uma mulher é uma mulher [dir.: jean-luc godard, 1961]

Godard parecia se divertir com Une femme est une femme. Digo, a linguagem cinematográfica nos filmes do cineasta aparenta algo que fora apenas desenvolvida há algumas décadas, mas que ainda era um farto terreno a ser explorado – e claro que, para o diretor, explorá-la vai além da  diversão. Se em Acossado, seu primeiro longa, o diretor inaugura definitivamente um novo movimento do cinema francês e ultrapassa o convencionalismo estético, em Uma mulher é uma mulher, Godard continua o exercício e rompe de vez com qualquer ideia de ilusão, e refletindo o próprio cinema, concebe um filme que se sustenta, também, pela sua linguagem – os cortes abruptos na edição, os atores que se dirigem diretamente para a câmera, os longos planos-sequências, a trilha sonora que mantém um diálogo fascinante com as falas dos personagens [e é curioso que ela parece sempre anunciar o início de canções a serem entoadas pelos atores, mas eles apenas continuam falando, enquanto o volume dos instrumentais é alternado de acordo com suas falas]. Aliás, ainda não vi um diretor que integra espelhos nas composições de seus quadros como Godard, os quais aqui contribuem para neles inserir profundidade e são valorizados pela direção de arte econômica, que realça objetos coloridos em paredes brancas.  O melhor, porém, é que a linguagem do diretor é extremamente coerente com a história em questão e, sobretudo, com as atitudes dos personagens. Com charme, impulsionado pelos figurinos  dos anos 60, também destacados por cores fortes, Anna Karina [na época, esposa de Godard] compõe não somente uma personagem que pulsa liberdade, mas, na tela, é como uma representação do espírito feminino, imponente, capaz de lidar ao mesmo tempo com a paixão de dois homens, sem, porém, negligenciar o romantismo, a fragilidade e a impulsividade materna. Aqui, a soberania da fêmea se impõe sobre o macho, a qual a vizinha da protagonista [que funciona como recurso narrativo brilhante para o discurso de Godard] e o desfecho irônico não deixam de salientar. Em tempos de Bella, da Saga Crepúsculo, assistir Uma mulher é uma mulher soa bastante propício.

nota | 8,5

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  1. Pingback: Tweets that mention uma mulher é uma mulher [dir.: jean-luc godard, 1961] « receio de remorso -- Topsy.com

  2. Acho que não conhecia esse, curioso o Godard ter feito um filme colorido em 1961, apesar que Acossado é colorido, né…? Mas não sei por que, tenho essa impressão de que todos os filmes do início da carreira dele são P&B. Outra coisa engraçada sobre Godard, é que apesar de ter gostado dos filmes que vi dele, especialmente de Bande à Part, e saber que DEVO ver vários filmes dele, tenho uma inexplicável resistência em ver filmes do diretor. Acho que é pela sua figura pública, acho ele muito chato, e pelo relacionamento dele com o Truffaut, sempre acho que a culpa da briga dos dois foi do Godard, e foi mesmo, rs. Com o Truffaut inclusive acontece o contrário, tenho uma predisposição enorme a ver os filmes dele. Mas tudo isso é uma bobagem. Fiquei muito interessado em ver esse “Uma Mulher é Uma Mulher”, a parte que você comentou a integração do diálogo com a trilha me deixou intrigado. O comentário no final foi bem interessante, e me fez pensar em como filmes tão antigos conseguem ser incrivelmente mais modernos do que muito dos contemporâneos. E ah, eu adoro os anos 60 xD.

    • Luis, nha, nunca vi Alphaville. Acho que pode ser o próximo! []s!

      Matheus, não, baby, Acossado é preto e branco. Alzheimer total hein. xD Mas legal é que alguns anos depois ele faz filmes p&b. O que só salienta o quanto esse filme TINHA que ser colorido. Cara, o filme é muito charmoso, que cores lindas, que figurinos. Também adoro anos 60 – e então imagine Paris nos anos 60?! Pois é. E meu caso é o contrário, sinto-me muito motivado a ver os filmes do Godard, dá uma sensação muito boa, e o cara fazia várias coisas legais né? Tipo, veja, veja mesmo. E na relação dele com o Truffaut, também acho que ele foi o mais escroto mesmo. xD []s!

  3. Ainda não assisti a este filme, mas fiquei bem interessado. Até agora só vi Acossado do Godard e gostei bastante. O cara é diferenciado. Gostei muito da última frase do teu post!

    Abraços.

    (achei que já tinha te adicionado no meu blogroll, só agora percebi que não – por pouco tempo)

    • Bruno, gosto muito de Acossado, mas meu preferido do diretor ainda é Band à Part, recomendo. hehehe É que quando vi o filme lembrei imediatamente da discussão que tava rolando por aí sobre a Bella, dela representar uma mulher moderna, que comanda os homens e toda essa bobagem que disseram, e percebi que um filme de 1961, de qualidade infinitamente superior, já abordava de forma tão atraente o poder feminino. Enfim. Vou te linkar aqui também, Bruno! []s!

      Cleber, fica a dica então. []s!

      Vinni, tsc tsc tsc, que feio. hahaha Comece por esse! Tenho certeza absoluta [sério] que você vai gostar. []s!


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