o leitor [the reader, 2008]

thereader

Em uma determinada cena de O Leitor, o personagem Michael Berg, ainda jovem, visita um antigo campo de concentração. O lugar está praticamente vazio, ocupado apenas por algumas camas de madeiras desgastadas com o tempo, mas pode-se sentir ainda o peso e a tristeza herdada pelas lembranças vividas naquele local, implícitas na fotografia de Roger Deakins [ó ele aí de novo] que mescla o preto das sombras com tons cinzas e azuis, resultando num visual tão expressivo quanto belo, capturado por tomadas lentas e silenciosas compostas por Stephen Daldry. Uma sequência linda, porém, extremamente desnecessária por nada acrescentar à narrativa – pelo contrário, só retarda o seu ritmo. Mais que isso, justo em tais momentos, O Leitor soa como um longa enlatado, muito bem elaborado em todas as etapas, rumo à premiação do Oscar.

Como um romance, como um idílio marcado pelas leituras litúrgicas,  como uma história de superação pessoal indiferente do tempo e oriunda de uma necessidade, o filme funciona perfeitamente e entrega assim seus melhores momentos, os mais envolventes por serem mais naturais. No primeiro ato, o romance entre os dois personagens é desenvolvido em meio a cenas  de sexo – quando Hanna [Kate Winslet] cumpre o papel de uma instrutora, iniciando e instruindo o menino para um vida sexual – e leitura de clássicos. E o progresso afetivo no relacionamento se dá justamente em decorrência da presença da leitura na intimidade do casal, da forma em que os livros se tornam um elo de ligação e sustento entre as duas pessoas. O objeto é inserido em cada segmento da história e como um fator decisivo em suas vidas, seja de forma mais  discreta [spoiler como a ferramenta principal para o andamento do julgamento dos ex-componentes da SS], seja exercendo uma função atípica de sua habitual [spoiler como no suicídio de Hanna].

Ironicamente, são nos instantes em que retrata a realidade que soa mais artificial. Além de mudar a tom narrativo e desfavorecer o bom ritmo até então presente na obra, apresenta uma trama frouxa – sustentada unicamente por cenas de tribunal – que não favorece a história; acaba também não funcionando como retrato fiel de uma tragédia, já que nada revela de novo para o espectador. Creio que o filme não quer valer como uma obra sobre o holocausto, mas acaba caindo na armadilha quando investe em cenas como a descrita no primeiro parágrafo e nos últimos momentos da trama, os quais são, da mesma forma, destoantes, tentendo inclusive para um sentimentalismo barato realçado pela trilha sonora nem sempre conveniente de Nico Muhly.

Enquanto a maquiagem nem sempre convence, os outros aspectos técnicos são eficientes em cada época retratada; a direção de arte confere um retrato fiel do ambiente em função do momento histórico [detalhe para a Berlim Ocidental, a qual mesmo aparecendo poucos instantes, sugere objetivamente os conflitos passados pela capital] e, da mesma forma, revela a situação de Hanna com o aspecto de sua pequena casa. E não há mais o que se falar de Roger Deakins, o qual, mesmo não entregando seu melhor trabalho, é extremamente competente ao reafirmar o sentido das imagens que o diretor capta. Daldry, por sua vez, consegue ser sutil e feliz com o pouco, como em todo a primeira parte de O Leitor, mas também vem a falhar quando reforça os problemas apresentados pelo roteiro – porém, o saldo final é positivo. Já Kate Winslet novamente se atesta como umas das melhores atrizes da nova geração, ainda que tenha entregue aqui um trabalho menor se comparado ao de Foi Apenas um Sonho [foi indicada ao Oscar pelo filme errado]. Ralph Fiennes e David Kross fazem de Michael o mesmo personagem, conferindo, cada ator, um ótimo sustento para o filme nos seus momentos de tropeço.

São justamente esses tropeços que impedem O Leitor ser um dos melhores filmes da temporada. E ainda que haja um significado, o longa se encerra de forma bastante questionável e, à primeira vista, não muito aceitável – assim como ocorreu com Dúvida. Bastava descartar certas fórmulas e continuar investindo numa história original e envolvente para ter obtido um resultado ainda melhor.

nota | 7,5
mais informações | imdb

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  1. Assim como o Kau, também acho que devo gostar da Kate mais por este filme e menos por “Foi Apenas Um Sonho”. Ao julgar pelos trabalhos anteriores de Stephen Daldry, este “O Leitor” tem tudo para funcionar comigo, mas posso dizer que já estou incomodado com algo que vi no trailer e que aqui o senhor destaca como um defeito: as cenas no tribunal.

  2. Queria ter escrito essa crítica antes, porque encontei aqui exatamente o que penso a respeito de “O Leitor”, desde a bela cena citada no primeiro parágrafo até o desfecho questionável. E para mim foi indicado ao Oscar nas categorias erradas. Merecia ator coadjuvante, maquiagem e trilha sonora. Abraço!

    • Kau, e você já elogiou muito a atuação da Kate em sua crítica – a qual acabei de comentar – de RR. Ela é sempre foda, mas ainda prefiro sua atuação em Brilho Eterno – acho. []s!

