enrolados [tangled, 2010]

Leva-se em conta a ansiedade e espera pela 50ª animação dos estúdios Disney, ignora-se a dublagem de Luciano Huck e vá-se ao cinema. Protagonizada por uma princesa, agora sem apelo de ser negra e sem sofrer metamorfose que a transforma em sapo – e a deixa na pele do anfíbio na maior parte da narração -, a escolhida da vez é Rapunzel, a mesma da música da Daniela Mercury, mas ao invés das tranças de mel, seus cabelos são uma espécie de fonte eterna da juventude somada ao poder de cura: basta colocá-los sobre qualquer ferida e o milagre acontece. Ah sim, a menina precisa também cantar para a magia se concretizar.

E assim chegamos a um dos atrativos do filmes: as canções – e a trilha instrumental. Alan Menken, o homem por trás das grandes músicas da Disney ao longo dos anos, realizou mais um trabalho competente – considero “I See the Light” a maior música do compositor desde O Corcunda de Notre Dame. As versões nacionais são esforçadas – é preciso reconhecer a dificuldade de um trabalho de adaptação musical -, mas, vez ou outra, tudo parecia estranho ou falso quando os personagens  começavam a cantoria – excetuando a sequência de “Um sonho, eu tenho”, que, de longe, compõe  o melhor momento de Enrolados, e é a prova de que uma adaptação para nossa língua pode não dever em nada para o original, como sempre foi com maior parte das últimas animações do estúdio.

Compreendo a necessidade de um alívio cômico, até pelo público alvo da maioria das animações. Inclusive personagens pequeninos e fofos que, enfim, são fofos e fazem graça para a câmera, eu relevo e vejo lá certa graça – ora, difícil não ser cativado por criaturas como Flit e Meeko de Pocahontas ou de Abu de Aladdin. E não falo do camaleão Pascal,  bonitinho e fundamental para ser repreendido, mas do longo tempo dado a gags desnecessárias – quando, por exemplo, Rapunzel esconde Flynn no armário ou tem uma crise de culpa ao sair da torre -, fazendo, por vezes, a narrativa soar arrastada. [E esse é um dos motivos, aliás, que me faz apreciar pouco  Hércules. Sua narração, e o que de fato interessa a ser dito, é interrompida incontáveis vezes para os personagens fazerem graça.] Situação que chega a ser irônica, pois Enrolados pouco faz rir – não significa, porém, que o filme não seja divertido -, e tem sua força, sobretudo, na aventura vivida pelo casal protagonista e o romance que os cerca – e eu sou um apaixonado bobão que se emociona com o amor de dois bonecos animados.

Nada é mais admirável, porém, que o alcance técnico alcançado pelo estúdio. Riqueza de detalhes preenche as imagens e há um realismo notável em cada tipo de matéria e no movimento dos personagens. Algo claro quando Rapunzel corre ao mesmo tempo em que carrega atrapalhada seus longos cabelos ou num plano fechado em que se vê o tear do linho da blusa de Flynn – ou ainda os pelos em crescimento em seu rosto. Merece ainda menção a textura da pele de Pascal e a sequência da represa pelo realismo no agito da água, além do design de produção. A direção da dupla Bryon Howard e Nathan Greno tira proveito desse avanço e torna sequências como a de “I See the Light” ainda mais bela, focando apenas o primeiro plano do quadro, o que transforma o fundo, repleto de pequenas lanternas, numa mistura de luzes e cores, da mesma forma que aproveita o realismo com que luz que incide pela janela na torre de Rapunzel para atribuir dramaticidade às imagens. Um pouco mais de sensibilidade, talvez, descartaria a narração em off do filme – a impressão foi que as imagens daquele prólogo poderiam ser autossuficientes [e, inevitavelmente, a singela sequência de Up que narra a vida de seu protagonista me veio à cabeça] -, a mesma que, em contrapartida, é alcançada no momento da chegada de Rapunzel e Flynn na cidade real ou na dor que envolve os pais da princesa, em que as imagens, ao som das composições de Menken, falam por si.

Mas não tem jeito. A dublagem quase fode tudo. Era impressionante como o filme ficava absurdamente mais agradável quando a voz de Luciano Huck não era ouvida, a qual é sempre pronunciada com dificuldade – a péssima dicção do apresentador é o pior de seus atributos – e muitas vezes inexpressiva. O surpreendente foi notar que não é apenas Huck quem compromete o filme, mas a dublagem da personagem Gothel é quase tão ruim quanto a de Flynn, e nem a voz potente da dubladora – a qual não sei o nome – soa agradável nas canções.

E dito isso, ansiamos assistir ao – mesmo assim – ótimo Enrolados com  dublagem original e torcemos para a Disney, por favor!, redublar o Flynn para o DVD.

nota | até agora, 8

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  1. Ahh, o filme é ótimo! Um fôlego pra Disney, que conseguiu trazer de volta uma princesa e todos os elementos clássico dos musicais, com um ar renovado e dinâmico!

    Tem um visual incrível, fotografia que dá gosto e uma trilha divertida. Gostei até mesmo dos números musicais, que nunca fui muito fã.

    Pena que só tenha cópia dublada, porque aturar o Luciano Huck foi difícil. Fora isso, clap clap pra Disney!

    Nota 8,0 também.

  2. Que análise! A verdade é que eu não estava muito curioso pra conferir essa animação, com a história da rapunzel e tals, não me seduziu muito. E eu achava até que não fosse ser muito bom, mas a medida que foi ganhando avaliações positivas, fui ficando curioso, aí veio a dublagem do Huck, e isso é algo que realmente eu não to disposto a encarar pra ver um filme que eu não estou tão ansioso assim pra ver. Então vou esperar o dvd mesmo, queria ver com o meu sobrinho mas não vai dar, a não ser que a disney troque o dublador. De qualquer forma, espero gostar tanto quanto você, ou mais, visto que não terei de ouvir aquele narigudo chato, haha.


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