perdidos na noite [1969]

midnightcowboy

Se compararmos a cena inicial com os últimos minutos de Perdidos na Noite, nota-se entre elas uma diferença em todos os sentidos, uma  diferença no tom, que John Schlesinger salienta pela uso da trilha sonora, pela decupagem, pela atuação de Jon Voight. Caso não tenha visto o filme, não se preocupe que não informei nenhum spoiler. Pois a medida que a trajetória do personagem de Voight, Joe Buck, decorre na tela, ou seja, quanto mais se imerge no cenário urbano, a possibilidade de sucesso na cidade grande vai se esvaindo gradativamente.

Joe saiu do Texas, onde deveria se sentir estagnado como lavador de pratos numa lanchonete. Ao partir para “conhecer novos lugares”, como ele mesmo diz a um amigo texano, e tentar iniciar uma carreira de garoto de programa nos EUA, leva consigo apenas a imagem caricatural de cowboy e inúmeras lembranças de sua infância. Positivamente, o tratamento que o roteiro e a direção conferem às memórias dos personagens não as transformam em flashbacks convencionais; antes, por não revelá-las completamente e serem apresentadas numa edição corriqueira, seu passado mostra-se sempre curioso, já que possui um peso importante em suas atitudes no presente. Os devaneios dos personagens recebem o mesmo tratamento da edição, a qual se mostra um ponto positivo do filme. Uma sequência que salienta suas qualidades é a que Joe se encontra com O’Daniel: passado e presente se intercalam com o mesmo intervalo de tempo e o zoom gradativo empregado em cada cena cria uma unidade, em que cada instante passa a se dialogar com o outro, mas numa conturbação palpável. As cenas que a sucede, repleta de cortes abruptos, fotografia preta e branca, movimentos de câmeras ligeiros, continua a exprimir toda a confusão que o personagem se encontra.

Assim, Schlesinger consegue fazer de suas imagens o reflexo do estado de seus personagens: a cena no cinema – em que o som também desempenha um papel fundamental – e a sequência da festa, a mais destoante da narração – e não poderia ser diferente, já que é lá que Joe se abstém da sociedade comum e se relaciona com indivíduos semelhantes  a ele – são outros bons exemplos. Sem contar o apartamento cinzento e caótico onde mora com Ratso [Dustin Hoffman], um amigo manco que se mantém através de pequenos furtos e golpes, e um ambiente externo tão confuso quanto. Mas o que tornou Perdidos na Noite um clássico reside mais em sua temática que em sua estética – ainda que esta valorize aspectos importantes da história.

Apesar da figura do cowboy estar presente, ela é o oposto da imagem de homem bruto  e viril que os westerns americanos exibiam na época. Joe Buck sequer se afirma como tal, mas sua roupa e origem não permitem que os outros personagens o vejam de outra maneira. Mas o cowboy que Perdidos na Noite apresenta é solitário e frágil, perdido numa Nova York em pleno fim da década de 60, quando a cidade passava por fortes transformações sociais e econômicas. O teor realista gera um filme fruto de sua época, protagonizado por indivíduos críveis. O mito sede lugar para a realidade. E é surpreende, portanto, a Academia, em pleno ano de 1970, premiá-lo com o Oscar de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado [por Wald Salt, baseado no livro de James Leo Herlihy], além das indicações para Melhor Edição, Melhor Ator [Hoffman e Voight] e Melhor Atriz Coadjuvante [Sylvia Miles, numa participação curtíssima].

Se nos últimos anos Jon Voight parece desprovido de critérios para escolher seus trabalhos, visto que títulos como Segredos do Amor, Bratz e Transformers passaram a integrar sua filmografia, em Perdidos na Noite sua atuação vai de encontro às exigências do texto. Contrapondo os momentos otimistas com os instantes silenciosos em que sua expressão revela uma tristeza intrínseca num jovem perdido e solitário [a última cena é a prova máxima disso], Voight mostra que já foi um ator melhor sucedido, capaz de criar personagens interessantes. Indo contra a maré – e não sei o que isso pode desencadear -, afirmo que esta situa-se entre as menores atuações de Dustin Hoffman, decidido em empregar uma voz irritante que não significa nada além de uma particularidade dispensável do personagem. [Talvez me desagrade mais o personagem em si que a atuação do Hoffman.]

