os filmes de noé – sozinho contra todos [1998]

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Assistir aos dois longas-metragens de Gaspar Noé é das melhores experiências cinematográficas que alguém pode ter. Tal afirmação, além de taxativa, soa contraditória se levar em conta a crueza, pessimismo, hostilidade, realidade com que o diretor capta os acontecimentos de seus personagens num cenário que não apenas reflete quem o habita – e vice e versa -, mas integrante fundamental do universo subversivo que Noé, também como roteirista, compõe. Esqueça o romantismo francês, a Paris dos apaixonados, a juventude tomada pelo desejo de viver e liberdade para se aventurar pelas movimentadas ruas parisienses. A óptica de Noé é mais cruel, menos poética e o público, uma vez disposto a adentrar neste ambiente que beira a repulsa em diversas passagens, será interrogado à medida que se afunda em sua perspectiva.

Sozinho Contra Todos, como o próprio filme anuncia, é  “o drama de um ex-açougueiro lutando para sobreviver nas entranhas do seu país”. O estado de tal personagem [Philippe Nahon] –  seu nome não é informado – é fruto da situação que o país vivencia; o desemprego, a falta de oportunidades e a crise que o atinge torna o ambiente tão soturno quanto todos aqueles que o integra. A direção de Gaspar Noé emprega uma câmera sempre estática [as duas únicas tomadas em movimento causam até um estranhamento] que divide os atores com o cenário em seus enquadramentos.  Os extensos muros das ruas de Paris pelas quais o Açougueiro caminha são culminantes ao trazer o isolamento e o peso que o ambiente tem sobre sua trajetória, são vias completamente desertas, sem nenhum tráfego ou som ambiente – nem mesmo a câmera se faz perceptível e nem trilha sonora é utilizada. Não há mais nada para ser visto além do homem e o seu meio.

O silêncio só é inexistente pois é compartilhado, de forma imediata e caótica mediante a situação que vivencia, todo e qualquer pensamento do protagonista, opção ainda mais interessante se levarmos em conta sua natureza introspectiva e taciturna. Na prática, o Açougueiro é um personagem facilmente detestável por seu comportamento, mas é através dele que Noé quer questionar sobre moral e justiça, duas palavras que em letras garrafais rompem as imagens na abertura do filme. Porém, são esses pensamentos e a maneira como se apresenta ao público no início da narração – numa edição precisa para a linguagem do filme – que deixa o público tão próximo do personagem, não a ponto de transformá-lo numa figura simpática e atraente – ele de fato está longe de ser -, mas ao menos fazê-lo compreendido, de nos fazer substituir a aversão por pena.

Pois o Açougueiro é o exemplo do fracasso, resultado de uma sociedade falida e depois acuado e ignorado por ela. Por isso, se seu desfecho por um lado é um alívio, um conforto, é, por outro, o momento de Noé nos questionar de forma mais direta sobre o que propunha desde o início. Após uma visão de todos os fatos apresentados e vividos concomitantemente por nós, talvez seja esse também o fim desejado pelo público – ainda que isso atinja sua moral.

nota_9,5

Próximo filme: Irreversível

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  1. Uma pedrada pessimista, Jeff. Gosto do filme, mesmo com o Noé ameaçando dar ritmo a trama e parando na cena seguinte umas duzentas vezes. Espero ansiosamente por “Enter the Void”. Espero que passe no Festival do Rio.

  2. Bom, vou tentar não me alongar. Primeira, e mais forte, impressão concreta que tive do filme, é que ele é reflexão pura. E isso eu ainda continuo achando, se vê-lo mais uma vez, vai me fazer pensar, se ver duas, também fará e assim suscessivamente, é um filme que parece que não irá envelhecer e que coloca tantas coisas em questão que que você tem a impressão de não ter conseguido lidar um décimo disso. Achei muita acertada a escolha do Noé de fazer o filme todo narrado, embora isso já seja um lugar comum quando se deseja que o espectador não se identifique com o personagem, no caso desse filme era a única escolha, que evitava também o julgamento. Poucas vezes um filme me deu a oportunidade de praticar um distanciamento crítico tão grande. A decisão dele de quebrar a quarta parede repetidamente com aquelas intervenções deveria ter me incomodado, mas curiosamente eu acabei achando que funcionou muito bem, e assim foi o filme todo, minha impressão sobre ele só ia melhorando a cada minuto passado, uma das evoluções mais consistentes que já vi no cinema.

    Pra fechar, devo louvores ao Noé até descobrir como ele conseguiu fazer com que um filme que além de narrado (quase) completamente, tem 99% de câmeras estáticas, uma fotografia crua e ainda não possui trilha sonora, não ficasse monótono ou cansativo, muito pelo contrário, tornando uma obra extremamente instigante e que prende sua atenção até o último segundo. Talvez seja o roteiro, mas tem mais, tem mais, é um filme que com certeza eu verei novamente.

    [acabei me alongando =X]

  3. Pingback: os filmes de noé – irreversível [2002] «

  4. Meu longa preferido de Noé. Adoro o cinema “feel bad”, que consegue chocar e encantar o espectador. Como disse Chan-Wook Park (outro cineasta “soco no estômago”): “Quem quer se sentir bem, não vá a um cinema. Procure um spa.”


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