tempos de paz [2009]

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Em Tempos de Paz, Daniel Filho quer ser levado a sério. Paradoxalmente, isso pode ser motivo de risada, o que o diretor vem com ímpeto tentando causar no público com seus últimos trabalhos para o cinema após longos anos dedicados aos programas televisivos. Mesmo desagradando a muitos, os números não negam a carreira bem-sucedida que vem construindo no cinema brasileiro. Mas ao classificá-la como “bem-sucedida”, restrinjo minha atenção apenas à arrecadação de capital e ao grande público que seus longas garantem, pois falar do cinema de Daniel Filho é falar, sobretudo, de mercado, de produtos altamente rentáveis. Ou Se Eu Fosse Você ocasionará numa trilogia porque seu realizador tem muito de relevante para dizer ao espectador brasileiro? O que importa é que vende e o povo consome – a ponto de estabelecer recordes.

[E eu não condeno sua maneira de lidar com o cinema. Todo filme é produto, seja ele qual for. Adquire quem quer, gosta quem quer também. Só acho lamentável a maior atenção dada pelo público ao cinema nacional serem justamente a filmes como os seus. Mas essa é uma divagação muito particular.]

Mas justamente aqui, Daniel Filho obtém um resultado positivo, ainda que isso não venha diretamente de sua mão como diretor. Tempos de Paz é uma produção de porte, possui um grande cenário e o cuidado de, através da direção de arte e figurino, contextualizar a história no tempo narrativo, 1945, ano em que o poderio nazista se ruía – fato que os créditos iniciais evidenciam através de imagens reais – e o Brasil, ainda sob o comando de Vargas, era um porto de desembarque para centenas de imigrantes sobreviventes da Segunda Guerra. O polonês Clausewitz [Dan Stulbach] é um dos que tentarão uma nova vida em solo brasileiro, mas isso será possível mediante somente a aprovação de Segismundo [Tony Ramos], chefe da imigração da Alfândega, que não pretende autorizar sua permanência.

A partir disso, nasce um embate entre os dois personagens através de uma série de diálogos que dominam a maior parte da produção. E desta forma, não precisava os créditos iniciais informarem que o longa é baseado numa peça – Novas Diretrizes para Tempos de Paz, de Bosco Brasil – para ser percebida uma adaptação, visto o forte teor teatral contido em Tempos de Paz. É quase possível ver os dois atores principais atuando sobre um tablado com uma plateia disposta em sua frente; inclusive a disposição dos objetos na sala onde acontece os diálogos implica teatralidade [ainda que o visual como um todo seja eficiente]: as estantes com centenas de documentos criam uma espécie de background – como o ciclorama no palco italiano -, realçado inclusive pela movimentação dos atores em cena; a mesa, reafirmando o espaço e o papel dos dois personagens, é rodeado por grandes objetos cobertos e imensos caixotes numa sala que não parece delimitada por quatro paredes – o que novamente remete à estrutura de teatro.

Daniel Filho, por diversos momentos, tende a fugir da sucessão de planos e contra-planos esperada num texto como o de Tempos de Paz, diferenciando os enquadramentos e os movimentos de câmera e o uso da trilha sonora de Egberto Gismonti, que marca presença sempre quando inserida. Mas não há o que amenize o textocentrismo intrínseco no filme, que só não o prejudica pela qualidade do material original e pelo trabalho irretocável dos atores principais.

Assistir ao embate entre os dois personagens, ainda que a teatralidade predomine, é deparar-se com um duelo intenso e, à primeira vista, desonesto, já que apenas Segismundo parece munido de armas – neste caso, o poder, a autoridade, a frieza -, ao passo que, para Clausewitz, resta apenas seu discurso num português arrastado. Porém, esse quadro inicial sofre modificações à medida que os personagens revelam mais de si mesmo, e é interessante notar que o progresso contínuo do diálogo ocorre justamente quando as memórias dos dois homens são expostas não apenas para mostrarem-se armados e pela urgência da resolução do problema, mas por uma necessidade de se despojarem de suas verdades. Com a interpretação de Tony Ramos e Dan Stulbach, o texto ganha uma dimensão maior e visceral, é o sustento do filme – e o que faz aceitar o teatro de Tempos de Paz.

