspiração de sua parte e uma montagem menos inibida -, fez um filme vibrante. Vibrante é um adjetivo ridículo, eu reconheço, mas o longa pulsa energia, brilho, cores, ryqueza e charme. De imediato, revela-se, ao seu estilo, visualmente primoroso. Direção de arte, fotografia e figurinos trabalham mutuamente a fim de uma estética que alia os cabarés dos anos 30 a um verdadeiro espetáculo. Nesse sentido, o figurinista Michael Kaplan acerta por completo ao adotar roupa preta para todos os frequentadores e funcionários do clube: o foco está nas apresentações, cor e o brilho estão no palco e todos se integram ao espaço para o show acontecer. E o que é visto no palco faz jus a tamanha atenção, um desfile de belas roupas e maquiagens, mise-in-scène dignas de grandes números musicais e boas canções, as quais são,  quase sempre, menos uma expressão das personagens que puro entretenimento para a plateia – ambas as plateias, é claro.

Pode, mais uma vez, reciclar velhas ideias, como danças sensuais em cadeiras – mas as quais coincidem com o ambiente proposto e tornam-se inevitáveis – e Christina tendo seu momento Beyoncé – ou “Bound To You” não te lembrou “Listen”? -, mas apresenta, por exemplo, uma abordagem da clássica canção de Os Homem Preferem as Loiras coerente com sua estética, também presente em cada bem sucedido número musical. Burlesque, pesares à parte, é fiel a si mesmo.

Um guilty pleasure. E dos melhores!

nota | pela razão, 6; pela emoção, 8,5; pela minha reputação, 7,5

Nota: Por que diabos a distribuidora achou que a legenda não deveria aparecer em todas as canções?

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  1. Acho que um musical pode ser fácil e ter temas rasos, desde que nos pegue pela sua matéria-prima: a dança e a música. É um dos meus gêneros cinematográficos favoritos, mas infelizmente não ando nem confiante quanto à qualidade de Burslesque nem tampouco interessado em vê-lo no cinema. O último musical que eu fiquei louco pra ver em tela grande, Nine, foi uma decepção… (6)
    Abraços, meu caro! =)

    • Concordo, tanto que AMO Hairspray, Grease etc e estou sempre propício a gostar de musicais – até de High School Musical, o primeiro, eu gosto -, mas não acho que isso deva ser uma máxima. O roteiro de Burlesque é uma vergonha de ruim e isso, obviamente, prejudica demais o resultado final do filme, ainda que, como eu disse, valha pelo seu lado musical e técnico. É bom, ou melhor, é o melhor, quando as duas coisas estão unidas. E não se pode falar mal de Nine aqui no blog, seu bobo. xD []s!

  2. Tem a Kristen Bell (obra física máxima da natureza televisiva!) E é musical – que eu realmente sou fã – parece bem purpuria (prefiro musicais mais ‘sóbrios’ como Nine, Chicago e etc.), mas acho que vou me divertir pacas. De verdade.


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