A tela preta interrompe  o trajeto melancólico de Joe Buck pela América e a  estagnação presente no personagem permanece também no espectador, o qual presenciou apenas uma pequena fração de um percurso ainda incompleto. O desejo que fica é saber o que a cidade ainda irá proporcionar ao Joe. Permanece também a certeza de qualidades evidentes num filme apenas satisfatório.

nota | 7
mais informações | adorocinema, imdb
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  1. Vários detalhes fazem de “Perdidos na Noite” um dos melhores filmes que já vi na vida. Primeiramente, o personagem Joe Buck é uma das “criações” mais fantásticas da história de Hollywood. Segundo, o John Voight encara o papel com total categoria (depois veio “Amargo Pesadelo” e eu virei fã dele). O Dustin Hoffman como o malandro Ratso também encontra o tom exato, menos perfeito que o Voight, mas tão convincente quanto. Sinceramente, acho um erro dizer que a composição dele é algo dispensável ao personagem, mas opiniões são opiniões. Fora estes detalhes, o filme trabalha com sonhos (que de fato todos nós temos) e da dificuldade em torná-los realidade num ambiente hostil.
    Ah, ainda tem um detalhe: me apaixonei pelo conjunto imeadiatamente, não precisei de revisões ou considerações acerca de seu sucesso (já que o filme ganhou Oscar).
    Resumindo: 9,5!
    Abraço!

  2. Jeff, jeff, jeff… quero muito ver esse filme, sempre ouvi falarem muito bem dele, olha, olha ein… acho que só está querendo ser polêmico haha
    Nem da atuação do Dustin você gostou O_O aliás, desgostou e muito pelo jeito.
    Tava olhando a filmografia do Jon Voight, ele até fez muita coisa boa, mas é tanta merda que ele fez também, que acabo tendo uma impressão mais ruim do que boa dele. Sou curiosissímo pra ver uma das suas boas performances. E pasmei, não sei se você sabe, mas descobri que o John Schlesinger dirigiu aquela bomba com a Madonna e o Rupert Everett (Sobrou pra Você), isso me faz acreditar que posso ter impressão semelhante a sua em relação ao filme, como pode um diretor ter dirigido um filme tão louvável, como todos dizem que esse é, e anos depois ter feito aquilo? não entendo. A não ser que tenha sido pelo mesmo motivo que acho q o Jon Voight faz tantas atrocidades: muita, muita necessidade de ganhar dinheiro.

  3. Como o senhor sabe, eu ainda não vi o filme. Tenho o DVD na prateleira depois de um jornalista ao qual antes mantinha contato por Orkut, mas até hoje não me empolguei o suficiente para tirar o disco do estojo e rodá-lo no aparelho.

  4. Oi Jeff!

    Bem, vi q vc respondeu a meu comentário no post “Este blog não morreu – não ainda”… Vc me confundiu com algum outro rapaz q tb se chama Lucas, pq eu não moro nos Estados Unidos, e nem tenho orkut… heuheuheuheuheuheu… Isso q dá ter nome comum heuheuheu… Tudo bem…

    Achei muuuuito legal vc ter escolhido Perdidos na Noite pro post. Acredito q esse filme seja um dos q melhor sobreviveram ao tempo. Incrível como NÃO cai no esquecimento. Muito pelo contrário, sempre rende boas leituras.

    Abraços! Fica na paz!

    • PEDRO HENRIQUE: Eu não conheço a fase boa do Voight, Pedro. Se não estou enganado, Perdidos na Noite foi o primeiro. E gostei, gostei muito dele. Se parasse de fazer coisa ruim atualmente seria bom… []s!

