um diálogo #1

Angels in America é uma vitrine de bons diálogos. Escrita por Tony Kushner e baseada em peça de sua autoria, a minissérie não perde a estrutura teatral: cada cena dura longos minutos, sempre – sempre – composta por diálogos que chamam a atenção pela estrutura quase nunca óbvia e a forma como expõe seus personagens – e é preciso ovacionar o elenco.

No primeiro capítulo da série, há, em especial, três cenas que chamam atenção pela riqueza de suas palavras: a alucinação que envolve Harper [Mary-Louise Parker] e Prior [Justin Kirk], a consulta médica de Roy [Al Pacino, em uma de suas melhores cenas] e, a escolhida, o primeiro encontro entre Joe [Patrick Wilson] e Louis [Ben Shenkman].

Num banheiro, Louis chora após saber sobre o estado de saúde de seu namorado Prior – mas chora, sobretudo, por se dar conta de sua disposição e vontade de abandoná-lo. Joe hesita, mas adentra, urina e em seguida busca papel para o desconhecido secar suas lágrimas. O charme está como Kushner revela a homossexualidade de Joe – e como o ruído na comunicação evidencia a confusão e não-aceitação do rapaz consigo mesmo, enquanto Louis, já ciente disso, quase passa a se divertir com a situação -, além de situar seus personagens no cenário político da história e retomá-lo constantemente em seus encontros posteriores.

Joe: – Qual é o problema?
Louis: – A vida é uma droga.
– Desculpe?
– Esqueça. Olha, obrigado por perguntar.
– De nada.
– Quero dizer, é muito gentil de sua parte. Desculpe. Amigo doente.
– Ah, me desculpe.
– Sim, sim. Bem, isso é gentil. Três de seus colegas já estiveram aqui. E você é o primeiro que pergunta. Os outros apenas abriram a porta, me viram e foram embora. Espero que eles estivessem com muito vontade de urinar.
– Eles apenas não queriam se intrometer.
– Advogados pró-Reagan, sem coração, machões e cretinos.
– Bem, isso não é justo.
– O quê? Sem coração? Machões? Pró-Reagan? Advogados?
– Eu votei em Reagan.
– Votou?
– Duas vezes.
– Duas vezes?
– Puxa, um republicano homossexual.
– Como?
– Nada.
– Não sou… Não, esqueça.
– Republicano, não é republicano?
– O quê?
– O quê?
– Não sou homossexual. Não sou homossexual.
– Ah, desculpe. É só que…
– Sim?
– Bem… às vezes, dá para saber pela maneira como uma pessoa fala. Quero dizer, você soa…
– Não, não sôo. Sôo como o quê?
– Como um republicano.
– Eu sôo como um…?
– O quê?
– Como um republicano?
– Ou… sim?
– Sim o quê?
– Soa como um…
– Sim, como um… Estou confuso.
– Sim. Meu nome é Louis, mas todos os meus amigos me chamam de Louise. Eu trabalho com processamento de textos. Obrigado pelo papel higiênico.

Louis dá um beijo ligeiro no rosto de Joe e se retira  do banheiro. Joe sorri confuso, busca indiferença, passa a mão no rosto e se olha no espelho.

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Um Comentário

  1. Essa cena é uma das minhas preferidas também! Me diverti muito vendo ela quando vi a minissérie e me diverti muito relendo o diálogo agora. O mais engraçado é que da mesma forma como algumas pessoas consideram ser chamado de “homossexual” uma ofensa, outras consideram ofensivo ser chamado de “republicano”, a diferença é que ser chamado de republicano é mesmo ofensivo, ainda mais se tu não for! hahaha. Deu vontade de ver Angels in America toda de novo, uma preciosidade essa série. As cenas do Al Pacino são ótimas, as da MLP são ótimas, as do enfermeiro, do casal gay+amante republicano… é tudo muito bom. E além dos diálogos e das atuações, Mike Nichols arrasa na direção! @_@


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