festival do rio 2009 | resenhas de bolso

eu matei minha mãe

Eu Matei a Minha Mãe [J’ai tué ma Mère, de Xavier Dolan, 2009]

O título desperta curiosidade e não passa despercebido. Através dele, se espera uma relação nada amistosa entre um filho e sua mãe – ou um matricídio, sendo mais lógico – neste longa de estreia do jovem diretor canadense Xavier Dolan, de apenas 20 anos. Assinando também o roteiro e encabeçando o elenco ao lado da ótima Anne Dorval, no papel da mãe, o precoce Dolan é eficiente nos três oficios, criando um leve drama com momentos divertidos – ou o inverso, já que as duas vertentes são muito bem dosadas, sem pesar para um determinado lado. Explorando a relação complicada e ditada pelas diferenças entre os dois personagens – eles parecem realmente nunca se entenderem -, o filme nos mantém próximo ao rapaz, que, em seus depoimentos para a câmera, procura fazer entender para o público e para si mesmo as dificuldades de convivência dentro de casa. Marcado pela ausência paterna e lidando com a homossexualidade de forma natural, o que gera a situação mais engraçada do filme, Eu Matei a Minha Mãe vale, sobretudo, pela agradável sensação de assisti-lo.

nota | 7.5

coco avant chanel

Coco Antes de Chanel [Coco Avant Chanel, de Anne Fontaine, 2009]

A famosa estilista francesa Coco Chanel ganha sua cinebiografia através da diretora Anne Fontaine. Sendo mais preciso, o filme passa rapidamente por sua infância, quando é deixada no orfanato pelo seu pai, e foca-se, basicamente, em seu romance com o inglês “Boy” Capel, ao passo que sua inclinação para a moda surge como fruto da insatisfação com as ostentadas vestimentas femininas da época. E não apenas em relação às roupas, mas também quanto a ideias e atitudes, Coco se mostra uma mulher a frente de seu tempo, de uma postura firme que Audrey Tautou impõe com perfeição em mais um grande trabalho. Claro, tudo é romantizado e diversos momentos da vida de Coco são deixados de lado [seus famosos perfumes, onde estão?]. Ao lado de Tautou, os grandes destaques são, como esperado, os figurinos [indicação ao Oscar já!] e a trilha sonora de Alexandre Desplat.

nota | 7.5

os famosos

Os Famosos e os Duendes da Morte [idem, de Esmir Filho, 2009]

Os Famosos e os Duendes da Morte surge como um exemplar raro em meios às recentes produções nacionais. Tudo é desconhecido, desde a ambientação – uma isolada cidade do Sul do Brasil -, até o elenco sem nomes famosos e o diretor Esmir Filho, em sua estreia em longas-metragens. Mas a principal diferença vem da experiência que o filme pode proporcionar. Se durante a projeção, passado e presente, sonho e realidade, distância e proximidade se misturam e se confundem, ao seu término, resta um vazio imenso, a impressão que os personagens se revelaram parcialmente e os fatos não passaram de sugestões. É um filme aberto, em que os acontecimentos surgidos, ligados sempre a um passado sem definição, são vividos por personagens sem nomes, jovens, em autodescoberta, que fogem do isolamento terreno através da tela do computador e da internet. Assim, Os Famosos e os Duendes da Morte se completa na subjetividade do espectador, o qual, ao som de Bob Dylan e pela fotografia, mais uma vez, irrepreensível de Mauro Pinheiro Jr., assistiu ao maior destaque brasileiro do Festival do Rio 2009. Triste, depressivo, intimista, mas lindo, lindo demais. Vencedor do prêmio de Melhor Longa de Ficção pelo Júri Oficial.

nota | 9

sonhosroubados

Sonhos Roubados [idem, de Sandra Werneck, 2009]

