glee e a season finale

Eu quase desisti de Glee no quarto episódio da série, quando o time de futebol americano dançou “Single Ladies” no gramado para ganhar um jogo. Sim, era engraçado, mas era também uma das coisas mais sem sentido que já assistira num conteúdo audiovisual. Parecia o ápice do insulto ao sentido lógico e ao mínimo de verossimilhança esperada pelo espectador. Insulto o qual, até esse momento, a série já fazia em pequenas doses. Certos conflitos entre os personagens e novas situações, no mínimo, estranhas que surgiam a cada início de episódio – como a criação do Acafellas, Mercedes se apaixonar pelo Kurt, etc e tal – se resolviam antes do próximo capítulo ir ao ar. Até que uma hora a gente entende: isso é Glee!

Então quando a Rachel se apaixonou pelo Will, Mercedes namorou Puck e junto com o Kurt fez parte das Cheerios, Terri trabalhou de enfermeira na escola, um antigo integrante do Clube voltou para acabar com ele, Will despertou em Sue algum sentimento – ok, até hoje isso não desceu -, a mãe da Rachel aparecer de uma hora pra outra e por aí vai, bastaria um episódio ou um pouco mais para esses problemas se resolverem e  as coisas voltarem ao normal. É como um universo particular, onde as coisas só acontecem e fazem sentido porque estão nele.

A lógica de  Glee, mesmo justificando seus acontecimentos improváveis e seja a desculpa para parte dos números musicais, inevitavelmente comprometeu a qualidade da série.  Os episódios são pensados a partir das músicas e não o contrário – o que é óbvio, já que é justamente essa sua proposta -, e Glee mostrou que a fórmula deu certo.  Bem, na maioria das vezes. No esperado “The Power of Madonna”, um dos episódios mais fracos da temporada, os personagens pareciam títeres controlados por um roteiro que os moviam com o único intuito de cantarem músicas da Madonna, suas motivações e subjetividade eram sobrepostas pela necessidade de encaixar a maior quantidade possível de músicas da cantora. Também não dá para ignorar situações infantis e dramaturgicamente fracas, como Jessie no New Directions e seu romance bobo com Rachel, prejudicando os primeiros episódios da retomada.

Mas a gente percebe que essas ressalvas não fizeram muita diferença quando você se acaba de chorar na season finale e se emociona na apresentação do grupo no campeonato e o coração bate mais forte no momento do anúncio do vencedor e morre de rir da Sue dizendo que vai vomitar na boca do Will se ele não largar sua mão e continua com lágrimas nos olhos e feliz porque o Clube terá mais um ano, mesmo você já sabendo disso. Acompanhar 22 episódios sobre um grupo de personagens que cantavam seus sentimentos e dificuldades e apenas buscavam ser alguém numa escola onde qualquer minoria leva raspadinhas na cara criou um elo insuperável, fazendo compreender que por trás de acontecimentos incompreensíveis havia personagens verdadeiros, que traziam consigo conflitos a serem resolvidos e tratados. Nesse sentido, Glee apresentou um carinho especial ao falar de homossexualidade, preconceitos, [auto]aceitação, diferenças, família, com seriedade e humor, sem nunca atingir um moralismo gratuito. O resultado desse processo, os alunos deixam claro na emocionante cena em que “To Sit, With Love” é cantada para o Mr. Schuester.

Não menos importante e o maior diferencial da série, as músicas. Glee homenageou artistas, reinventou clássicos, exaltou sucessos recentes – tornou alguns ainda melhores que a versão original -, e isso deve-se a um elenco primoroso, composto por atores/cantores dotados de grandes vozes. E já penso que, quando a série chegar ao fim – que demore muitos anos para isso -, restarão as músicas para matar a saudade. E com elas, lembranças de momentos inesquecíveis de uma série que, mesmo com peculiaridades duvidosas, já é muito querida.

E Sue Sylvester: “Eu te amo. Ainda faço um top com as suas melhores frases. Beijomeliga.”

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  1. Concordo com muito do que você escreveu aqui. “Glee” tem seus momentos irritantes, mas no geral é uma série que eu sempre estou curioso para ver o próximo episódio, tanto que geralmente assisto na mesma semana em que foi exibido. Sem falar que, como fã de musicais, é maravilhoso ver o gênero se tornando tão popular novamente. Grande season finale. A série é mais um acerto do Ryan Murphy.

  2. E como concordo contigo. Você falou exatamente aquilo que sinto ao assistir Glee, uma mistura de vergonha com uma vontade de procurar a próxima setlist de músicas. Já já a Broaway inteira vai aparecer nas telas e ter seu devido lugar guardado e apreciado.

    • Vini, também ficava doido pra ver. Às vezes voltando da faculdade meio cansado e down, ficava todo feliz só de lembrar que um novo episódio me esperava. A abstinência será difícil. []s!

      Luis, hehe, que bom! Seria ótima incitar boas produções musicais como é Glee. []s!

  3. haha, amo a Sue também.

    É bem isso que você falou. Glee comete um monte de erros que só funcionam em seu mundo. É a forma com que é feita? São as músicas? O elenco? Talvez nada disso. O que importa é que Glee já é obrigação minha como fã de séries, gostando de uns momentos e sentindo vergonha alheia de outros.

    Abração!

  4. Glee é simplesmente uma das melhores séries musicais que existe… E na moral é impossivel vc não se apaixonar pelos personagens… e se imaginar vivendo aquilo. … Paz

  5. Engraçado, Glee me conquistou definitivamente no 4ª episódio da série, que te fez querer abandoná-la, me diverti horrores com aquilo, e percebi que ela seria bem sucedida se mantesse aquele nível de situações absurdas mais números músicais. Definitivamente não é uma série que consegue fazer tramas verossimilhantes e personagens que dá pra crer que poderiam existir fora da série, mas é assim que ela triunfa, como você disse, é todo um universo particular, quase tudo é absurdo, mas a linguagem da série é essa, por isso que não me agrada quando ela tenta navegar por outros mares, porque simplesmente eles não conseguem fazer isso tão bem quanto conseguem criar o mundo over que é tão próprio da série. Pra mim Glee é uma série que quase sempre me faz feliz mais pela forma como trabalham o ridículo do que qualquer outra coisa [btw, adorei a situação Will & Sue], mas também consegue ser entreterimento de alta qualidade, e não apenas um prazer culposo, através dos números músicais que, mesmo com o uso excessivo do autotune, muitas vezes são fantásticos. Enfim, como tu disse, Glee é principalmente música, mas pra mim também é muita diversão, algumas coisas são quase humor negro[ou involutário], e enquanto a série conseguir aproveitar bem as músicas e me fazer rir de forma vergonhosa, ainda vou querer vê-la.

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