      PEDRO TAVARES: Nem tanto… []s!

      WEINER: Não estamos concordando muito ultimamente né? hehe Tirando a parte do Hoffman, eu concordo com você, tanto que apontei essas questões no texto. Mas aí que entra a subjetividade né? Todas essas qualidades não me causaram tanta admiração, emoção, enfim… []s!

      MATHEUS: Então o texto tá grande e você não comentou aqui né? hehe Tu sabe que eu sou fã do Hoffman, e de todos os filmes que vi dele, esse realmente não é dos melhores. Acho que nem se compara com sua atuação em The Graduate. Como disse, o personagem em si não me agradou muito [culpa da composição do Hoffman ou do roteiro?]. Esse foi o primeiro do diretor que vi e eu não o poria na posição de clássico, mas se o tempo quis assim, quem sou eu né? hehe Mas é um bom filme, cara, isso com certeza. []s!

      ALEX: Acho que pelo Hoffman, eu sempre tive muita vontade de ver esse filme. Assista e faça uma resenha para o Cine Resenhas! []s!

      LUCAS: Cara, onde eu me escondo? hehe Eu fiquei um tanto sem graça ao ler seu comentário e ver que troquei as pessoas. Mas é que tem um Lucas que comenta aqui no blog e pensei que fosse ele. Foi mal. Você tem algum blog? Tava fazendo uma busca nos comentários e só encontrei dois comentários seus [esse e o anterior]… ou estou enganado? Mas enfim…! hehe Que bom que gostou, mas eu não gosto do filme tanto como você. Suas qualidades não me causaram tanta coisa, mas é bom, isso não restam dúvidas. []s! E agora não irei mais te confundir. xD

      VINÍCIUS: É, Vinni, realmente me decepcionei um pouquinho. As ressalvas nem são muitas, já que nem há grandes problemas no filme. Só não gostei mais por questões subjetivas mesmo… Veja e depois diga o que achou. []s!

    • ROBSON: hahaha! Precisamos… []s!

      WALLY: Também acho o final a cena mais marcante, apesar de ainda continuar inteiro. hehe Valeu, cara! Adicionarei o seu aqui também. []s!

  5. Gosto muito de “Perdidos na Noite”. Aquela cena final me desmonta! E os atores estão excelentes.

    Nota 8.5

    ps: nem sei como não tenho seu link ainda no meu blogroll…
    mas agora ta corrigido.

    • EU GOSTEI DEMAIS DO FILME,JÁ O TINHA VISTO SEM ME DAR CONTA DE COMO CONTESTAVA OS PADRÕES HOLLYWOODIANOS,O QUE JÁ É VANTAJOSO! COSTUMO TER MINHAS HORAS MÁGICAS NAS MADRUGADAS VENDO E REVENDO O QUE HÀ DE MELHOR NO CINEMA;ACHEI QUE O DIRETOR DE PERDIDOS NA NOITE É MUITO BOM TANTO QUANTO W.WENDERS,COPPOLA,SCORCESE,SÓ NÃO É MELHOR DO QUE MEU “MUSO”,KUROSAWA! EU TENHO SACO ATÉ PRA VER UM MONTÃO DE VEZES “BERLIN-ALEXANDER PLATZ” MUITO DEPRÊ MAS UMA DAS MELHORES COISAS TANTO DA TELA QUANTO DE LIVROS!TEM HORA QUE TENHO RAIVA DE FILME AMERICANO ENTÃO EU VOU PARA OS IRANIANOS COMO “O SILÊ NCIO”,”DEZ” OU “FILHOS DO PARAÌSO”QUANDO RESSUCITAM O POETA OMAR KAAYAM..COMO É COMPLICADO ESCREVER AQUI COM A PÁGINA PULANDO:NEM FAÇO QUESTÂO DE PUBLICAR…MEUS ACHISMOS!


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