amor, sublime amor [1961]

westsidestory

Com uma dose de saudosismo, com outra de compreensão, digo que não se fazem musicais como os de antigamente. Em dois sentidos. O primeiro situa-se na qualidade: os melhores musicais ficaram no tempo, há décadas atrás, quando o gênero surgiu no pós-guerra – afinal, há gênero mais divertido e ilusório? – e culminou no sucesso nos anos 50 e 60. O que não significa uma escassez de bons exemplares após essa época de ouro; acreditar no contrário seria descartar obras-primas como Hair [1979] e Moulin Rouge! [2001]. Porém, a concepção, o andamento, o ritmo, as histórias, a própria maneira de narrar através de danças e canções mudaram; natural, já que o homem, a indústria do cinema e o público também seguiram pelo caminho esperado de transformação. Mas com isso, um certo charme está irrecuperável, uma linguagem, um diferencial que apenas antigos tesouros oferecem.

Amor, Sublime Amor é um exemplo do que se perdeu. Nada mais se comunica com o espectador que as canções e danças, até a câmera parece inibida e prefere não sobressair em diversos momentos, como se o movimento do filme viesse de seu conteúdo, e nada mais. Quando Robert Wise – em co-direção com Jerome Robbins, responsável pelas coreografias do filme – rompe com o plano estático que capta os movimentos e vozes dos atores [ou dubladores, enfim], é preciso em informar e contextualizar a narração, revelando a ambientação realista da periferia nova iorquina. E assim o filme inicia, com tomadas aéreas que percorrem a cidade até chegar ao cenário da história, onde a rivalidade entre gangues determina o comportamento dos jovens.

É através da guerra entre as gangues Jets e Shanks que toda a história se desencadeia, uma vez que todos os personagens estão direta ou indiretamente relacionados a elas. A busca pelo domínio do território é acirrada, o antagonismo é claro desde o início – na melhor sequência musical que o gênero já compôs – e apesar de amenizada pelos aspectos musicais, a violência fica na  sugestão, mas a noção da verdadeira realidade que cercam esse disputa é perceptível. Nesse sentido, ao compor uma das gangues por porto-riquenhos, a canção “America”, mesmo em tom de diversão, mas clara e, de certa forma, atual, levanta a relação de imigrantes com os EUA e questiona a visão mitificada de alguns sobre o país.

No meio de todo esse quadro, surge um amor que não deveria existir. É quando a inspiração em Romeu e Julieta fica evidente. Quando também o filme passa a exigir do público o mesmo grau de romantismo do casal protagonista. Pois, para acompanhar o romance entre Tony e Maria, é preciso acreditar em amor à primeira vista, em declarações de sentimentos intensos imediatamente no primeiro encontro, num desejo por matrimônio após um dia de relacionamento. Amor, Sublime Amor requer do espectador a crença em algo que parece não existir – ou está extinto, talvez; uma história de amor que também parece perdida no tempo, de uma pureza e ingenuidade que remete a uma inocência que ficou para trás, a qual o público precisa resgatar, ele precisa acreditar nos mesmos sentimentos de Tony e Maria para adentrar nessa história. Um amor num grau inimaginável pela rapidez na qual se constituiu. Um romance clássico, que as dificuldades para concretizá-lo levam o romantismo às últimas consequências.

O maior trunfo do filme, porém, está no espetáculo musical que proporciona ao público. Não há a menor pressa em explorar os momentos musicais, é valorizada cada coreografia e canção com a passividade com que são apresentadas, sempre explorando o espaço e o sincronismo dos dançarinos em coreografias inspiradas. Como o espectador no teatro se sentiria preso na poltrona, não é possível interromper o vídeo em tais passagens, pois a sensação é a mesma, soa como uma apresentação real, já que a força e beleza de cada movimento rompe facilmente a tela. Apesar das coreografias serem os maiores atrativos, as músicas são valorizadas pelas vozes que as entoam e até sequências de cantorias mais lentas contribuem para o filme, que tem suas mais de duas horas amenizadas pelo ótimo ritmo alcançado com esse balanço.

Ganhador de 10 Oscars, incluindo melhor filme e diretor [a primeira vez que dois diretores ganharam o prêmio, fato que só viria a se repetir em 2008 com a vitória dos Irmãos Coen], Amor, Sublime Amor evoca o contraponto entre o purismo e a violência de uma juventude passada, através de um gênero que compõe a realidade de outro maneira – por mais real que seja, nunca será real. Aqui, esse fascínio é claro. E o próprio musical, como gênero, enaltecido.

nota_9,5+ informações | imdb
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  1. Realmente um filme que marca época, tanto pelos inúmeros e merecidos oscares, quanto pela música fabulosa.
    Uma verdadeira obra de arte que apenas melhora com o tempo, e rêve-la diversas vezes nunca se torna cansativo.
    No 1º parágrafo, quando cita Hair e Moulin Rouge, você se esqueçeu, eu não gosta de Chicago (na minha opnião, uma dos melhores atuais.) eu sei que muita gente não gosta, e vê diversas falhas no roteiro, mas sem dúvida Chicago foi o pontapé inicial à carreira de muitos filmes musicais produzidos de lá para cá.
    /)

  2. Esse é um daqueles musicais que ainda não vi mas tenho grande vontade. Na verdade já vi muita gente falando mal, mas provavelmente é porque não admiram o gênero em questão – o que não é meu caso.

  3. Ai, adoro estórias de amor **

    Já te disse que morro de vontade de ver esse filme. E que adoro esse frame xD
    Só espero que não seja um desses filmes superestimados, tipo E O Vento Levou…

    Mas temo que terei que assistir quando tiver bem de espírito. Ver uma estória de amor estando na merda não é legal ehehe

    No mais, excelente text, chuchu =***

  4. Não sou um grande conhecedor de musicais, mas esse é um que desde muito tempo vem povoando minha mente, desde quando não sabia nada de cinema e não sabia o nome dele, suas poucas imagens que vi já me fascinaram. E até hoje quando vejo algo dele, penso: putz, tenho que ver esse filme. E agora, sem dúvidas, sei que tenho que vê-lo mesmo, assim como tenho que ver outros grandes musicais, mas esse é um que merece certa prioridade. Verei, verei, e quase com certeza, adorarei.

  5. Gostei muito dele. Acho a energia maravilhosa e tudo muito bem orquestrado. Porém, algo nele não bate. Não sei exatamente se é o rumo que a história toma mais para o final, mas por pouco ele não é uma obra obrigatória. Ao menos para mim.

    Nota 8.5


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