à deriva [2009]

post_aderiva

Dentre os novos nomes que surgiram no cinema brasileiro nesta década, Heitor Dahlia talvez seja o que mais chame atenção. Seus dois primeiros trabalhos como diretor e roteirista, Nina [2004] e O Cheiro do Ralo [2007], foram sucesso de crítica e público e vencedores de prêmios pelo país e, sobretudo, revelaram um artista de cunho autoral, um estilo de direção sempre a favor da originalidade de suas histórias, até então, focadas nos instintos e perturbações de um único personagem – voltado para seu mundo particular, um casulo que só precisava ser rompido por exigência inadiável do meio externo e das pessoas nele presentes.

Deste modo, À Deriva já se revela como um filme diferente na curta carreira de seu realizador. De imediato, os dois corpos à deriva no mar na cena inicial do longa, ao som da música de Antonio Pinto e da câmera de Dahlia que integra o espectador à mesma sensação, indica uma história pautada principalmente pela relação desses personagens [pai e filha] num ambiente vasto e natural, o qual a fotografia de Ricardo Della Rosa realça com cores vibrantes e forte contraste [mais um contraponto com os longas anteriores de Dahlia, em que a escuridão e cores desbotadas eram dominantes] em composições que valorizam a beleza que a própria locação tem a oferecer.

Nesta ambientação, as férias de Filipa e sua família serão marcadas por conflitos, descobertas pessoais e revelações familiares determinantes para suas vidas, mas tudo vem à tona gradativamente, até o último momento. A história se desenvolve baseada em dois hemisférios: de um lado, adolescentes vivem uma fase de descoberta, em que o relacionamento é banalizado e os hormônios ditam as regras, um período de auto-afirmação de maturidade anulada por atitudes infantis; do outro, o casamento dos adultos fragilizado pela infidelidade. Filipa se enquadra no primeiro grupo [a escolha da estreante Laura Neiva funciona não apenas pelo talento da atriz, mas pelo  físico característico de uma jovem em crescimento],  mas acompanha de perto a traição do pai [o francês Vincent Cassel]. Como uma criança, a constatação do adultério é um choque e, vinda de seu pai, com o qual mantém uma relação mais próxima e afetiva, torna-se ainda mais inaceitável e ganha proporções diretas em suas atitudes.

De certo modo, o espectador é colocado na mesma posição de Filipa e a imaturidade com que observa a relação dos adultos passa a ser também do público. Se Dahlia narra com naturalidade como se apenas captasse a sucessão de acontecimentos que Filipa participa [e desta forma, o título do filme é claramente sugerido na tela], parecendo andar em círculos em alguns momentos, a história se revela nos últimos momentos.  [spoiler] A grande qualidade de À Deriva se encontra na manipulação da visão do espectador que Dahlia exerce, como roteirista e diretor, para desconstruí-la no terceiro ato do filme. Para Filipa, seu pai, por conta de seu envolvimento com outra mulher [Camilla Belle], é o principal causador das brigas constantes do casal e do sofrimento da mãe [Déborah Bloch], vista em diversas cenas de sofrimento, apresentada como vítima da traição. Inevitavelmente, é assim que o espectador também enxerga os acontecimentos. O que seria o clímax da narrativa, a revelação da infidelidade de Matias para Clarice através da foto que Filipa guardava [a qual, no fim, não tem a menor importância], acaba se transformando apenas numa passagem em que as personagens se colocam em seus verdadeiros papéis.

Após todas as descobertas, Filipa procura, em busca de sexo – algo que não desejara realizar com outros meninos -, o barman do restaurante [Cauã Reymond], visto anteriormente com a amante de Matias. A ingenuidade da menina é mais uma vez evidenciada com a atitude de vingar o pai, fato que também sugere um pedido de desculpas e um recomeço entre os dois, quando voltam-se a boiar no mar como na abertura do filme.  [/spoiler]

A interpretação pessoal apresentada no parágrafo anterior marca mais uma qualidade de À Deriva, ser suficientemente rico e sensível para alcançar o público de formas diversas. É  apenas diferente dos outros filmes de Heitor Dahlia, mas é mais  uma prova de que o cinema brasileiro ganhou um artista promissor.

nota_8,5+ informações | site oficial | imdb
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  1. É a quarta crítica que coloca o filme num patamar de excelência. Não espero nada que no mínimo genial vindo de Heitor e verei o filme assim que me recuperar bem de uma gripe.

