boogie nights – prazer sem limites [1997]

boogienights

Há quem tenha algum dom. Inclinação musical, artística, mexer a orelha ou ter um pênis agraciado pela natureza. Eddie [Mark Wahlberg] possui este último. Seu falo é como uma lenda: no clube noturno onde trabalha, bastam 5 dólares para que ele comprove os muitos centímetros com os quais foi premiado. Jack Horner [Burt Reynolds, indicado ao Oscar na categoria de Melhor Ator Coadjuvante e vencedor do Globo de Ouro por sua atuação], diretor de filmes pornôs, não pretende desperdiçar o talento nato de Eddie, o qual, por sua vez, não irá ignorar a oferta do diretor, usará seu grande talento como instrumento de trabalho. Se não bastasse, é quase uma máquina de fazer sexo – basta pagar para se mostrar eficiente. Não foi problema, por exemplo, quando na filmagem de seu primeiro filme pornô o cameraman esqueceu de um closer no ápice da cena [que você sabe qual é]: Eddie pôde repetir sem dificuldades.

Paul Thomas Anderson alimenta o mito. Quando o novo ator está em cena, sua câmera revela apenas as expressões das pessoas no set de filmagem, o que não deixa de ter sua graça. Apesar da história se inserir no mundo dos “filmes adultos”, expressão usada sempre por Jack, Anderson aborda essa questão sem nenhuma apelação, e o que temos assim é um universo muito abrangente, não somente o da pornografia. Estamos nos anos 70. O primeiro e extenso plano-sequência não deixa mentir: letreiros luminosos, o som dançante de Best of my Love, a discoteca animada, figurinos e caracterizações típicos da época. Assim Anderson mergulha o espectador na atmosfera de Boogie Nights. A primeira tomada revela ainda os personagens que darão início a uma narrativa envolvente e dinâmica, pois PTA realiza tudo com maestria – nem parecia seu segundo longa-metragem.

Seu domínio com a câmera já é notável nesse primeiro instante. O que o diretor faz com seu instrumento é um balé entre câmera e atores. Tudo parece estar acontecendo simultaneamente, cada personagem soa familiarizado com aquele ambiente, como se suas ações de fato continuassem ainda que não estivesse enquadrado. A câmera se infiltra de uma forma discreta, num estilo que posteriormente seria marca do diretor,  e ao focar cada personagem por um determinado instante,  nos prepara para as diversas histórias que acompanharemos, todas com um elo em comum – a indústria de filmes pornô. Paul Thomas Anderson predomina com essa linguagem por praticamente todo o longa. Se a primeira tomada já é admirável, visto o modo como se inicia e termina, as tantas outras que o diretor compõe surpreendem ainda mais. E o exercício não se torna repetitivo justamente pelas variações inseridas nestes planos-sequências: a velocidade com a qual a câmera percorre de um ponto ao outro se altera repentinamente, os ambientes variados por onde caminha sem nenhuma interrupção [como no qual mergulha na piscina junto com um personagem], a mudança de foco nos personagens e as informações que transmite com apenas uma tomada. Uma trilha sonora repleta de clássicos do tempo narrativo só enriquece tais imagens.

Além de ser um deleite para os olhos e ouvidos, tamanho o apuro estético dessas sequências, o ritmo do longa é demasiadamente favorecido com esse estilo, uma vez que a narração alcança uma fluidez importante principalmente em sua primeira parte, a qual foca o início da carreira de Eddie [agora com o nome de Dirk Diggler] – conhecemos a indústria e relações de seu ambiente de trabalho – cedendo espaço posteriormente para uma forte mudança no tom da história. A ascensão dos personagens e a divertida narração que acompanhávamos até então é interrompida. Entram as drogas, o declínio, os fracassos, fazendo PTA voltar-se para o drama específico de cada um. E não apenas o texto ganha um caráter mais denso, como a direção o salienta ao substituir a trilha sonora dançante por um instrumental repetitivo e tenso, rompe por vezes com as longas tomadas e insere inclusive uma edição fragmentada. Vemos então que aqueles personagens estão mais interligados do que se imaginava. A indústria pornográfica é sem dúvidas o que une todas aquelas pessoas, mas passamos a ver a importância de cada uma para fazer as coisas funcionarem corretamente – basta a queda de um para desencadear o efeito dominó. Sozinhas e longe daquele ambiente, os fracassos vêm à tona junto com um outro lado desconhecido, o lado que o estrelato dado pelo sucesso dos filmes pornôs ofusca.

