sonhos roubados [dir.: sandra werneck, 2009]

Assisti Sonhos Roubados pela primeira vez no Festival do Rio ano passado, numa sessão lotada no Odeon que aplaudiu o filme aos créditos finais. Reconhecimento merecido para o novo filme de Sandra Werneck [Cazuza – O Tempo Não Para], que capta, com um requinte visual que não camufla uma realidade incômoda, o impasse de três meninas da periferia carioca diante um cenário desestruturado, onde a família é inexistente, a educação é deficiente – um dia não tem aula porque o professor faltou, no outro, um traficante foi morto e daí tudo precisa ser fechado, e, em outros meses, greve dos professores -, a gravidez, precoce, e parece não haver muitas soluções para sobreviver com dinheiro no bolso – como uma personagem diz, “é preciso ralar muito pra ser gostosa”. Sem fazer julgamento de seus personagens, o roteiro, baseado no livro As Meninas da Esquina, de Eliane Trindade, catalisa o amadurecimento das protagonistas. Há uma pressa para crescer e a necessidade de largar a inocência, quase latente, mas aflorada nos sonhos mais inocentes e sentimentos femininos, de meninas que ainda têm desejos de meninas apesar de irem pra cama em troca de dinheiro. Poderia ser mais um filme retratando a carência do brasileiro. Porém, Sonhos Roubados não é exatamente sobre isso, e sim sobre o que se perde neste cenário.

Desde essa primeira exibição, assisti-o mais duas vezes. Sempre o filme me atinge de maneira muito dura, algumas cenas  ainda me desconcertam por me deparar com uma realidade para a qual tentamos – ou precisamos? – tapar os olhos ou talvez acabamos por esquecê-la já que, aparentemente, está distante. Mas concomitante a esse choque, há um envolvimento forte com as três personagens principais, o qual o longa alcança naturalmente à medida que cada drama pessoal, unidos pela forte amizade entre as meninas, se desenvolve, sob interpretações irrepreensíveis das jovens Nanda Costa [premiada no Festival do Rio como Melhor Atriz], Kika Lopes e Amanda Diniz.

Funcionando quase como uma versão ficcional do longa anterior da diretora, o documentário Meninas, Sonhos Roubados também recebeu o Troféu Redentor de Melhor Filme pelo júri popular e estreia dia 23 de abril. Um ótimo exemplar do cinema nacional que precisa ser assistido.

nota | 8

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  1. Eu quero assistir esse filme. Dizem que a Nanda Costa é muito boa, quero ver.
    Sem perder a oportunidade de fazer propaganda: li um comentário seu no meu blog em 2008 dizendo que sentia falta dos meus posts. Pois então, com um puta atraso fiz um post inspirada nesse comentário :) Resolvi ressuscitar o blog, hehe.
    Saudades e beijo

  2. “Um ótimo exemplar do cinema nacional que precisa ser assistido.” Somente isso já me deixou curioso, afinal você entende muito dessa área e uma recomendação dessas não se deixa por menos, hehe.

  3. Pingback: promoção | sonhos roubados « receio de remorso

  4. Lembro de ter gostado muito da direção da Sandra em Cazuza, mesmo não achando o filme sensacional, tenho vontade de ver Amores Possíveis também, parece interessante. Esse eu já tinha ficado com vontade de ver desde que o vi na seleção do festival do Rio, se tivesse ido seria um dos que teria visto, seu texto reforçou a impressão que eu tinha do filme, que se trata de uma obra relevante e não o mais do mesmo do cinema “social” brasileiro. Acho que o último nacional que vi no cinema foi À Deriva, se for distribuído decentemente aqui, há grandes chance desse ser o primeiro que verei esse ano.

  5. Fiquei bastante curioso por essa obra, afinal, você não é de dar uma nota tão alta para certos filme srsrs. Fora isso, a história em si – mesmo me parecendo um pouco clichê – me chamou atenção.

  6. Ola Jeff,
    Assisti a Sonhos Roubados somente agora, e fui escrever sobre ele no meu blog. Quando sai em busca de imagens do filme para ilustrar meu post descobri seu blog e seu post sobre o filme. Gostei muito do que li e da sua visão sobre o filme. Difícil ter pessoas na sua idade com opiniões tão fortes e uma linguagem tão bacana! Parabéns pelo Blog!
    Abraço,
    Sabrina.


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