palavra (en)cantada [2008]

palavraencantada

“São bonitas as canções / Mesmo miseráveis os poetas”
[“Choro Bandido”, de Chico Buarque e Edu Lobo]

Palavra (En)Cantada não é apenas um filme genuinamente brasileiro por seus realizadores serem nossos compatriotas. A brasilidade é o próprio tema, ou melhor, a nossa palavra na vertente da música e do poema é o assunto do novo trabalho da diretora Helena Solberg. É abordando o limite entre música e poesia, de quando essas artes se confundem mutuamente e formam uma unidade [ou não é sempre assim?]; a variedade que a nossa língua oferece e a diversidade de canções/poesias que com ela se pode formar, alcançando seja lá qual nicho for; os movimentos, em destaque a Bossa Nova e Tropicália, que revolucionaram a maneira de trabalhar nossas palavras e nosso som, através de depoimentos de especialistas e artistas, que a declaração de amor ao objeto de análise é apresentada.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia.”
[Os Três Mal-Amados, de João Cabral de Melo Neto]

Pois tudo é dito com muita paixão. Quando não são os conhecimentos de José Miguel Wisnik e Luiz Tatit que ganham espaço na tela, a fim de instruírem o espectador ao abordarem o tema de forma didática, passeando brevemente pelas mudanças sofridas pela música brasileira ou levantando questões relevantes, os grandes artistas, que moldam e constroem com as letras a arte, sejam os poetas ou os músicos – que vão desde Chico Buarque a Ferréz, passando por Adriana Calcanhotto, Tom Zé [e toda sua autenticidade], Lenine e Maria Bethânia -, expõem a relação individual de cada um com a palavra e o verso – isto é, com a poesia – e como isso está presente em suas músicas, além de revelarem personagens de importância inquestionável – e novamente o campo da literatura e da música se confundem – para a nossa cultura. As imagens de arquivo complementam o trabalho. Graças a elas, recorda-se  [ou se descobre, dependendo da sua idade] de Caetano Veloso em uma entrevista esclarecedora quanto ao modo como se encarava as transformações iminentes na nossa música [e era com questionamentos e muitas dúvidas]. É por elas também que são trazidas ao espectador palavras ditas ou cantatas em um tempo pretérito,  por vezes referido com uma certa saudade por quem o relembra; porém, a palavra se eternizou.

“Eu tomo uma coca-cola / Ela pensa em casamento / E uma canção me consola”
[“Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso]

E toda essa paixão contida em Palavra (En)Cantada emana facilmente para além da tela, bastando ao espectador se deleitar em meio a riqueza temática da obra e a forma como esta foi concebida. Não é sempre que  um diretor consegue unir com sensibilidade e segurança as duas maiores proezas do Brasil – no campo artístico, devo dizer – num filme que vale pela condução e construção ideais conferidas às imagens e a abordagem à uma única matéria-prima [a palavra] e o tratamento que cada artista lhe confere – e aí se evidenciam as diferenças, vistas no documentário. Mas vale, sobretudo, por ampliar a possibilidade sensitiva que o espectador leva consigo ao entrar numa sala de cinema. É um campo vasto a explorar,  é para quem gosta de música, poesia e cinema.

nota | 8,5
mais informações | site oficial, imdb
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  1. Leke, qto tempo…

    Não sei se é porque eu fui criado ouvindo esse idioma de todas as pessoas por quem tenho apreço, mas pra mim a língua portuguesa não tem igual em matéria de musicalidade. O inglês, por exemplo, é mais ágil, mais fácil de ouvir e de falar, mas qualquer letra de música ou poema em português é muito mais marcante, mais rico. Se esse filme não for chato, parece ser bem legal xD.

    Ah, e não tenha medo de chamar preconceitos de preconceitos.

    P.S: quero saber quando você vai falar de Maré…

  2. Jeff, fiquei interessado em ver o filme, como vc sabe conheço muito pouco de música brasileira, mas tenho vontade de conhecer mais, acho a língua portuguesa uma das melhores para serem utilizadas em canções, embora desde pequeno seja extremamente fascinado pela sonoridade das canções em língua inglesa (os yankees me corromperam desde cedo! malditos!! hehe).
    Mas o português tem uma capacidade poética maior, acho, ele tem uma riqueza de vocabulário maior, além da fonética que já tem uma musicalidade natural.
    Emfim, gostaria de ver, mas acho que dificilmente vai estrear em algum lugar aqui em BH, mas vou procurar saber.

    P.S.: acho q no meio do blog aqui, deve ter algum post sobre cinema, russo, americano, chinês, francês, talvez até etiope, são post muito bons por sinal, ótimos pra quem não gosta de cinema brasileiro comentar.

  3. Pingback: cinema 2009 | top cinema nacional «


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