roberto carlos em ritmo de aventura [1968]

(idem, Roberto Farias, 1968) Talvez você se pergunte o que leva alguém, por conta própria, assistir Roberto Carlos em Ritmo de Aventura. Eu te respondo atribuindo culpa à minha curiosidade, a qual não se manteve indiferente quando li a seguinte sinopse num site de download de filmes: “Roberto Carlos faz um filme, quando se vê perseguido por bandidos internacionais que queriam levá-lo para os Estados Unidos. Os bandidos o seguem em loucas correrias pela cidade, na estrada do Corcovado, em situações de perigo”. Então o cinema brasileiro tem um raro exemplar de filme de ação, com sequências musicadas, e ainda estrelado pelo Rei. Sem dúvidas, imperdível. E claro, a sinopse não somente anunciava um desastre como, aos créditos finais, conclui-se que ele é muito – com negrito, itálico e sublinhado – pior do que poderia imaginar. Está na mesma proporção dos filmes de hoje da Xuxa, com a diferença de que a Rainha dos Baixinhos sabe ser medíocre com recursos modernos.

Em Ritmo de Aventura é antológico da primeira à última cena. Ao som de “Eu Sou Terrível”, o filme tem início com uma  sequência de perseguição em plena estrada do Corcovado, que faria Michael Bay morrer de inveja. Roberto Carlos, mesmo perseguido por um grupo de mafiosos, está sorridente e com os cabelos esvoaçantes, parecendo qualquer coisa, menos terrível, como informa a trilha sonora. Após sequências de tiros de pular da cadeira tamanha a empolgação, pimba!, o Rei, com toda sua majestade,  surge no braço do Cristo Redentor [!], diz que não é James Bond e reclama com o diretor (Reginaldo Farias no papel de Roberto Farias, o verdadeiro diretor do longa) da quantidade de metralhadoras logo no início do filme. Permita-me reproduzir o diálogo que segue entre o diretor e um dos bandidos:

Diretor: Que negócio é esse de metralhadora?
Bandido 1: Ué, foi seu assistente que mandou!
Diretor: Se o assistente mandar você se atirar de cabeça debaixo de um trem você se atira?
Bandido 1: Me atiro sim, senhor.
Diretor: Metralhadora agora não!

Se não bastasse a construção primorosa do texto, é preciso ressaltar que o diretor, por algum motivo, está na cabeça do Cristo Redentor e o bandido, negro, com roupa africana, mas de sotaque chinês, lá embaixo. Problema resolvido: o assistente retira a arma e a perseguição pode continuar, agora ao som de “Por Isso Corro Demais”. A esta altura, fica claro que sentido narrativo é pura bobagem e o mais importante é inserir o máximo de músicas possíveis do Roberto Carlos, sobretudo do CD de mesmo título do filme, lançado em 1967. Desta forma, o espectador já não se surpreende quando, após a sequência em  que joga granadas nos bandidos cantando “Você Não Serve Pra Mim” [!!!], Roberto Carlos surge dentro de um helicóptero, vestindo uma nova roupa, e foge por Botafogo, passa por Copacabana, enquanto “Namoradinha de um Amigo Meu” toca ao fundo. Quando chega na Av. Presidente Vargas, a música já é “Canzone Per Te”. Todas na íntegra, vale dizer.

Mas tudo que é muito bizarro só consegue ser engraçado no início. No decorrer do filme, a graça cede lugar ao insuportável. A maior motivação era saber que aquilo poderia ficar cada vez mais estranho – e ficou. Há coisas ainda mais surpreendentes no decorrer do longa, que desafiam qualquer sentido lógico e narrativo. Para não contar mais detalhes e estragar a surpresa caso alguém queira assisti-lo [alguém?], só preciso informar que Roberto Carlos ainda canta “Como é Grande o Meu Amor Por Você” para uma boneca de pano, viaja de foguete para o espaço,  e tudo termina numa cena de guerra. Divirta-se!

nota | 1*

* 0,5 pela metalinguagem que de tão estúpida é genial + 0,5 pelas músicas, que mesmo fora de contexto, ainda são Roberto Carlos.

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  1. haha gente, quero ver! Atoron bizarros!
    Pago um pau pra “Super Xuxa contra o baixo astral”, já disse isso aqui… substituir a rainha pelo rei não será coisa impossível…

  2. Caraca, visse? O que é isso meu filho? O ‘Rei’ é um agente do FBI agora. Rir MUITO, acho que isso é algo que deve estar na lista das coisas mais trashes que o Brasil já teve a coragem de fazer.

  3. Olá, Jeff…

    Cabe dizer aqui que se o filme não tem nada de engraçado, ao menos seu post faz as honras! Por um minuto cheguei a lembrar de “Fucker and Sucker”, o diálogo por você mencionado é tão insípido quanto, ou seja, cômico de tão trágico.

    Pela descrição realizada não preciso perder meu tempo para atestar a tentativa de “sabe-se lá o que” do diretor Roberto Farias.

    Deixo claro que apesar de não ter visto o filme e tampouco ser o primeiro a aguçar os ouvidos quando se trata do “Rei”, (Que aliás, alguém faça o favor de avisar a ele que a monarquia já acabou. Se toca RC!)meu comentário foi extremamente imparcial.

    Beijos!

  4. HAHAHA, ri muito, seu texto mais engraçado ever! Já tava rindo da sinopse, muito bizarra, não imaginava que o Roberto tinha feito um filme assim, parece até uma coisa meio Hermes e Renato. Não sei se teria coragem de ver o filme, só se fosse por uma curiosidade muito mórbida, nem o fato do Rio ser o cenário e ter algumas músicas que eu gosto fazem o filme valer a pena, só o gosto pelo trash mesmo. haha


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