filmefobia [2008]

filmefobia2

A única imagem verdadeira é a de um fóbico diante sua fobia. É por acreditar nesta afirmação que Jean-Claude, diretor de cinema, decide reunir em um longa-metragem o encontro de pessoas com seus maiores medos. Jean-Claude é vivido por Jean-Claude Bernardet, famoso crítico e teórico de cinema, também diretor e ator, num personagem nada distante de sua realidade, já que o nome e até mesmo sua doença, a Aids, ele empresta para o personagem. Somente nesta pequena observação, nota-se que cinema e realidade, ficção e documentário se misturam – e se confundem – em FilmeFobia.

Assistir ao novo filme de Kiko Goifman é um exercício de metalinguagem do início ao fim, que, apesar de seu realizador o intitulá-lo como seu “primeiro longa de ficção”, para o espectador fica uma experiência atípica, difícil de ser definida e até mesmo julgada de imediato. O cinema é desconstruído e os gêneros não estão delimitados, seja pela própria proposta ou pela direção que Goifman emprega: se registra a vida pessoal de Jean-Claude e suas reuniões com os outros realizadores do filme, faz isso com uma linguagem totalmente documental e entrega um registro do pensador de uma obra que, na realidade, não é sua. A questão é que se FilmeFobia tivesse sua direção assinada por Jean-Claude Bernardet tudo seria [um pouco] mais simples e teríamos um documentário como já nos é familiar. Mas Bernardet vive um diretor de cinema realizando o filme que Goifman idealizou. Não é confuso;  é interessante.

Então se o registro das cenas é ficcional, as mesmas também não seriam? Ou seja: quando é filmado o indivíduo diante o seu medo, vemos encenação ou realidade? Novamente, as duas vertentes oscilam e o espectador não sabe a qual das duas está assistindo. Nos primeiros momentos, tem-se a impressão que o medo exposto pelas pessoas é verdadeiro – o que, obviamente, torna a experiência bem mais desconfortante -, mas, posteriormente, aquele próprio ato é desmistificado ao vermos Jean-Claude instruindo como a pessoa [que agora já pode ser referida como ator] deve se comportar quando a filmagem começar ou ainda um integrante da equipe borrifando água no rosto de uma atriz a fim de parecer suor. Portanto, se tudo foi teatro, a frase que inicia o texto não foi comprovada e a sensação de sermos enganados nos faz enxergar o filme como uma bobagem completa.

Mas tudo poderia ter sido mera encenação desde o início e não saberíamos caso não nos fosse revelado – e talvez o público saísse mais satisfeito do cinema. A proposta de Goifman, porém, não me parece simplesmente confrontar a pessoa diante o seu medo, mas a partir disso jogar com a noção de verdade e mentira, criar um falso documentário dentro de um longa de ficção. O filme é  irrepreensível nesse ponto.

Há fóbicos reais no filme segundo o diretor. Não sabemos quais, mas alguns momentos, reais ou não, são realmente inquietantes, capazes de atingir o público ainda mais quando seu medo é apresentado [na cena dos ratos, confesso ter colocado os pés sobre a poltrona do cinema]. Destaco o momento em que Kiko Goifman se confronta com sua fobia de sangue, o qual parece o mais verdadeiro de todo longa. Em contrapartida, há cenas alegóricas demais, algo reforçado pela direção de arte de Chris Bierrenbach, que investe em maquinarias estilizadas, mas que por vezes beiram o exagero. Jean-Claude percorrendo um set escuro, repleto de sombras, numa espécie de cadeira de rodas motorizada remete diretamente a Jigsaw, serial killer da série Jogos Mortais, algo que a própria estrutura do filme já pode salientar.

Além desse lado um tanto over que FilmeFobia acaba por adquirir, não consigo encontrar outro adjetivo a não ser “ridículo” para classificar pênis de plásticos amarrados sobre carrinhos bate-bate que rodeavam a menina nua, deitada, com fobia de penetração [!] – mais constrangedor é vê-la chorando ao ser posta nessa situação. Outro ponto falho é justamente não justificar determinadas fobias. Medo de cobra e altura, por exemplo, não precisam de maiores explicações, são comuns e auto-explicativos, mas medo de botão de roupa [sim, botão de roupa] é algo que minha natureza não consegue entender. E desta forma, ver um ser humano se contorcer e gritar ao ser bombardeado por esses úteis e minúsculos e inofensivos objetos parece, no mínimo, bizarro. Entender então medo de ralo de banheiro, de cabelo, de celular e do já citado medo de penetração – esse ganha uma justificativa forçada – torna-se inviável, o que acaba prejudicando o resultado final ainda que o papel do espectador seja “contemplar” e não entendê-los.

