o clube do filme

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Imagine você, ainda jovem, com seus 16 anos e apenas tendo que levar os estudos, sem precisar se preocupar com trabalho. Seu pai não está satisfeito com o emprego atual, não há fartura de dinheiro, mas consegue manter a situação da casa estável, inclusive sua mesada continua de pé. O melhor, porém, é ter um outro integrante nessa relação, o cinema. Para sua felicidade, seu pai é cinéfilo, e dos bons. Além de um grande acervo de filmes, ele fará questão de iniciar cada sessão particular contextualizando a obra, dando informações curiosas e detalhes que não devem passar desapercebidos. Porém, para Jesse Gilmour o cinema é uma obrigação, pois seu pai, David, permite que saia da escola somente com a condição de assistir três filmes por semana. Ele, claro, aceita.

E por isso o primeiro pensamento que me veio à cabeça ao fim de O Clube do Filme foi “Eu queria ter um pai como o David”. Ou melhor, foi o momento em que o desejo me ocorreu pela última vez, já que em diversas passagens do livro não consegui pensar de outro modo. Ainda que eu tenha um pai aqui e tudo o mais.

Mas era inevitável não me imaginar como seria bom estar na posição de Jesse. Ainda que durante meus tempos de primário e ensino fundamental a vontade de parar de estudar e reclamar todas vezes de fazer o dever de casa e querer adiantar o tempo para me ver longe da escola fossem em mim constantes – ou em qualquer criança que encontra mais diversão na rua que num livro -, não tomaria, jamais!, uma atitude como a de Jesse. Pelo simples motivo de imaginar como seria minha vida e minha conta bancária 20 anos após jogar tudo para o alto.  E se por um lado, o alento de David ao propor ao filho sua saída da escola é tamanho e surpreendente, é de se admirar ainda mais a coragem de Jesse em satisfazer seu desejo juvenil.

Seria bom estar na posição de Jesse, mas sem tomar atitudes como a dele. Vejo-o como um jovem típico e um exemplo claro de um adolescente que viveu um apanhado de coisas que podem ser “justificadas” como natural em sua idade – as paixões intensas e que parecem incuráveis quando o relacionamento chega ao fim, bebedeiras, banda e por aí vai. Parece que David foi um jovem como Jesse e vem daí sua compreensão para com as atitudes do filho – com limite, claro. David nunca deixou de compreendê-lo, mas também não descartou usar repreensão – poucas vezes utilizada, é verdade. São dois bons amigos, mas o papel de cada um na relação sempre ficou definido: um nunca deixou de ser pai e trazer consigo suas responsabilidades e experiência e o outro, na posição de filho, não deixou de desobedecer, como também de obedecer, e reconhecer a maturidade de um homem que conhece muito mais da vida – e das mulheres – que ele.

A maneira como o autor compartilha seus momentos com Jesse torna o leitor muito próximo dos acontecimentos; é um relato sincero de um pai que não deixa de reforçar suas incertezas e preocupações quanto as atitudes que permitiu a seu filho, o qual, por sua vez, parece demasiado inconsequente e imaturo. Mas tudo soa pautado por uma franqueza capaz de sustentar a narração, uma vez que o clube do filme do título ganha espaço entre uma página e outra.

De qualquer forma, o cinema está lá. O livro não pretende aumentar o conhecimento do leitor acerca do assunto, a maior parte das informações que o autor oferece não é novidade, mas toda vez que iniciava a leitura era como começar um papo sobre filmes dos mais agradáveis. David compartilha suas impressões com muita paixão, salienta muitas vezes pequenos detalhes ou cenas ou diálogos que adoramos e nos conquistam mais que outros, mas não sabemos explicar por quê. Em diversos momentos, foi como me deparar com alguém de sensações muito próximas às minhas quando em contato com certos longas – como O Iluminado e Os Incompreendidos – e ler minhas impressões exatas no papel. Ou ainda que não – Jackie Brown e Cantando na Chuva, por exemplo -, a conversa continuava agradável e a vontade de encerrá-la era somente para conferir os tantos filmes que David cita, com uma empolgação que desperta curiosidade imediata.