      Alex, o que está esperando para assistir, zé? Achei o trabalho dela em RR mais intenso e tal, ainda que esteja boa [como sempre é] em O Leitor também. []s!

      Vinícius, hehehehe, vim na frente! xD Mas discordo com duas das indicações. A maquiagem me incomodou um pouco por não ter achado muito realista e trilha nem sempre funciona bem. []s! E que bom! Obrigado. =)

      Lucas, eu também gostei. 7,5 é uma nota boa. Como disse, prefiro sua atuação em RR – e sua melhor talvez ainda seja em Brilho Eterno. []s!

  3. Ah eu gostei do filme. Achei até agora o único acerto do Oscar.
    Kate Winslet totalmente principal no filme, e com, talvez, sua melhor atuação.
    Concordo sobre a cena citada no começo do post e sobre o fim que se arrasta demais, mas mesmo assim, gostei muito.

  4. Acabei de ver o filme! Já vou escrever minha resenha, mas adianto que achei o filme bem mais ou menos. A idéia central se encerra muito rapidamente e, como você bem observou, o andamento do filme cai vertiginosamente.

    Abs!

  5. Meu comentário é de outra ordem: acho primordial que quem escreva, escreva bem – assim, com todo o respeito, mas porque respeito não se deu ao vernáculo, chega a doer a seguinte frase: “Mais que isso, é nesses momentos que O Leitor soa como um longa enlatado….”..

    É nesses momentos? NÃO… São (SÃO) nesses momentos que o O leitor soa como um longa enlatado….

    Vamos prestar mais atenção!

    • Jaime, obrigado pelas correções, ainda que a forma como foi dada não tenha sido da mais amistosa. Aliás, se puder fazer uma revisão geral no blog, eu agradeço. Definitivamente tenho que parar de escrever de madrugada. Só uma correção – é, também gosto de fazê-las: eu não sou crítico. Sim, foram erros absurdos, que qualquer um que se meta a escrever e publicar “resenhas” não deveria cometer, mas acontece, ainda mais quando não se tem nenhum compromisso e intento de soar profissional. E acredite: sempre fui bom aluno em português. Novamente agradeço. []s!

  6. ai Jesus…. outra pérola do texto..

    “Enquanto a maquiagem nem sempre convence, os outros aspectos técnicos é eficiente em cada época retratada…”

    Os outros aspectos É eficiente? de duas uma: ou ‘Enquanto a maquiagem nem sempre convence, NOS outros aspectos é (o filme) eficiente’.. ou ‘Enquanto a maquiagem nem sempre convence, os outros aspectos técnicos SÃO eficientes em cada época retratada…’

    Um crítico que não domina o idioma, cometendo erros crassos como esses, não pode escrever resenhas. Tem de voltar pra escola.

    Lamentável!!!!

  7. Já eu acho primordial que não utilizemos o pretexto do português correto pra disfarçar nossa arrogância diante do que percebemos como falhas alheias.

    Jaime, você entra “na casa” de um blogueiro, se apropria de seus escritos e ainda tem a desfaçatez de criticá-lo da forma como criticou, como se você fosse o patrão e ele um empregado que lhe estivesse prestando serviços. Não, Jaime. Sinto te informar que não é por aí. O que o Jeff, eu, ou qualquer outro blogueiro fazemos é dar uma visão pessoal sobre assuntos quaisquer da maneira como quisermos ou soubermos fazer. Lógico, preocupando-se sempre com as pessoas que perderão frações de seu tempo para nos ler. Pessoas iguais a você. Se errarmos, com sorte teremos leitores pra nos corrigir. Leitores iguais a você. Com mais sorte ainda, não teremos “Zés Ruelas” pra nos corrigir de maneira prepotente e agressiva. Zés Ruelas iguais a você, e diferentes dos outros tantos leitores que temos.

    Se, mesmo assim, você não estiver satisfeito, tenho o dever de lhe informar que não temos a menor obrigação de nos retratar. Se o fizermos, faremos por respeito a quem nos acompanha. Quem é nosso leitor de verdade. Aliás, você disse “com todo o respeito”, mas eu não encontrei um traço de respeito em todo o seu texto.

    Uma pessoa que não domina a forma como fala com as outras, cometendo erros crassos como esses, não pode sequer escrever. Tem de começar a viver.

    Acho que você não lerá esta resposta, Jaime (ainda bem, devo reconhecer). Mas, por uma questão de princípios, eu preciso que ela fique registrada.

    Nem só de erros de gramática vive a má escrita, Jaime. E você escreve mal, muito mal.

  8. Ac hei um filme lindo!
    Até concordo com algumas falhas que você citou, mas ainda é meu favorito. Fiquei emocionado e o enredo levantou várias questões que estavam adormecidas, pelo menos pra mim, nessa temporada. Acho que a maquiagem incomodou justamente por ser a Kate, uma mulher de imagem forte. Tive a mesma percepção logo de cara, mas depois me dei conta desse detalhe. Enfim, parabéns pelo texto, e pela sensibilidade. Mas se puder, dê outra chance ao “O Leitor”, é realmente um dos melhores da temporada.
    abc.

  9. Pingback: Retrospectiva 2009: Parte 1 « Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos


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