frost/nixon [2008]

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Dois pontos me deixaram hesitante em assistir Frost/Nixon: ser um filme político e Ron Howard assinar a direção. Reprodução de escândalo da Casa Branca, trajetória política de algum candidato e  roteiro entupido de números, estatísticas e informações não costumam me agradar por simples motivo pessoal mesmo – nunca correspondem às minhas exigências emocionais, digamos assim, esperadas de qualquer filme que assisto. E Ron Howard, bem, é o “grande” nome por trás de O Código da Vinci e O Grinch, o que torna minha ressalva auto-explicativa. Confesso que acho Uma Mente Brilhante um bom filme, mas sua direção nunca se mostra muito inspirada. Em outras palavras, ou ele erra feio ou não vai além do satisfatório.

Porém, Frost/Nixon apresenta dois grandes diferenciais de imediato: montagem e elenco [o primeiro é até curioso, já que os editores Dan Hanley e Mike Hill trabalharam com Howard em muito de seus filmes]. Ainda nos créditos iniciais, imagens de arquivo televisivo são descarregadas na tela, dando um apanhado realista para o espectador do caso Watergate, ocorrido na política estadunidense na década de 70. Ainda que seja uma enxurrada de informações, a edição garante uma contextualização satisfatória para o espectador se situar no ocorrido. Empregando muitas vezes uma linguagem documental, quando vemos atores falando diretamente para a tela e uma legenda informando seu nome e cargo, a montagem intercala muito bem essas cenas ao mesmo tempo em que acompanha cada um dos dois personagens principais. Desta forma, assim como o tom realista se faz presente e favorece o filme, o roteiro  de Peter Morgan, baseado em seu próprio livro, brilhantemente acompanha também o personagem de David Frost para compreendermos suas motivações, seus dramas e  sua instável carreira, a qual se encontra num momento delicado.

Todo o desenvolvimento dos dois personagens principais faz do grande momento do filme, a entrevista, um verdadeiro duelo entre dois homens de interesses particulares, em situações determinantes em suas vidas, disputando uma vitória numa luta verbal. Mais do que estarem dispostos a vencer, o sucesso na entrevista é primordial para cada um – mas como o próprio Frost diz, “apenas um pode ganhar”, o que deixa tudo mais interessante. Por isso, as sequências onde Frost e Nixon combatem frente a frente, apenas com perguntas e respostas,  são tensas, de deixar o espectador na expectativa como ocorre em qualquer disputa. Obviamente, o bom resultado se deve principalmente a Frank Lengella e Michael Sheen, que encarnam duas personalidades de forma bastante convincente e natural, ambos perfeitos nos momentos mais intimista de cada figura como nos mais intensos. A emoção passada, principalmente nas cenas finais, não existiria se não houvesse atuações tão verdadeiras.

Além de compor muito bem a história, o roteiro ainda investe em algumas piadas que funcionam [eu cheguei a gargalhar com algumas tiradas] e alivia a tensão deixada em quase todo o tempo. Já Ron Howard, desta vez, foi muito feliz. Está longe de possuir um estilo, mas tenta pelo menos se mostrar inspirado. Nas cenas da entrevista, por exemplo, procura não compô-las apenas com planos e contra-planos, os quais eram mais que esperados; pelo contrário, busca enquadramentos e tomadas para dinamizar e criar bom ritmo aos melhores momentos da obra. E ainda dosa e valoriza a trilha de Hans Zimmer, inserindo-a nos instantes mais precisos.

Eu nunca pensei que fosse dizer isso, mas finalmente encontrei em Frost/Nixon meu favorito para o Oscar 2009 de Melhor Filme.

nota | 9
mais informações | imdb
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  1. puxaaaaa =/ eu não tinha visto que décadas atrás vc tinha comentado no meu blog. desculpa .-.
    ainda mais q seu blog é super interessante, fala sobre cinema
    só o último filme mesmo que eu acho que só sendo cinéfilo pra ver =P odeio política xD aliás, acho que meus filmes preferidos sempre são eleitos os piores do ano, esqueci até o nome do prêmio xD
    =***

    • Abel, hehehehe, sem problemas. Também não curto filme político, mas este no geral nem acaba soando como um, e é realmente muito bom. Acho que se refere ao Framboesa de Ouro, que pra mim consegue ser mais desprezível que o Oscar em seus anos de equívocos excessivos. []s e volte quando quiser! =)

      Kau, o Howard desta vez acertou. hehe Se eu gostei tanto assim do filme, você tem chances de gostar muito mais. []s!

  2. É, eu não espero dar menos de 8,0 para esse filme. É a temática que eu amo, com o tipo de personagens que eu admiro. Não tem como dar errado, exceto se Ron fez cagada, rsrsrsrs.

    Assisti Dúvida e achei um genuíno espetáculo!

    Abraços.

  3. Quase que “Frost/Nixon” também é meu favorito para a disputa do Oscar – mas gostei um pouco mais de “Slumdog Millionaire”. Os grandes destaques aqui são o roteiro de Peter Morgan, a música de Hans Zimmer e a atuação da dupla principal.

  4. Jeff, pela sua expectativa negativa enquanto a nova obra de Ron Howard é de surpreender a sua análise. Eu estou me esquivando de “Frost/Nixon” pelas mesmas razões que você decretou no seu primeiro parágrafo, mas em breve, talvez neste mês, eu verei o longa.

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