do começo ao fim [2009]

Do Começo ao Fim
(idem, 2009)

direção: Aluizio Abranches
roteiro: Aluizio Abranches
país: Brasil
estreia: 27 de novembro

+ informações
site oficial
imdb
cinema em cena

nota | 4

|

Do Começo ao Fim ganhou imenso alarde muito antes de chegar às telas do cinema. Surgiu como um exemplar diferente do cinema nacional, afinal, o tema da homossexualidade, combinado a incesto, nunca havia sido tratado com a seriedade que seu vídeo promocional, sucesso de exibições na internet, sugeria – além das cenas de nudez entre os dois atores protagonistas que criaram fortes expectativas em um público específico. Mas após seus poucos 90 minutos de duração, os créditos finais surgem com a impressão de que o longa de Aluizio Abranches se sustentou até aqui exclusivamente por seu controverso conteúdo, ficando mesmo na promessa da abordagem cuidadosa à temática e, principalmente, da relevância e qualidade quanto cinema.

A primeira parte do filme trata de acompanhar a infância de Thomás e Francisco [Gabriel Kaufmann e Lucas Cotrin inicialmente] – filhos somente da mesma mãe [Julia Lemmertz] -, marcada por uma admiração do primeiro pelo segundo, compensada por este através de um cuidado rigoroso. Apesar da troca de carinho constante e abraços e contatos físicos em ocasiões supostamente desnecessárias, essa aproximação excessiva só ganha olhares suspeitos pois o espectador possui ciência do fim desse relacionamento.  Obviamente, eles agiam segundo um sentimento fraternal, instintivamente natural e nada entendiam do que sentiam – ou melhor, nem se questionavam sobre isso -, mas ganhavam olhares suspeitos de seus pais, tomados pela preocupação que reflete uma incapacidade de lidar com uma embaroçosa situação.

Mas se nesse momento, o roteiro, também de Abranches, trata com certa delicadeza esse início sugestivo, tropeça a medida que o filme avança – seu título, inclusive, soa irônico, já que carece justamente de um bom desenvolvimento entre as duas extremidades da história. Quando ocorre a passagem de tempo – de uma forma bastante abrupta, vale dizer – o romance entre Thomás e Francisco [agora, Rafael Cardoso e João Gabriel Vasconcellos] já está consolidado, ficando a pergunta de como tudo começou. Há uma pressa incompreensível, que coloca todos os questionamentos, descobertas, conflitos e, sobretudo, o surgimento do sentimento amoroso unido ao desejo sexual fora de cena. E assim, após um imenso salto narrativo e um vazio de acontecimentos, vemos os dois atores se despindo frente às câmeras.

Após a sucessão de cenas que inaugura o segundo ato, fica claro que a principal característica da direção de Abranches é a exploração dos corpos da dupla protagonista. O roteiro, inclusive,  não deixa de criar oportunidades para isso, como a viagem do casal para a Argentina: se não fosse suficiente sua carência de contribuição para a narração, parece apenas uma ocasião para mostrar o contato dos corpos nus dos atores – numa das cenas mais bregas que o cinema apresentou este ano. Ou ainda as sequências na praia, as quais, tomadas pelo mesmo vazio de significado que permeia o longa, estão muito aquém do sentido metafórico que tentam possuir [o aparecimento no mar de um determinado personagem brincando junto com os irmãos, além de equivocado, é ineficaz em expressar o que deseja].

O recurso da narração em off de Thomás é incompreensível; se já surge com desconfiança na primeira cena, tal impressão se confirma a medida que sua gratuidade se evidencia – não é à toa o abandono do recurso após um dado momento -, inclusive por ser atribuída ao personagem mais negligenciado do romance. Além desses problemas isolados [pode ser citado ainda o diálogo sobre o governo Collor, o qual, mal construído, busca uma contextualização que nada tem a ver com as necessidades do filme], o roteiro ainda peca, ajudado pela edição, na coesão dos acontecimentos: se numa cena vemos os dois irmãos em abraços e carinhos dolorosos devido à iminente separação entre eles, é de causar surpresa a alegria que os permeia na sequência seguinte, e deste modo, sentimentos e decisões são facilmente esquecidos e sobrepostos por outros num simples corte. Vale ainda ressaltar o episódio da aliança,  com solução bastante questionável e barata se analisarmos as atitudes antecedentes do personagem: spoiler toda vez que saía, reparem que Francisco não usava sua aliança, o que parece uma atitude bastante pensada pelo personagem; por que justamente quando pretendeu consolidar o beijo ou o sexo com a mulher, permaneceu com o anel? Não é apenas incoerente; antes, enfranquece a própria dramaticidade que a sequência poderia gerar. /spoiler

Com um roteiro de problemas sem fim, como diretor, Abranches pouco tem a fazer. E, de fato, pouco faz. Seu maior acerto é o uso da trilha sonora de André Abujamra, que ameniza vagamente o vazio emocional e imagético do filme, uma vez que a de fotografia sem grande destaque de Ueli Steiger [O Dia Depois de Amanhã] é aliada à condução pouco inspirada e falha do diretor. O elenco também é prejudicado com o fraco texto, mas consegue se sobressair. Nas poucas cenas em que pode expressar alguma preocupação de sua personagem, Julia Lemmertz faz o que está ao seu alcance para tocar o espectador, enquanto que Rafael Cardoso e João Gabriel parecem bastante à vontade nas cenas íntimas e trabalham com uma naturalidade fundamental. Apenas o pequeno Gabriel Kaufmann deveria mudar o tom irritante e choroso com que pronuncia cada fala.