Vencedor do último Festival de Brasília, levando os prêmios de Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Direção de Arte e Melhor Montagem [Vânia Debs], FilmeFobia precisa ser visto. A experiência de conferir um material diferente de tudo que o cinema brasileiro tem produzido atualmente e, mais que isso, assistir um filme incomum, que fala de si mesmo e de sua própria realização, é válida e muito maior que seus problemas. Foi uma das poucas vezes que participei de um público imóvel em sua poltrona mesmo quando os créditos finais chegavam ao fim.

nota | ???
mais informações | imdb, cineplayers, site oficial
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  1. É, não dá pra negar que parece, no mínimo, instigante. É uma proposta de subversão do cinema, ao que parece, uma tentiva de romper com os limites narrativos. Cineastas estão a todo tempo tentando fazer isso com o cinema experimental, não tenho nada contra a experimentação, mas acho que tentar inventar a roda é inútil e, pelo que parece, toda vez que alguém tenta fazer isso, automaticamente é aclamado por muitos pela “ousadia”. Não vejo validade maior em um filme que tenta a todo custo reiventar o cinema do que em um filme classicamente construído. É um exercício e isso pode expandir o cinema, algumas das vezes, mas acho inadequada a veneração de filmes só por esse fator. A experiência deve ser interessante, com certeza, resta saber se ao final isso lhe garante a impressão de ter visto um bom filme. Pelo jeito você nem teve a impressão de que viu um filme né? Não deu nem nota.

    • MATHEUS, a proposta é exatamente essa. Curioso você falar isso de filme experimental, porque o Goifman não classifica o seu filme como tal – eu nem acho que realmente seja. Ele é mesmo um longa de ficção, é vendido assim, e sua construção que o torna interessante. Das críticas que li por aí, há somente elogios, mas voltados em sua maioria para a questão do medo mesmo e menos para metalinguagem e tudo o mais. Cara, a proposta é válida, mas nem acho que será ovacionado sempre por onde passar não. Você é um que não deve gostar. hehe Não, baby, eu vi um filme mesmo. xD Só que ele é estranho e diferente de praticamente tudo que estou acostumado a ver, por isso faltou uma nota – que pouco diz, na verdade. Daria uns 7 portanto. []s!

      WALLY, é mesmo bizarro. hehe Mas veja, cara, veja sim, até porque é aquele tipo de filme que você quer saber o que os outros acharam, para conversar sobre e tal. Eu me encontro nessa situação. hehe []s!

      PEDRO, no Arteplex, ali em Botafogo. Ainda está em cartaz. Aproveite antes que saia. []s!

  2. Nossa, que…bizarro. Me interessou bastante. Mas me amendontrou também (botão????). E adorei sua “nota”. Talvez eu o veja…mas bem “talvez” mesmo.

    Ciao!

  3. O primeiro filme do diretor “33” se não me engano esse é o titulo, onde ele faz uma busca pelo paradeiro do próprio pai desconhecido, já demosntranva um diretor corajoso e criativo. Nesse novo filme, essas qualidades parecem se confirmar.

    Abraçoe te mais!!!

  4. Meu namorado tem fobia de botão de roupa, quando ele me contou eu achei engraçado e vivia provocando ele, colocando botões soltos na mão dele, até perceber que ele sentia um desconforto imenso e isso é nato, pois minha sogra relatou que desde bebê ele chorava quando ela o vestia com roupinhas com botões. Depois pesquisei na internet e percebi que outras pessoas tinham essa fobia, pode estar ligado à tripofobia (medo de buraquinhos, pesquisem na net que vcs vão ficar totalmente enojados, eu quase vomitei). É meio frustrante pra mim, pois ele é ele é super lindo e gostaria de vê-lo com camisas e não só com camisetas, ao menos ele não se imposta com os botões na minha roupa, Aliás o Steve Jobs tinha fobia por botões que se na realidade se chama chama: Koumpounophobia.
    Somos muito complexos, portanto não podemos menosprezar ninguém.


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