    Abs!!!!!!

  2. Tenho que dar um jeito de ver os filmes anteriores dele, conhecia ele mais por Nina, não lembrava que o Cheiro do Ralo era dele também, mas sempre ouvi falar muito bem de ambos e certamente À Deriva foi o mais bem falado dos três, minha vontade de vê-lo vem crescendo mais e mais a cada comentário que leio sobre o filme. Acredito que não deva ter problemas de distribuição por aqui, e certamente eu verei. Ao que parece, nosso cinema está realmente se densenvolvendo, com muitos problemas é verdade, mas criativamente, desde a retomada, acredito que estamos progredindo muito bem.

  3. Como comentei recentemente no blog, considero o Heitor Dhalia uma das melhores revelações da década. Seus filmes tem um estilo muito próprio (gostei de ambos) e estou bem ansioso por esse “À Deriva”.

    • Pedro Tavares: Obrigado. Não sei por que, mas quando o filme terminou eu não achei que a gente tivesse tido a mesma impressão. xD haha Que venha. []s!

      Pedro Henrique: Se chegar, não perca a oportunidade. É mesmo ótimo. []s!

      Kau: Está sendo muito bem aceito mesmo. Só li críticas positivas no blog do pessoal. Assim que melhorar [que seja logo], vá ao cinema imediatamente. xD []s!

      Matheus: Nunca viu nada do Heitor Dahlia?! HAHA xD Não que fosse fazer tanta diferença, mas tente ver Nina e O Cheiro do Ralo antes de À Deriva, é interessante ver o quanto os filmes são destoantes. Se não der, veja depois. São filmes como os dele que fazem o nosso cinema progredir, como bem disse. []s!

      Anderson: hehe Obrigado, cara. Eu detesto muito, muito mesmo. xD []s!

      Vinícius P.: Sem dúvidas. Como eu disse no texto, foi uma das melhores coisas que apareceu no cinema brasileiro. Acredito que irá gostar desse também. []s!

      Vinicius Silva: A fotografia talvez foi o que mais me agradou no filme, provavelmente a melhor que vi este ano. A trilha também é muito boa [e não havia pensado nessa semelhança com o Glass… é, talvez], aquela início é uma beleza, com o instrumental no filme. []s e obrigado pela visita!

  4. Como disse no meu blog, adorei o filme. A fotografia, que até aacabei esquecendo de citar no meu texto e você contemplou muito bem, serve mesmo de contraponto em relação aos longas anteriores do diretor…

    o que mais me realçou, além da direção do heitor, foi a trilha sonora do Antonio Pinto. É bem parecida com um pouco do trabalho que o Phillip Glass faz em seus filmes, mas igualmente original na concepção das imagens e sons que vemos na tela…

    excelente filme, mais um na conta do Dhalia!

    abraços!

  5. Ainda não tive a oportunidade de ver À Deriva por diversos motivos: nos cinemas daqui esse tipo de filme não passa, as praias de Búzios não me trazem boas recordações e não apreciei “O Cheiro do Ralo”, filme anterior do diretor. Mas, de tanto que me falam bem sobre esse novo, terei de ver quando voltar a SP. Se faz necessário, até porque gosto do trabalho do Vincent Cassel. Um grande abraço de teu amigo deprimido (ver Twitter). HAHAHAHAHA! ^^

    http://3paragrafos.wordpress.com

  6. Achei o filme belíssimo fotograficamente e a câmera do Heitor é fantástica, incrível como ele conseguiu desorientar, pelo menos ao meu ver, ao invés de orientar com o uso de planos fechados, que e um tipo de plano que eu não gosto quando usado a exaustão, mas ele usou muito bem, ajudando a criar a tal sensação de estar à deriva. O uso da profundidade de campo também, foi muito interessante e acertada. O roteiro muito sutil, uma história simples, mas impactante e uma abordagem muito sensível. A trilha muito boa também, será que acha? E o destaque de atuação, pra mim, também foi a atriz que fez a Felipa. Enfim, gostei bem mais do que imaginei que fosse gostar, e fiquei muito feliz por descobrir que o nosso cinema tem um diretor tão talentoso como esse, deu vontade de ver de novo, mas vou correr pra conferir seus outros trabalhos.

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