Não me restaram dúvidas que o cinema teve um papel fundamental para a decisão de Jesse no fim do livro. Talvez o clube do filme não deu sensação plena de dever cumprido para David, mas foi válido e decisivo, para a educação do filho e para a relação dos dois. E rendeu um livro que desperta o prazer de uma boa leitura e consegue, facilmente, reafirmar o amor do leitor pelo cinema.

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  1. Já havia tempos que eu namorava com esse livro toda vez que vou a uma livraria. Mas não tinha plena certeza que seria algo que valesse a pena conferir. Depois desse texto escrito de forma excelente, vejo que vai ser preciso eu conferir. Porque misturar literatura e cinema, duas coisas que sou apaixonado, deve funcionar muito bem!

    Excelente texto Jeff!

  2. Eu tenho uma vontadinha de ler este livro. O que mais me deixa aliviado é saber que ele não propõe uma aula de cinema. Vou ver se compro, mas agora estou relendo Vida Interrompida: Memórias de Um Anjo Assassinado (que deu origem à The Lovely Bones). Inclusive, LEIA!!!

    []’s!

  3. Estava na livraria essa semana e encontrei esse “Clube do Filme”. Até que fiquei curioso para saber do que se tratava e certamente seus comentários ajudaram nesse sentido.

  4. Ainda estou meio cético com o esse livro, e está história continua não me empolgando, mas to curioso pra ler, até pela possibilidade de me surpreender positivamente, parece que algumas coisas irão me incomodar, mas adorarei descubrir que estava errado. Veremos, vou ver se o encontro.

  5. Robson, obrigado! Desde que vi o anúncio do livro num ônibus fiquei com muita vontade de ler. Mas aí to duro e esperei alguém me emprestar. xD Pelo visto, você tem tudo pra gostar. []s!

    Kauzito, hahaha, ok, depois dessa intimação eu tentarei ler. []s!

    Vinícius, o bom é que ele tá bem baratinho. Vale a compra ou no mínimo uma lida. []s!

    Matt, você só saberá lendo. E eu recomendo com muita vontade. Eu acho que tu irá gostar, mesmo. Mas termine de ler a biografia da Judy Garland primeiro. haha []s!

  6. Meu chefe chorou ao falar do livro no sermão da montanha que ele nos dá toda semana… todo mundo ficou sem graça sem saber o que fazer, mas serviu ao menos pra aguçar a vontade de ler…
    Acho o máximo formas alternativas de educar, mesmo.[pedagogueti mode on]

    no mais Zé, leia Leite Derramado!

  7. Estou muito ansioso para ler “O Clube do Filme”. Acho que a melhor saída será mesmo comprar (como você salientou, o preço é bem atrativo).
    Abraços!

  8. Também gostei deste livro! Os comentários cinematográficos possuem textura e os paralelos traçados com a vida deles são construídos com muita beleza. E é um filme sobre pais e filhos, e o relcionamento complicado que existe entre os seres em vezes muito comuns e outrora muito estranhos.

    Achei uma leve, divertida e densa leitura.

  9. Jurava que nunca tinha visto este livro! Fiquei com uma tremenda vontade de comprá-lo agora – quanto custa aproximadamente???

  10. Dari, haha, já comentamos sobre isso. xD E já disse que lerei também. xD Beijos!

    Pedro Henrique, acredito que O Clube do Filme possa alcançar públicos que não se restringem a esses grupos, mas é claro que para eles a experiência será bem mais agradável. []s!

    Marcelle, e é sim. Leia quando puder. E obrigado pela visita. []s!

    Weiner, eu queria ler, mas não queria comprar. xD Ainda bem que me emprestaram. []s!

    Daniel, muito obrigado! Fiquei surpreso e feliz pela lembrança. []s!

    Wally, concordo e concordo. Tive a mesma impressão. []s!

    Alex, não passa de R$ 19,90. []s!


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