apenas o fim [2008]

apenasofim

O grande chamariz de Apenas o Fim vem de seu realizador, ainda que o anonimato lhe ofuscasse até o Festival do Rio de 2008, quando recebeu o prêmio de Melhor Filme por Júri Popular, o que se repetiria posteriormente na Mostra de Cinema de São Paulo. Matheus Souza é estudante de cinema da PUC-RJ e tinha apenas 19 anos quando decidiu realizar este que é seu primeiro longa-metragem, feito através de recursos da própria faculdade e dos diversos meios de se conseguir capital. Gravado por completo em câmera digital, é mais um exemplo de cinema [brasileiro] de guerrilha.

A grosso modo, Apenas o Fim é uma mistura de Antes do Pôr-do-Sol, Kevin Smith e Woody Allen. A menina que decide terminar seu relacionamento repentinamente e fugir para um lugar desconhecido tem apenas uma hora para se despedir de seu futuro ex-namorado. O cenário é apenas a universidade, o casal não possui nome, sabemos apenas que se conhecem desde a infância, mas desconhecemos a duração do relacionamento; o que importa, então, para o espectador, o qual pode se sentir um voyer ao ser inserido numa situação, inicialmente, desconhecida, é testemunhar o que cada um dos personagens tem a nos contar no curto período, sobre o que viveram juntos e sobre a geração a qual pertencem.

Como se pode imaginar, é o roteiro, também de Matheus Souza, que sustenta o filme. Há uma turbinada de referências de muito que a geração atual vivenciou e vivencia, desde Os Cavaleiros do Zodíaco a Pokémon, passando por Britney Spears e Orkut; sobre cinema, alcança Bergman a Michael Bay. Matheus extrai daí um conjunto de tiradas  inesgotáveis e que funcionam na maior parte do tempo: como, por exemplo, situar Backstreet Boys como os The Beatles entre as famosas boy bands da década de 90. O resultado é um texto fácil, simples e  que alcança qualquer pessoa, a vivência do espectador irá, inevitavelmente, ganhar lugar na tela em diversos momentos.

Os personagens são desenhados de modo que tais comentários façam parte de suas particularidades e não somente se resumam à sede de um jovem autor  de dizer o que pensa sobre os ícones de sua adolescência.  Desta forma, o figurino e a direção de arte contribuem para realçar as características dos personagens: o lado nerd – e “estranho”, como dizem os outros personagens – do rapaz é realçado não somente pelos grandes óculos e blusa listrada, mas pelo quarto com bonecos, e sua cinefilia pelos DVDs de filmes espalhados pelo chão; já a menina, se passa naturalmente como uma jovem estudante universitária, sem maiores definições.

Se por um lado Apenas o Fim ganha um charme e se torna tão atraente por ser atual e referencial, por outro, pode cair no risco de se resumir somente a isso. O romance [e seu fim] estão lá, inquestionavelmente, mas por vezes soa em segundo plano, sufocado por piadas e diálogos sobre qualquer outra coisa, exceto sobre eles mesmo. Falta algo sólido, mais consistente, mais sentimental – e não estou falando de ser piegas -, o qual está lá, repito, mas amenizado. Se analisarmos as lembranças do casal [as cenas em preto e branco], por exemplo, entende-se que as conversas entre quatro paredes não passavam de recordações de suas preferências de juventude e perguntas bobas como “qual é a sua fruta preferida?”.

Com verba de 8 mil reais, limitações são inevitáveis, mas a direção  é favorável à proposta do filme. Trabalhando com dois ótimos atores, Erika Mader e Gregório Duvivier, Matheus faz o essencial conduzindo a câmera na mão enquanto o casal conversa caminhando pela universidade [e não remeter a Richard Linklater é inevitável], são planos-sequências longos, os quais o diretor faz o exercício de diferenciá-los vez ou outra, além dos plongées em preto e branco que cria uma estética própria para o longa.  Porém, nada disso tem a ver com o tom lúdico que, por algum motivo desconhecido, é atribuído a uma sequência perto do desfecho e que a destoa  negativamente de todo o material, da mesma forma que o tema principal da trilha sonora é nitidamente um instrumental rodado ao contrário que, também pelo uso excessivo, torna-se exaustivo.

É possível contar nos dedos quantos cineastas realizaram uma obra-prima em seu primeiro trabalho. Os mais jovens e ainda estudantes de cinema, é um número ainda menor – ou nulo. Matheus Souza, naturalmente, se enquadra no grupo maior de diretores, mas seu Apenas o Fim é um dos longas mais notáveis do cinema nacional deste ano e isso, sem equívocos, precisa ser reconhecido. Como amante de cinema e futuro graduando da área, confesso que me sentiria honrado se dirigisse um filme como esse em minha estreia.

nota_8+ informações | site oficial | imdb | cine players

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  1. Os atores são de-mais, e os óculos do avô dele também, o texto é ótimo, as outras participações foram muito engraçadas, o ambiente é perfeito, os tênis, a voz do Marcelo Camelo no final…
    achei tudo o máximo, de verdade!

  2. Até queria ver esse filme, mas depois de ler que tem essa blasfêmica comparação de Beatles com Backstreet Boys, eu desisti.

    Brincadeira, mas sério que ele foi infeliz nessa e perdeu pontos comigo. Mas tirando isso, ainda tenho muita vontade de ver o filme, pois além do diretor ser meu xará, ter a minha idade e também estudar cinema, eu também gostei bastante do trailer, da simplicidade da história e eu sempre gosto de ver filmes que conseguem se sustentar mais pelo roteiro do que qualquer outra coisa, pra mim todo cinema deveria ser assim, se eu fosse talentoso o suficiente só faria filmes assim.

    E eu odeio te elogiar e prometo fazer isso o menor número de vezes possível daqui pra frente, por que você nunca acredita em mim, mas o texto ficou ótimo, super fácil de ler, nem deu pra notar a quantidade de parágrafos. Parece que você gostou mesmo do filme, o 8 não mente, né? Agora é eu achar um lugar nessa metrópole que mais parece uma província onde esteja passando, afinal tenho que conferir o que meus colegas cariocas estão fazendo direito xD

  3. Realmente não tem como escolher entre Chico Buarque e Johnny Depp #FATÃO
    Eu amei o filme, a locação principalmente *-*

  4. Eu gostei muito do filme, de verdade.
    Obrigada Darinha por ter me feito ir ver o filme :)
    Aquela parte quase no final tbm achei meio sem noção.

  5. Algo que me irrita profundamente é que filmes nacionais de qualidade como esse não chegam por aqui. O que chega são coisas como “Se Eu Fosse Você 2” e outras produções com o ‘selo de qualidade’ Globo Filmes. Quero muito ver!

  6. Nossa, jurava que não sabia nada em relação da produção desse “Apenas o Fim”, que foi realizado por um estudante de cinema e que custou somente oito mil reais. Agora fiquei com uma GRANDE curiosidade em assistir, embora eu acredite que seja um filme que demorará muuuito tempo para ganhar distribuição em DVD. Muito bacana!

  7. Apenas o fim tedio o filme?
    O fim do fim de um filme que não é filme
    nao importa se gastou pouco ou se é feito pelos universitários?
    Tão pouco importa se ganhou premio.
    Tantos e tão belos filmes contaram de forma fílmica essa historia.
    Pura punhetagem de mocinhos viciados em games e outras besteiras

  8. Pingback: cinema 2009 | top cinema nacional «


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