estamira [2004]

estamira

“Antes de eu ‘nasci’ eu já sabia disso tudo. Antes de eu tá com carne e sangue, é claro. Eu sou a beira do mundo, eu sou a Estamira, eu sou a beira, eu tô lá, eu tô cá, eu tô em tudo quanto é lugar. E todos dependem de mim. Todos.”

O cinema brasileiro tem sido um cinema sobre brasileiros. Parece tomada de redundância e obviedade a afirmação anterior – e, de certa forma, está -, mas nos últimos anos a quantidade de produções, sobretudo documentais, sobre a vida de personalidades, artistas, celebridades e cabe aqui qualquer outro grupo – vide o futuro lançamento sobre a ex-garota de programa, hoje famosa e escritora, Bruna Surfistinha – tem sido grande, por vezes dominante. Nada mais natural. A questão é o que esses filmes têm a dizer e sua relevância para o próprio cinema nacional.

“A culpa é do hipócrita, mentiroso, esperto ao contrário, entendeu? Que joga pedra e esconde a mão.”

Entra então um inevitável julgamento de valores, nem tão subjetivo como à primeira vista pode parecer, da importância de Fulano para uma produção cinematográfica, a qual envolve dinheiro público e toda essa politicagem. Questionamentos como “quem fará” e “por que fará” também não devem ser ignorados. E, não menos importante, a qualidade, afinal, ainda estamos falando de cinema – seja lá qual trajetória apresentará, ser bom é fundamental.

“Eu sou perfeita. Eu sou perfeita. Meus filhos são ‘comum’. Eu sou perfeita, eu sou melhor do que Jesus e me orgulho por isso. Se quiser fazer comigo pior do que fez com o tal de Jesus, pode fazer. A morte é maravilhosa. A morte é dona de tudo. A morte é dona de tudo. Quem fez Deus foi os ‘homem’.”

Alguns optam por falar de brasileiros anônimos, desconhecidos e apenas mais um no meio da massa popular desse país de proporções continentais, mas sobre alguém que tenha algo a dizer, mesmo que esteja entre os restos do que a sociedade carioca consome. Marcos Prado, produtor de Ônibus 174 e Tropa de Elite, encontrou Estamira no lixão de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, enquanto realizava um ensaio fotográfico no local. O encontro foi casual e a ideia de realizar um longa-metragem – o primeiro de Prado -, repentina, quase intimidante: “A sua missão é a revelar a minha missão”, disse a senhora ao fotógrafo, e a partir daí, o diretor acompanhou a sua vida por três anos.

“Foi combinado alimentar o corpo com o suor do próprio rosto, não foi com sacrifício. Sacrifício é uma coisa, agora, trabalhar é outra coisa. Absoluto, absoluto, eu, Estamira, que vos digo ao mundo inteiro, a todos. Trabalhar, não sacrificar.”

A missão cumprida de Macos Prado é Estamira, um documentário que habita sanidade e loucura num ambiente degradante e, teoricamente, inabitável. Degradante também é o estado do homem; pensar que uns sobrevivem às custas do que já não serve mais para outros é inimaginável para nós  que fazemos parte deste segundo grupo. Aliás, como morador do Rio,  isto é, como contribuinte das milhares de toneladas despejadas diariamente no lixão de Gramacho, o fato chega a ser ainda chocante. As imagens  panorâmicas que o diretor compõe da paisagem nos traz um pouco desta realidade. Digo “um pouco” pois ainda é cinema e a realidade ainda é sugerida, somos nela inseridos através da câmera documental, mas ainda há uma tela que nos coloca na posição de espectador e contemplação. Entretanto, já é o suficiente para nos deteriorar, nós que preferimos participar desta realidade passivamente.

“Vocês não aprendem na escola, vocês copiam. Vocês aprendem é com as ocorrências. Eu tenho neto com 2 anos que já sabe disso, tem de 2 anos que não foi pra escola copiar hipocrisias e mentiras e ‘charlatagens’.”

Assim, por exemplo, nos poupamos do cheiro dominante da atmosfera desse lugar. Há uma cena em que ocorre uma forte ventania e a imagem ganha um filtro de poeira em meio a sacos plásticos que deslizam desconcertadamente pelo ar veloz. Enquanto os presentes na cena se protegem como é possível, para nós fica a ideia, o indício de um odor insuportável que as imagens em preto e branco não transmitem, mas que parece inalável somente pela sugestão imagética. Lá também, os homens disputam alimentam com urubus, os quais sobrevoam o céu em busca do resto que o resto da sociedade ignora, o mesmo que com avidez explora o novo monte de lixo que o caminhão recém-chegado deposita. Para garantia de sustento, alguns armam barracas, dessas de camping – provavelmente vindas de lá mesmo -, sobre um solo infectado, com poças de um líquido escuro que borbulham sem nenhum agente externo para catalisar a reação química. E assim o homem se integra ao seu meio de subsistência.

