em paris [dans paris, 2006]

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Interrompi na primeira linha o comentário que escrevia sobre A Bela Junie, novo filme do diretor Christophe Honoré, um dos recentes cineastas franceses em mais ascensão, para assistir Em Paris. Até tudo isso, minha experiência com o cinema de Honoré se limitava ao musical Canções de Amor, em cartaz ano passado no Brasil, o qual, apesar de uma trilha sonora viciante, a má construção da história me impossibilitou um maior envolvimento com o que era visto, atestando o resultado apenas mediano. A primeira impressão, porém, não impediu que em meio aos murmúrios sobre Watchemen, optasse pela sessão do filme francês.

Por três motivos. Dois deles são simples: Louis Garrel e o cartaz, já uma certeza entre os melhores do ano. O terceiro é ter achado Canções de Amor um filme marcante apesar de seus problemas narrativos. Marcante por seus personagens e as atitudes tomadas quando estes se inserem em relacionamentos delicados, de sentimentos intensos e, por vezes, contraditórios, chegando a envolver uma terceira pessoa e a homossexualidade, tratada sempre com naturalidade. Agora, percebe-se que o estado reflexivo em que Honoré é capaz de deixar o espectador ao fim de suas narrativas é uma constante em seu cinema. Suas histórias são marcadas pela incerteza de alguns e a entrega sentimental de outros. Eu ia falar de amor, mas se ele permeia entre os personagens, segue o caminho oposto do ameno, do aprazível, do lírico, sobretudo em Em Paris e A Bela Junie, repletos de fortes paixões e romantismo inconsequente.

O primeiro longa citado carrega uma ironia em seu título ao substituir a bela Paris dos amantes apaixonados e felizes para ser o cenário de um personagem dominado pela tristeza e dor, frutos do término de seu relacionamento, e outro que transa com três mulheres diferentes no mesmo dia. Paul, vivido pelo bom Romain Duris, ao mesmo tempo que parece querer se afundar em seu estado introspectivo, de se preservar em sua solidão e sofrimento, não chega ao ponto de concluir – como ele mesmo diz, “sem saber porquê” – a fuga máxima de sua situação.  Seu irmão Jonathan, na pele de Louis Garrel, contrapõe-se completamente ao se manter na superficialidade em suas relações, limitando-se por vezes ao sexo casual. Jon só parece sinceramente envolvido com alguém num único momento do longa – e Honoré cria cenas típicas de  jovens casais apaixonados -, mas não demora muito para ser reduzido em apenas mais uma casualidade.

O relacionamento familiar também é abordado em Em Paris com a presença do pai na vida de Paul e Jonathan, exercendo a típica função paterna de protegê-los e mostrando sempre uma preocupação com o comportamento taciturno do primeiro. Quando surge a figura materna, o pai sente-se ameaçado com a possibilidade de uma outra pessoa [ausente, devido ao fim do casamento – e temos mais uma relacionamento frustrado na história] ser melhor sucedida na tentativa de ajudar  o filho, fato que fica claro com os deboches e ironias que trocam entre si. Em contrapartida, a maneira como o relacionamento entre os irmãos é tratado compensa qualquer instabilidade dos tantos outros apresentados. Jon, ainda que aparentemente se mostre inexperiente quando se trata de sentimentos, é o sustento do irmão – a cena da banheira evidencia toda a fraternidade que existe naquela relação – e também mais um que busca distrações para Paul. Ao término do filme, parece a única relação mutuamente correspondida, a mais sincera e verdadeira.

Quando algum personagem resolve de uma hora para a outra cantar, mesmo não estando num filme musical, estamos diante de uma obra de Honoré. Desta vez, a trilha sonora que acompanha a história em quase todo o tempo é repentinamente acompanhada pela canção entoada por Paul e Anna, sua ex-namorada. Empregando a mesma marca em A Bela Junie, já é possível esperar tal recurso em cada novo filme do diretor – o que não acho nada mau, pois ainda que possa parecer estranho, o resultado é sempre eficiente por surgir em momentos importantes da trama. Compondo sempre uma direção que insere o espectador na narrativa, Honoré revela com seus planos a sensação que permeia entre os personagens, aproximando-se do ator nos instantes mais precisos, um estilo ainda melhor desenvolvido em seu novo trabalho.

[spoiler] Há dois pontos pertinentes em Em Paris. O primeiro é o início, que, aparentemente, é o fim do filme. As cenas aparentam serem as mesmas, porém se repararmos no relógio situado sobre a cama, veremos que a hora difere de um instante para o outro. Além disso, na segunda cena, Louis Garrel, ao acordar, dirige seu olhar primeiramente para Paul, o que não ocorre nos primeiros minutos do filme, quando a priori observa uma outra personagem também deitada na cama para só então depois olhar seu irmão. Essa sutileza de Honoré apenas reafirma  o que o início deixava implícito – uma possível reconstrução da vida de cada personagem, principalmente de Paul -, ao mostrar a cena final não como uma referência ao começo da narrativa, mas como o futuro dos acontecimentos vistos no filme.