Do Começo ao Fim é um filme medroso. Fica evidente que não quer discutir sobre preconceito [aliás, sobre nada] ou qualquer tipo de intervenção do meio externo sobre o relacionamento – decisão a qual, lógico, torna o filme bastante utópico -, mas ao menos compensasse com a atenção necessária para os próprios personagens e seu romance. Um romance que não é feito só de amor e saudade, como é pintado, com tamanha fantasia, durante todo o filme, um romance que quando aparece na tela, já está em seu grau mais elevado, e nem acompanhamos seu nascimento.

É, não foi dessa vez.

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  1. Antes de mais nada,
    aeeeee, voltou a escrever!!! \o/ tava com saudades dos seus textos.
    Você disse no twitter que não gosta de escrever sobre filmes que não gosta, sobretudo brasileiros, mas, de modo completamente sincero, até por que prometi que não iria mais elogiá-lo (pela sua desconfiança ¬¬), sinto que é inevitável dizer que esse foi um dos seus melhores textos. E se foi pelo filme ser ruim, que você veja muitos filmes ruins e escreva sobre eles então! haha [como um certo alguém.. kkkkk]
    Agora sobre o filme, então, lastimável, né? O que eu mais temia aconteceu, esperava realmente que pudesse diferente, apesar que um certo vídeo do filme, um tanto brega, meio que anunciava o desastre, mas eu mantinha a esperança. E seu texto, apesar de ótimo, reduziu minha curiosidade a quase zero. Que ao menos o filme sirva de exemplo do que não fazer rs, sei que isso soa um tanto cruel, mas a observação dos erros alheios pode realmente ajudar outras pessoas a acertar, que ajude nossos cineastas.

  2. Pingback: polêmico do começo ao fim «

  3. Ai, que raiva! Estava ansioso para conferir e um belo filme sobre a temática difícil. Sua crítica me deixou totalmente desanimado. Que pena (mesmo!) que não foi dessa vez. Parece que BROKEBACK MOUNTAIN será eternamente dono do título.

  4. Tratar desses temas é complicado. Mas que pena que os filmes brasiileiros ainda não conseguiram se destacar em produções que não retratem violência e bandidagem. Mas penlo menos valeu a iniciativa de buscar novos temas, algo que esse ano foi indiscutivelmente maior (eu adorei ‘à deriva’ e ‘antes do fim’)

  5. É esse o ‘texto ruim’, Jefferson?
    muito engraçadinho, você!

    bem, apesar daqueles dois absurdos protagonizarem, não quero ver… Não gosto de filme mal feito, he.

    Beijos e vê se larga de frescura, vc tem leitores que esperam o mínimo de consideração de sua parte.

  6. Não assisti o filme ainda. Mas, pra ser bem sincero, essa recepção negativa dele (Isabela Boscov, por exemplo) também não aprovou o resultado) não me surpreende nem um pouco…

  7. ahhh jura que escreveste tudo isso?
    auhauhauahuahuahauah
    tá, brincadeiras a parte…
    “criaram fortes expectativas em um público específico.” — RI MUITO, fatão!!

    olha, não vi o filme ainda… Moro na roça né? ¬¬’
    apesar disso, acho que entendi a cena da aliança… Nâo direi nada, quero ver primeiro… Depois comentarei. ;D

  8. adendo: é um filme do aluísio abranches.
    alguém realmente tinha alguma dúvida de que não seria bom?
    ok, ok, alfinetadas a parte…
    …bom…se é pra escolher alguma coisa dele, eu ainda fico com “as três marias”, que pelo menos estiliza e desloca a (digamos assim) estética nordestina em uma outra ótica/grau nada naturalista e distante do cotidiano de plantão, o que, de certo modo, me agrada…e como forma (e apenas como tal), tá valendo.
    mas quanto à esse “do começo ao fim”, pra mim é mera desculpa homoafetiva pra dar tesão e uma certa cocegazinha no baixo ventre…no tal “público específico”, é claro.

  9. Pingback: como esquecer: novo filme [gay] nacional « receio de remorso

  10. Vi sua postagem mais recente e como não conheço este filme, vim aqui conferir seu comentário. Seja como for, me despertou a curiosidade. Bons ou ruins é sempre bom ver estes filmes para exatamente poder analisar como as produções – nacionais e estrangeiras – estão abordando a questão. abs


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