“Só comecei a revelar de verdade mesmo em 86, revelar de verdade mesmo porque era muito abuso, por isso é que eu tô revelando que o cometa está dentro da minha cabeça. Sabe o que é que significa a palavra cometa? Comandante. Comandante natural.”

Neste cenário está Estamira, que o documentário revela não ser apenas mais uma catadora de lixo como os outros. Estamira tem coisas a dizer à sociedade e sobre a sociedade, e a questiona, denuncia ou interroga. Seu outro alvo é Deus – e é extremamente fascinante sua reação quando é questionada sobre Ele. Seu discurso é marcado por uma dose de loucura – Estamira possui distúrbios mentais – e por outra dose de sanidade e relevância, por mais que soe contraditório. Mas talvez a própria Estamira seja uma figura dúbia, alimentada pelos resquícios de quem pretende alertar e subsistente da miséria mas com palavras pertinentes a vociferar, como os trechos que intercalam os parágrafos desse texto. Texto o qual pretende ser vago sobre a personagem principal do longa-metragem e apenas incitar o próximo a divagar sobre ela e sobre sua fonte de sobrevivência – e sobre a dependência de uma em relação a outra -, como a própria obra de Marcos Prado propõe. Mas se encerra, não sem antes, deixar as palavras da louca [ou sábia? ou louca?] Estamira.

“Onde já se viu uma coisa dessa? A pessoa não pode andar nem na rua que mora, nem trabalhar dentro de casa e nem em trabalho nenhum, em lugar nenhum. Que Deus é esse, que Jesus é esse que só fala em guerra? Quem já teve medo de dizer a verdade largou de morrer? Quem anda com Deus, noite e dia, largou de morrer? Quem fez o que ele mandou, largou de morrer? Largou de passar fome? Largou de miséria?”

nota_8+ informações | site oficial | imdb | adoro cinema
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  1. Jeff, simplesmente louvável o seu texto. Extremamente bem dirigido e escrito de forma muito analítica, adorei! Concordo em grau, gênero e numero com o que expôs e esse documentário nos lvea a diversas reflexões e de uma maneira ou de outra eles nos muda, no âmago. Ainda mais pra vocês, no Rio. Estamira reflete as loucuras da sociedade contemporânea e ela fala muito da verdade que não queremos exergar, ela é a verdade que não queremos ver.

  2. Não tenho o costume de ver documentários e tenho que corrigir isso. Esse mesmo, desde 2007 que eu ouço falar por meio de um colega meu meio fanático que chega quase a comparar a Estamira a Nietzsche hehe
    Mas assim, só de ter ouvido falar já tinha achado a história toda muito fascinante, seu texto foi um ultimato, instigou mais ainda minha vontade de conferir o documentário, coisa que farei o mais rápido possível e aí comentarei aqui de forma mais substancial ;)

  3. “Receio de remorso”? Confesso que vim aqui mais por curiosidade do título do blog ser o nome de uma música dos Móveis Coloniais de Acaju, banda que eu adoro!

    Mesmo assim, encontrei um blog muito legal de ler! Vou te adicionar lá nos links do meu e espero sua visita!

  4. Muito bom meus Parabéns vi esse documentário na escola e achei o vlog de vcs e amei obrigado por ter pessoal como vcs que esclarecê o que muitas pessoas nao sabem explicar!

  5. Vi, revi, e de tempos em tempos preciso rever esse doc., que a cada vez que é visto, me deixa uma impressão diferente do mundo e de mim mesma. À primeira vista, Estamira pode parecer apenas uma mulher perturbada por transtornos mentais, mas…e todas as coisas que ela diz, e que mesmo com pouca lógica, acabam encontrando ressonância dentro de nós? Aí tem coisa, e tem mesmo. Uma verdade que não queremos enxergar, coisas que temos medo de questionar, uma realidade fantasiosa, onde tudo que é feio fica devidamente escondido. A primeira vez que vi ”Estamira” eu ainda seguia a fé cristã, hoje, mais voltada ao agnosticismo, posso dizer que o documentário deixou uma nova marca em mim. Espero que um dia as palavras de Estamira façam total sentido, sem esse véu que ainda me impede de entendê-la com total clareza. Super recomendado.


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