calígula [dir.: tinto brass, 1979]

Calígula me fez questionar os limites do cinema pornô. Afinal, o que faz um filme receber esta classificação? A resposta parece óbvia quando diante de um vídeo com 5 minutos de “história” e todo o resto de putaria – e sabemos que num filme deste gênero, é isso mesmo que o público espera. Calígula, porém, possui as duas coisas. Seus 155 minutos de duração narram a vida do perverso e extravagante imperador romano, desde antes de ser aclamado como César até a conspiração que resulta em sua morte, mas através da lente de Tinto Brass, a devassidão romana de seu império é captada sem camuflagem. Grandes orgias, penetração, sexo oral e ejaculação são registrados em planos fechados – e um sexo oral, por exemplo, só deixa de ocupar a tela quando o indivíduo chega ao orgasmo. A relação sexual aqui não é um detalhe, não é para ser discreta ou romântica. Está longe do grotesco evocado em Saló, mas pode chocar quase da mesma forma como o filme de Pasolini, talvez mais por nossos pudores inevitavelmente resguardáveis que pela obra em si. Quero dizer, o sexo, quando explícito em filmes não-pornôs – ainda que a assinatura de Tinto Brass prepare para um forte cunho erótico -, parece causar desconforto, e em Calígula, é impossível passar indiferente por ele. Apesar da dificuldade de não indagar sobre a real necessidade de certas cenas, o filme faz jus a fama de seu personagem-título – e por isso, o tratamento do longa parece propício -, não apenas apresentado como um libertino de excentricidades sexuais, mas, sobretudo, como imperador cruel e perverso, dono de uma hostilidade que resultava em torturas injustificáveis e em sexo como ferramenta de humilhação política. Como Malcolm McDowell é capaz de humanizar qualquer personagem, seu Calígula, repulsivo, por vezes alcança uma sagacidade risível e sofrimentos verdadeiros, enquanto que Helen Mirren faz jus a máxima “Meu passado me condena” e Peter O’Toole faz ponta marcante. Calígula, trocando em miúdos, é um épico pornô. Não assista com a família.

nota | 6,5

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  1. “Quero dizer, o sexo, quando explícito em filmes não-pornôs – ainda que a assinatura de Tinto Brass prepare para um forte cunho erótico -, parece causar desconforto, e em Calígula, é impossível passar indiferente por ele”. Muito bem colocado, ainda que eu não tenha conferido o filme, achei interessante essa sua passagem

  2. Eu vi! Esqueci de dizer, vi um dia desses. Então, até que eu achei muito bem feito, dei meio ponto a mais que você. As cenas de sexo, e a exibição dos corpos e tudo mais, não é bem o problema, ou não é bem um problema, enfim. O que me incomodou um pouco foi a duração, algumas vezes ocorria alguma coisa na narrativa, que é boa e bem estruturada até, e isso parecia apena uma deixa pra putaria que viria em seguida, e às vezes eram cenas muito longas e nada orgânicas. Em outros momentos eu achei que a exploração desse fator sexual e devasso foi bastante pertinente, várias coisas bem explícitas aparecem como pontuações na história, quase que pra ilustrar, nesses casos é até interessante. Não que fosse necessário usar desse recurso, poderia ser algo mais sutil, mas foi aceitável. No final das contas acho que ele tá mais pra um épico do que pra um pornô, talvez um épico com toques de pornô, rs. As atuações do Malcolm McDowell, do Peter O’Toole, do John Gielgud, principalmente, e até mesmo da Helen Mirren são dignas de um grande filme e a direção do Tinto Brass mesmo que não tão inspirada assim, até porque ele não teve controle criativo, não chega a ser comparável com a direção de um filme pornô. Agora, curiosamente, a cena que mais me incomodou e pareceu excessiva e exagerada, além de mal feita, não tinha sexo ou partes genitais no meio, haha, foi a cena final, achei muito ruim aquilo. [teve a parte do corte do negócio do infeliz lá também, muito tosca, mas o fim foi pior]


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