Outro momento importante é a história que Paul conta para Jon, a do lobo e do coelho; um personagem que se retrai em sua toca devido ao medo que  tomou do outro, que mais tarde irá sofrer esse mesmo dano e provar do mesmo assombro. O coelho só sai da toca quando o lobo retorna com a mesma experiência de vida do amigo. A leitura, que pode ser  das mais diversas, fica por conta do espectador. Parece-me toda a história em escala menor: o refúgio, o companheirismo, o exílio, a redenção vista no desfecho, a  mesma experiência vivida por diversos personagens [a queda na ponte, o sofrimento de Claire, que ocasiona seu suicídio]. [/spoiler]

Christophe Honoré não realizou – ainda – nenhuma obra-prima, mas seus filmes são bons o suficiente para permanecerem na memória por muito tempo; são desses que parecem melhorar a cada revisada, que se revelam mais a cada vez que o espectador se deixa dominar pelo universo que Honoré constrói. O intimismo inserido em seus roteiros é salientado fortemente quando rege suas próprias histórias. E  é esse intimismo, fundido com o erotismo, com o romântico, com o subjetivo, que marca seu cinema e o torna tão atraente. Estou aguardando seu próximo filme.

nota | 7,5
mais informações | imdb

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NOTA |  Com o fim das férias e o retorno à faculdade, perceberam que além do blog estar sofrendo uma escassez de atualização, não tenho visitado os  tantos blogs que adoro acompanhar. Peço desculpas pela ausência no espaço de vocês, mas realmente faculdade atrapalha a vida de qualquer blogueiro. Pretendo ir recompensando aos poucos. Abraço a todos!

 

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  1. Cara, eu assisti via torrent também e gostei muito. É muito filme pra ver na época do festival, acabei perdendo! Li em algum canto que vocÊ também é evangélico. Bacana :)

  2. Aff, tempo é uma desgraça mesmo. O dia devia ter 50 horas, no mínimo.

    O último filme que eu assisti “em Paris” foi Dois Dias em Paris, filme que me agradou bastante, ficando por muito tempo entre os meus favoritos do ano. As Canções de Amor, A Bela Junie e, agora, Em Paris ficam pra minha lista de futuras sessões então.

    Abração!

  3. Eu chorei DEMAIS na cena da música pelo telefone. A dupla de portagonistas é extraordinária, com destaque para o subestimado Louis Garrel. Belíssimo filme, mas vou rever!

    Abs!

  4. Gostei do filme, do Honoré também só havia visto Canções de Amor. E é como vc disse, pelo os que eu vi, os filmes dele apesar de não serem perfeitas obras-primas têm o mérito de serem extremamente instigantes, te deixam a pensar e não fecham em si só, achei Em Paris bem experimental em alguns momentos, a metalinguagem não me incomodou, mas também não me agradou. Há também o fato desses dois filmes terem trechos belíssimos, acho as canções muito bem colocadas, funcionam muito bem na narrativa, o uso delas ainda pode render bons frutos nos seus futuros filmes, causa estranhamento, mas ao mesmo tempo é sutil.
    Enfim, procurarei ver outros do Honoré, algumas coisas me incomodam, mas valeu muito a pena ver esses dois, creio que ele produzirá uma obra irretocável em breve.

  5. Acho que eu gostei bem mais de “Em Paris”, aliás amo “Canções de Amor” – um pouco superior. Gosto das brincadeiras feitas pela montagem, acho que deu um ritmo mais dinâmico, sem falar naquela cena musical maravilhosa.

  6. Dos filmes dele que você citou eu ainda não vi o mais recente, “La Belle personne”, mas todos os outros eu já vi e posso dizer que sou um admirador do trabalho dele, pra mim poucos conseguem transitar tão bem nesse gênero sem parecer forçado. Adoro dramas intimistas, só acho que ele pesou demais a mão em “Ma Mère”, mas para os outros dois eu tiro o chapéu, sendo o musical o meu preferido.

  7. Jeff, eu nunca vi um filme sequer do Christophe Honoré. Tenho comigo “Canções de Amor”, mas ainda não me animei em assistir, embora seja um musical. E eu passei batido pelo spoiler, mas sei que é algo sobre o final. Depois vê se me arruma links para ver o filme, okay?

  8. Adoro esse filme, adoro! Encantador e com conteúdo, sólido. Adoro também a trilha sonora, principalmente quanto entre o Metric – lembra daquela cena em que o casal discute no carro ao som de “Handshakes”?

    Abs!

  9. Assisti esse filme na Cultura esses dias e gostei muito! Ainda mais da trilha sonora…alguém sabe se ela está disponível em algum lugar? Principalmente a música que ela dança sem blusa e a que eles cantam no telefone!
    Valeu!


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