Mais uma vez, a periferia carioca ganha espaço na tela do cinema. A diretora Sandra Werneck foca na prostituição de meninas menores de idade trazendo à tona uma realidade incômoda. O cenário é violento, a educação é falida, a família é inexistente e a situação particular de cada menina não favorece. Parece redundante e familiar – de certa forma, é -, mas Sonhos Roubados é um filme eficiente em sua proposta. Ao mesmo tempo em que pergunta ao público qual seria então a solução para essas meninas, uma vez que parecem acuadas pela falta de saídas, o próprio filme responde no mesmo grau de realidade, sem sensacionalismo ou tom de denúncia. Peca em partes por vitimizar ainda mais o que já está desfavorecido, mas se sustenta, além do tema, pelo trabalho técnico [mais uma ótima fotografia de Walter Carvalho] e pelas atuações, que até os atores mais novatos se sobressaem entre Marieta Severo e Daniel Dantas. Destaque para Nanda Costa, vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival.

nota | 7.5

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Abraços Partidos [Los Abrazos Rotos, de Pedro Almodóvar, 2009]

Pedro Almodóvar sempre gera expectativas. Em Abraços Partidos, elas são superadas. Em mais uma parceria com Penélope Cruz [novamente brilhante e com uma presença arrasadora na tela, como tem sido ultimamente], o diretor espanhol monta uma narrativa consistente, em que os desdobramentos dos acontecimentos revelam aos poucos uma história com surpresas até seus últimos momentos. É mais uma epopeia do diretor, com cores fortes, bela harmonia entre figurino e direção de arte e algumas cenas que só um cineasta com o apuro visual de Almodóvar é capaz de criar – interessante também como faz uso da metalinguagem presente na trama. O final é dos mais engraçadas, e se não desse tudo tão arrumado para o espectador, seria ainda melhor.

nota | 8

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  1. “Abraços Partidos” é um dos filmes que mais aguardo para esse fim de ano, que bom que sua reação foi positiva. Também quero ver “Coco Antes de Chanel” e o vencedor “Os Famosos e os Duendes da Morte”.

  2. só filmes que estou ansioso para vê. acho que qualquer um de almodóvar salta da tela, e ainda mais com penélope nessa ótima fase, deve ser emocionante. e ‘coco’ também estou com boas expectativas (assistir um versão para tv com Shirley Maclaine, que é ótimo)

  3. Aqui em Portugal, Coco avant Chanel e Los Abrazos Rotos já estrearam há algum tempo.

    Coco avant Chanel é um bom filme, mas podia ser muito mais, revelando algumas deficiências no argumento e um cheirinho a desilusão no ar. 3.5*

    Los Abrazos Rotos não é o filme menor que a crítica falava. Pelo contrário, é interessante ver o jogo de auto-citações que Pedro Almodóvar faz. É um dos seus filmes mais trágicos e com uma interpretação soberba e camaleónica de Penélope Cruz.

  4. Almodóvar é quem mais me interessa aí! Mas fiquei contagiado com seus comentários de “Os Famosos e os Duendes da Morte”. Quero ver “Coco Antes de Chanel” também.

  5. Jeff essa “blogosfera” é enorme e a cada dia conheço mais blogues interessantes e gente boa escrevendo.

    Adorei o blog que acabei de conhecer via Cine Resenhas.

    Sobre os filmes, infelizmente por não morar no Rio não consegui pegar o festival e vou ter que me contentar com a Mostra aqui de SP, que em geral tem qualidade inferior a mostra carioca.

    No mais, já add seu blog aos meus favoritos.

    Abraços e parabéns !

  6. Quero ver todos! Principalmente Os Famosos e os Duendes da Morte, adoro quando a produção nacional consegue ser singular assim. Outro que aguardo muito é Coco antes de Chanel, a Audrey me encanta sempre. E espero muito que Abraços Partidos contenha, além do talento do Almodóvar, uma atuação da Penélope Cruz que me agrade, desde Vicky Cristina que estou ansioso pra ter outra amostra de ela realmente saiu da minha lista de atrizes que eu não gosto xD


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