Suas 2h30m de duração não chegam a incomodar, mas cenas como o documentário feito por Amber [Julliane Moore, também indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante], o casamento de dois personagens irrelevantes e [spoiler leve] a tentativa de Eddie como músico [/spoiler leve] poderiam ser reduzidas – ou algumas até cortadas -, cedendo espaço para outros personagens, como o de Philip Seymour Hoffman, que poderiam ser melhor trabalhados. Porém, Boogie Nights – Prazer sem Limites é muito para ser diminuído por esse pouco. É a arte de como conduzir uma câmera, como criar uma narrativa através de imagens, como transformar um texto, uma simples história, em algo muito maior. Em 1997, Paul Thomas Anderson já se firmava como um dos melhores diretores e roteiristas do cinema atual.

nota | 9.5
mais informações | adoro cinema, imdb
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  1. Não gostei muito assim de “Boogie Nights – Prazer Sem Limites”. A maior virtude mesmo se concentra na sábia decisão de filmar essa história sem recorrer a cenas por demais apelativas. E do elenco, mesmo sendo Burt Reynolds e Julianne Moore aqueles que adquiriram um maior prestígio, os meus prediletos são Heather Graham, Thomas Jane, Don Cheadle e Philip Seymour Hoffman. Mas, no fim das contas, não acho o todo muito memorável.

  2. Ahhhh, queria ter comentado antes do Alex… hehe
    Então, resolvi ver Boogie Nights ontem direito, por que até então só tinha visto pedaços, e além de tudo dublado.
    O que mais destaca no filme, desde o início, é a maestria de Paul Thomas Anderson com a câmera, é realmente surpreendente como ele já mostra ter total domínio de como construir seu filme através dos inúmeros possíveis usos deste equipamento, mesmo sendo tão jovem e “inexperiente” como era nessa época. Todo o resto da direção é também louvável, é incrível como a mise en scène do filme inteiro é construída de forma impecável e por vezes nos diz muito mais coisas do que os diálogos ou as ações.
    O roteiro peca poucas vezes, ou seria a edição? Também achei desnecessárias as cenas que você citou, além de concordar sobre o destaque que alguns personagens mereciam ter, achei a cena da briga do Eddie com a mãe a pior do filme, não sei se foi pelos os atores.
    Por falar em atores, um ponto forte e fraco do filme são as atuações, mais forte que fraco, fiquei surpreso com a atuação do Burt Reynolds em poucos minutos, nem sabia das suas indicações e do seu Globo de Ouro, mas vendo pensei: “merece prêmio”. Julianne Moore e Philip Seymour Hoffman estão sempre ótimos, e dessa vez estavam fantásticos, principalmente a Julianne (que muita gente odeia, mas eu adoro). Heather Graham e Thomas Jane são outros dois que destacam muito, o Don Cheadle pra mim estava ok, e também outros coadjuvantes estavam muito bem, à exclusão da mãe do Eddie, que eu não sei o nome. Já a péssima atuação de Mark Wahlberg, que na época atuava quase tão bem como um ator porno, só não chega a comprometer o filme por causa de todos os outros fatores que fazem dele um longa excepcional e também pelo filme ter uma estrutura de multiplots que quase nos faz esquecer que aquele infeliz faz o personagem principal, o que não deixa de ser verdade, já que a história é muito mais sobre pessoas que vivem do entreterimento adulto e suas histórias, do que sobre um indivíduo com um membro de proporções desumanas.

  3. Estaria mentindo se dissesse que posso comentar esse filme de uma maneira adequada, afinal já faz uns 10 anos que vi e realmente não lembro de muita coisa – só de que achei uma maravilha na época. Qualquer dia desses pretendo rever…

  4. Ah, esqueci de comentar (vou encher isso aqui de comentários), excelente resenha, uma das melhores que já li no seu blog, fiquei até sem jeito de comentar, pois tudo que eu ia dizer você já tinha escrito, e inevitavelmente acabei lhe repetindo. Mas tá de parabéns mesmo, se for escolher um texto para demonstrar como escreve, use esse. Apesar que sua resenha de Magnólia, se existir(perdoe-me), deve ser tão boa ou melhor, né?

  5. Matheus, o texto extenso é na postagem, não nos comentários. E não é difícil dizer que este é a melhor resenha (ou melhor, crítica mesmo, já que está muito longa e gordurosa para ser chamada de resenha) do autor por dois motivos: o primeiro é porque ele atualiza o seu recente espaço uma ou duas vezes por mês; o segundo é porque ele escreve muito, muito mal!

    E esqueceram de mencionar a cena das bombinhas! XD


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