O roteiro, com base nesses diálogos, ainda abre espaço para questões pertinentes, as quais são apenas levantadas com naturalidade em meio às conversas, como a importância da arte num país em período de guerra e também, mesmo em pequeno grau, é um breve apanhado do Brasil, sobretudo do Rio de Janeiro, ao fim do conflito mundial e  durante o governo de Vargas e sua repressão. Contudo, a narrativa é gravemente prejudica com a presença do personagem de Daniel Filho, uma clara tentativa de encorpar a história e romper com as longas cenas entre Sugismundo e Clausewitz – e arrisco-me a dizer, pois não assisti à peça, que o personagem não existe no material original. Sua trama é deduzida desde o início do filme e consegue romper qualquer sutileza numa cena grotesca, além de um flashback que perde a força justamente pela personificação deste personagem.

No fim, Tempos de Paz revela-se como uma bonita homenagem para os muitos artistas que a Segunda Guerra exportou para o nosso país. A arte que produziam modificou vidas, capacidade tamanha que o filme faz questão de relembrar. Eram eles, mesmo que não sós, as novas diretrizes para os tempos de paz. Da nossa parte, fica somente um agradecimento, meio contido, meio triste, pelo legado nos deixado até hoje.

nota_7,5
+ informações | site oficial | imdb adorocinema
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  1. Cansei de ver o trailer deste filme na TV. O dan Stulback gritando “não, eu sou da polônia” me encheu o saco – que comecei a pensar o quanto o cinema brasileiro anda enfadonho. Outro que eu acho bem mais ou menos é o Tony Ramos. Mas a nota é alta (ou relativamente alta).
    Mas, claro: o roteiro é bonito e (quem sabe?) o filme mereça mesmo ser conferido.
    Abs! :-)

  2. Sabes muito bem que não gosto de comentar sobre o que não vi.
    Só digo uma coisa (e não é relacionada com o post): viu como as coisas podem dá certo para você? =]

  3. Eu adorei o filme… Aonde você viu? Fui na pre estreia do RJ e me emocionei juntamente com quase todo mundo que estava lá… A interpretação do Stulbach é algo fora do comum… Realmente uma homenagem ao teatro, palmas ao Daniel Filho…

  4. O diretor não tem um retrospecto muito favorável mesmo, mas pelas prévias até que esse “Tempos de Paz” deixou uma boa impressão – que espero que se confirme quando ver filme.

  5. Gostei muito do texto. Agora vamos ao filme, a coisa mais curiosa desse filme é também a mais interessante, um dos maiores picaretas do nosso cinema fez algo minimamente decente? Isso realmente merece ser conferido, confesso que to até um pouco ansioso pra ver, não pagarei pra vê-lo, provavelmente, mas eventualmente verei. Pelo seu texto, o responsável maior pela distinção desse filme foi o roteiro, até por que com grandes atores o Daniel Filho já trabalhou várias vezes e nem por isso conseguiu bons resultados. É como um professor meu costuma dizer, com um roteiro bom, talvez você faça um filme ruim, mas com um roteiro ruim, você com certeza fará um filme ruim xD talvez seja o caso do Daniel Filho, com roteiros melhores talvez ele faça longas que nos envergonhe menos por serem como são e ainda assim serem as maiores bilheterias nacionais.

  6. Eu acho o trailer completamente estilo novela. Mas pelo oq eu entendi, o filme é uma homenagem ao teatro, sobretudo. Vou ver… Mas confesso que já me irritei em ver Dan fazendo sotaque de polonês ou seja lá oq for hahahahahaha

    Abs! E eu voltei pro Twitter =D

  7. Sabe que eu fiquei realmente curioso em ver esse filme? Não sou grande fã de novelas, minha época noveleira ficou no meio da década de 90, mas gosto demais do trabalho de Tony Ramos: ele é um baita ator, na minha opinião. Quando passar por aqui – se é que vai passar – eu verei, senão vejo em São Paulo. Grande abraço!

  8. Na minha opinião um filme excelente, roteiro bem direto e não cansativo. trata de uma época critica na historia do brasil e do mundo. o filme nao deixa de ser uma homenagem aos que aqui deportaram, e ao teatro em si. Tony Ramos como sempre avassalador, mas Dan Stubach foi primordial na interpretação do monólogo de Sigismundo; incrivel, deu teor e personalidade no tocante a liberdade, algo buscado pelos comunistas e qualquer outra frente de esquerda e que era perseguida na época.


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