monika e o desejo [1953]

(Sommaren med Monika, Ingmar Bergman, 1953) Alguém aí sabe sueco e poderia traduzir o título original do filme? Em inglês ficou Monika, the Story of a Bad Girl. Não é bom. Taxar a personagem de má logo pelo título já deposita no espectador a espera pelas piores atitudes daquela menina, de 17 anos. Na maior parte do filme, Monika é sedutora, possui uma espontaneidade juvenil, inconsequente e apaixonante de uma jovem que não mais suporta se prender aos comportamentos pré-estabelecidos pela sociedade. Quando se é jovem – e ama um outro jovem de idade próxima à sua que também não anda muito satisfeito com a vida, uma paixão que faz toda a diferença -, mesmo na Suécia de 1953, é mais fácil colocar as roupas na mala, pegar um barco com o namorado e viver  numa ilha. Se o filme fosse francês e feito dez anos depois, ia parecer um Godard. Se fosse norte-americano, pensaria na versão original de A Lagoa Azul.

Também não é somente a história de Monika. É ela sim quem determina todos os acontecimentos, mas no último ato do filme – e estou fazendo um grande esforço para não dar mais detalhes -, o olhar de Harry, seu namorado, no espelho, após a turbulência de sua juventude ter ficado para trás, afasta a possibilidade de uma narração direcionada apenas a uma personagem.  Monika e o Desejo – melhor que o título em inglês – se finca sobretudo numa vontade de ser livre. Quando o casal deixa a cidade, Bergman não registra mais nada além do cenário que abandonam. É o adeus a um refúgio, o lugar que está relacionado às amarras as quais não querem estar presos, mas também ao único lugar que, se tudo der errado, poderão voltar para se subsistirem.  Por um momento, pensei que veria algo parecido com o final de A Primeira Noite de um Homem: Monika e Harry chegando na ilha, olhando para a câmera com cara de “E agora, conseguimos o que tanto queríamos. Como vamos viver?”‘. Mas a paixão ainda pode sustentar. A questão é até quando.

É um Bergman muito simples, que te deixa vivo após o término do filme – apesar do desfecho. Nem parece dele, mas de vez em quando tem umas cenas que nos deixa ciente disso. Seus closers aqui são tão marcantes quanto os de Persona. Há três, no mínimo, que não dá pra esquecer. Ou os personagens olham para eles mesmo ou para câmera – e logo para nós – ou para além dela. Algo indefinido como seus impulsos. Nessa cena que ilustra o post, o contato entre eles parece sensível do lado de cá da tela. É muito próximo. Incrível. E há também umas tantas outras cenas com a beleza habitual de seus outros filmes, como o barco sumindo no horizonte e a fuga da menina com o pedaço de carne pelo mato. Não menos importante, o vigor de Monika não deixa de ser expressado. Só é diferente dos outros, mas é tão incrível quanto.

nota | 9

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    • Vinícius, é bom sim. Tô tentando fazer isso este ano. []s!

      Matheus, é, também acho que é Verão com Monika, pois tem um título alternativo em inglês que exatamente isso né? Vou procurar os mais filmes dele do início da carreira para ver se são nesse mesmo estilo. Mas simples ou não, são ótimos. E simples, simples, nem são. NUNCA! “Leve” acho que funciona melhor. E é só em comparação com as coisas mais tensas como Persona, Morangos, etc etc. [achei não] []s!

      Bruno, de nada, cara. Gostei de lá. O ruim é encontrá-lo, mas vale o esforço. []s!

      Wally, eee, valeu! =D []s!

      Pedro, esse só um um pouco mais leve, né? []s!

  1. Ao que parece, significa Verão com Monika. Bergman talvez fosse menos profundo no início da sua carreira, mas tenho certeza que já tinha a magnífica percepção que me fascinou em seus filmes mais consagrados. Eu queria ter só uma fração da capacidade que ele tinha de extrair imagens tão poderosas de coisas, por vezes, muito simples. Fiquei com muita vontade de ver esse, tem muito tempo que não vejo um filme do diretor, já estou sofrendo de uma considerável abstinência, hehe. Ele consegue me atingir de uma forma tão abrangente, talvez não tenha outro diretor que consiga fazer isso tão bem, é sempre uma experiência inigualável ver um filme desse mestre.
    [obs.: a fonte tá meio pequena, não?]

  2. ae, valeu pela visita no meu blog…

    esse é um bergman que ainda não vi, mas achei bem intressante, mesmo fugindo um pouco do estilo dele, aparentemente.

    essa cena final que vc citou me pareceu genial.

    Abraço!

  3. Bergman é gênio, meu favorito é o óbvio “O Sétimo Selo”, mas em seguida vêm dois pouco comentados: “En Passion” (creio ser “A Paixão de Anna” o título nacional ou algo bem próximo a isso) e “Vergonha”; ainda não conferi este, mas pretendo fazê-lo urgentemente.

    [OFF:

    Ficou bem legal, clean e bonito este blog; parabéns. Está com uma postura de dedicação legal, resta-me conferir a qualidade dos textos, mas o que me atrai a princípio é essa questão de formatação / estilos de postagem etc e nisso este aqui ficou bem melhor do que o antigo (sobre o qual tenho vagas lembranças, confesso. Na verdade, nem sabia da mudança).]


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