tops 2010 | 5 peças

Mesmo sem assistir Fragmentos do Desejo, a peça mais difícil de se conseguir ingresso no Rio de Janeiro em 2010, segue a lista e as devidas menções honrosas.

 

#5 Agreste Malvarosa, de Newton Moreno [Dir.: Ana Teixeira e Stephane Brodt]

Com uma eficiente simplicidade quanto ao figurino, cenário e iluminação, a força de Agreste Malvarosa – peça de título estranho – se encontra na beleza de seu texto, valorizado pela interpretação das atrizes Millene Ramalho e Rita Elmôr, que apresentam um notável trabalho de corpo e voz. Contando ainda com a presença do músico Beto Lemos, que revestia a cena com composições originais tocadas ao vivo a fim de acompanhar a musicalidade do texto, a peça apresenta um sertão onde o desconhecido é o  próprio corpo – e a partir daí, ignorância, preconceito e sexualidade podem ser discutidos. A história toma rumo interessante e vale, também, pela novidade do tema nos palcos.

 

# 4 A Caolha, de João Batista [Cia. Dramática de Comédia]

A cena de abertura de A Caolha sintetiza o que será visto ao longo de todo o espetáculo:  um singelo musical com canções que, além de acompanharem a história contribuindo à narrativa, possuem belas composições e arranjos [ótimo trabalho de Marcelo Alonso Neves], tornando-as agradáveis independente da encenação – e uma pena não terem disponibilizado CD para venda ao fim da apresentação. Com elenco competente de atores-músicos, a história marcada por dor e amor entre mãe e filho recebe um tratamento visual eficiente através do cenário e figurino, com cores e texturas coerentes com a proposta cênica. Fato que o final de tão melodramático pode causar risadas indesejáveis – e causou em parte do público -, mas até então, tudo tinha sido bonito demais. [Você pode assistir ao trailer da peça aqui.]

 

#3 Meu Caro Amigo, de Felipe Barenco [Dir.: Joana Lebreiro]

Muito possivelmente o monólogo mais agradável já assistido por mim. Através de relatos apaixonados – e sentir e compartilhar dessa paixão sempre faz uma grande diferença – de uma fã de Chico Buarque, o público atravessa a história da personagem a partir da carreira e músicas do compositor – e, consequentemente, já que uma coisa parece levar a outra, momentos políticos do país ganham também espaço na narração. E, vale dizer, o excelente resultado de Meu Caro Amigo deve-se muito ao trabalho da atriz e cantora Kelzy Ecard, dona de bela voz e um carisma que faz o espectador sorrir com facilidade. No fim, a evidência de que tudo era muito mais profundo do que aparentava.

 

#2 The Cabinet [Cia. Redmoon]

Apresentada pela Cia. Redmoon, de Chicago, na MIT 2010 [Mostra Internacional de Teatro], The Cabinet é inspirado no filme O Gabinete do Dr. Caligari. Nesta encenação, a já conhecida e misteriosa história é contada através de marionetes manipuladas por atores fortemente caracterizados, acompanhando assim a estética expressionista que compõe a cena. No palco, somente uma enorme escrivaninha que agrega todos esses elementos – atores, cenários e bonecos. É um malabarismo precisamente coreografado e executado com rigor pelos atores,  que não só encantava pelo alto nível de dificuldade, mas pela forma sempre surpreendente de como utilizava os elementos em cena, mesmo esta se restringindo a um pequeno espaço. Para nunca mais esquecer. [Assista ao vídeo e tenha ideia do que estou dizendo.]

 

#1 Hamelin, de Juan Mayorga [Dir.: André Paes Leme]

Em Hamelin, não há necessariamente nada de novo. Evidenciar o fazer teatral e expor suas dificuldades, desconstruir a relação entre personagem e ator, utilizar o texto para além de sua trama e, assim, romper com qualquer aspecto ilusório da encenação – são questões que o teatro vem discutindo ao longo de todo o século passado. Porém, o modo como a peça agrega tais pontos a uma história instigante de suspeita de pedofilia e investigação policial é que torna o resultado primoroso. Com cenário e figurinos econômicos e, por isso, favoráveis à cena, a peça é um resultado perfeito pela reflexão pertinente que faz do próprio teatro e de questões humanas e morais – e ainda apresenta certa beleza visual com a manipulação de abajures luminosos pelo próprio elenco. E jamais duvide do talento de Vladimir Brichta, preciso em cada instante.

Menções honrosas | o divertido As Coisas, inspirada na obra de Arnaldo Antunes | a beleza de Marina

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  1. Achei que Marina merecia entrar no top, mas como não vi todas as que entraram, não posso reclamar… e isto foi compensado pela presença de “meu caro amigo”, adorei saber que não fui a única a considerá-la TÃO importante. Quanto à Hamelin não preciso nem dizer né?? É daquelas coisas que a gente faz =O quando termina, e a presença do Vladimir tem um grande peso nisso… em todos os sentidos [hehe].

    qual será o próximo top?

  2. O que dizer desse top? Bem, esse top foi… é… eu diria que…

    AH, PORRA, sei lá, não gosto de teatro. Mas, good for you ter ido ver esse monte de peçaí. Faz bem pro intelecto.

    E se eu fosse vc colocava a tua peça aí pra fazer propaganda. Enfim.

    Tô com medo do próximo top. No, really.

  3. Agreste Malvarosa foi uma grata surpresa, né? Lembro que fiquei receoso sobre o que iríamos ver, mas poucos instantes após começar o espetáculo eu já havia sido conquistado, o trabalho das atrizes é fantástico, encantador e MUITO envolvente, acho que o espaço onde vimos também ajudou, criou uma intimidade maior com a cena. O músico que acompanhava também era muito bom. Morar no Rio ia fazer bem pra minha bagagem cultural porque ia querer ver todas as peças que tu visse, haha. Uma pena não ter conseguido ver nenhuma dessa vez. Fiquei muito afim de ver essa Meu Caro Amigo, ver uma peça com algo do Chico é um dos meus maiores desejos não realizados [o outro é um threesome, HAHAHA, brinks -n]. Peça musical acho que é uma coisa que nunca vi também, então queria ter visto essa A Caolha também. The Cabinet parece incrível, e só de ser inspirado em O Gabinete do Dr. Caligari já dispensa argumentos. Nunca vi peça metalinguística também, e não sabia que o Vladimir fazia teatro, sempre achei ele um bom ator, limitado pela TV, deve ser muito bom vê-lo no teatro.


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