dúvida [doubt]

doubt

Muito desnecessário elogiar um filme em detrimento de outro, mas é inevitável não questionar a perda de Dúvida na categoria de Melhor Elenco no SAG deste ano para aquele outro lá [serei discreto pelo menos]. Sendo mais preciso, o melhor é não questionar mais nada das premiações de 2009, pois ou o meu gosto se encontra muito atípico e equivocado ou as comissões julgadoras andam bebendo mais que o permitido. Dúvida precisava de atuações intensas para alavancar a história intrigante que o roteiro por si só nos oferece. E além de  contar com um elenco deste nível, o filme é bem sucedido em tudo em que se propõe fazer.

Principalmente sua proposta de trabalhar o título do longa, o que, vale dizer, é o melhor diferencial que o filme oferece. Evitando ser partidário e somente desenvolvendo sua narrativa, o roteiro adaptado pelo também diretor John Patrick Shanley nos coloca numa posição às vezes inferior de alguns personagens da trama, uma vez que sabemos exatamente o que eles sabem – ou menos que isso. Se Irmã Aloysius [Streep] acredita veementemente que Padre Flynn [Hoffman] é um pedófilo, enquanto que este nega sempre com o mesmo grau de convicção a acusação, resta para o espectador o mero papel de voyer na narração. As imagens, por sua vez, podem se mostrar traiçoeiras, tendendo em cada instante para um lado, mas não irá revelar a verdade por trás de supostas mentiras ou ilusões. O jogo de gato e rato desencadeado entre os personagens – sugerido pelo próprio filme numa analogia óbvia -,  acaba alcançando também o espectador.

Então já que a única fonte de informação para o espectador são os personagens e é por eles, somente por eles, que seremos persuadidos, interpretações corretas se tornam importante para o funcionamento do filme. Meryl Strep, com o cenho fechado em todo o tempo, mantém um ar de autoritarismo e, por essa postura rígida, realça a certeza das convicções de sua personagem; ao mesmo tempo em que parece ter idéias inabaláveis, representa sempre uma ameaça para o personagem de Hoffman [melhor a cada trabalho realizado], o qual consegue romper sua serenidade de padre nos momentos mais intensos e confrontantes, quando parece sempre firme e convicto de sua índole. Amy Adams possui uma aparência frágil assim como suas certezas sobre o tal caso, enquanto que Viola Davis  com poucos minutos em cena consegue uma atuação tão marcante quanto qualquer outra do filme. [Em especial, há uma cena  com duração de 14 minutos que ocorre apenas numa sala, onde os três atores que encabeçam o longa estão presentes, que é o exemplo da intensidade de suas atuações. Perfeito.]

Nem de longe é a melhor fotografia do Roger Deakins e nem de longe é a melhor trilha sonora do Howard Shore, mas ambos fazem trabalhos que favorecem o clima meio obscuro e encoberto da narrativa. A direção de Patrick Shanley saliente ainda mais o tom sutilmente misterioso do filme e cria um dinamismo nas cenas carregadas de extensos diálogos, com tomadas lentas e enquadramentos mais apropriados do que aparentam. Tudo a favor de um roteiro que só peca na sua última fala – lamentável,  mas pouco demais para acabar com tudo visto até então. Porém, o mais interessante é que Dúvida chegará ao seu fim e não faltarão incertezas na mente do espectador.

nota | 9
mais informações | imdb
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  1. Gostei MUITO do filme. Achei o trabalho dos atores excelentes, além do ótimo roteiro. Só tenho alguns problemas com a direção.
    E ao contrário de você, gostei muito da cena final, ou melhor, falas finais, principalmente quando mostra ela escondendo o crucifixo antes e tudo isso faz sentido.

    • Lucas e Alex, acho que só eu não gostei do final e tratei de explicar o motivo no novo post. Mas que bom que gostaram do filme, ao menos nisso podemos concordar. []s!

      Kau, você tá dizendo que tá esperando todos os filmes. hehehe Espero que goste mais desse do que gostou de O Lutador. E pode criar qualquer expectativa quanto ao elenco, tenho certeza que não irá se decepcionar. []s!

      Vinícius, ainda não vi ninguém falando mal do filme! Tomara que você não seja o próximo, mas pelo visto não, pois o filme é exatamente isso que está esperando. Muitos diálogos em cenas longas com interpretações incríveis. Vai fundo! []s!

      Matheus, foi a pior surpresa do SAG, sem dúvidas. Se o seu raciocínio estiver correto, acho mais absurdo ainda por Dúvida ser um filme infinitamente superior a Slumdog. Seria injusto de qualquer forma. []s!

      Dudu, eu vi seu comentário lá e ia responder, mas já que veio aqui. Você tem razão, cara, há uma perda até pela natureza do texto, mas procuro nem levar isso em conta, prefiro nem imaginar como seria no teatro, até porque o filme consegue cumprir com seu papel. Minha ressalva com o final não é nem quanto ao impacto [apesar de novamente concordar com você], mas quanto a fala da Meryl Streep, era tudo que eu não queria ouvir dela. Expliquei melhor no novo post, acima desse aqui. []s!

  2. Disse que veria o filme hoje, mas o download ainda não terminou, então… Estou ficando realmente curioso, uma vez que outros amam e alguns odeiam esse filme, quase não há meio termo. Imagino que seja um filme de cenas longas (como bem foi dito aqui) e com grandes interpretações, o que pode me agradar em cheio. Pulei algumas passagens de seu texto para não saber tanto sobre o filme, mas depois quando vê-lo comentarei com mais propriedade. Abraço!

  3. Acabei de assistir. Simplesmente adorei, especialmente a personagem de Streep (e as cenas da lâmpada XD). Eis um grande exemplo de drama cujas performances são arrasadoras. E, ao contrário de você, adorei o último momento do filme, pois acredito que seja aquela fala ao qual acabamos por compartilhar ao término do filme.

  4. Nem vi o filme ainda, mas já concordo com você no caso do SAG, a primeira coisa que eu pensei quando vi os indicados pra melhor ELENCO foi: Dúvida leva fácil né? de longe era o filme que tinha o melhor elenco, mas ao que parece o prêmio e de fachada é um melhor elenco pq é dos SAG, mas na verdade eles dão pro filme que acham melhor e não realmente pro melhor elenco.

  5. Pois é, Jeff… Eu tava comentando isso no meu blog: acho que, por se tratar de uma peça meticulosamente pensada para teatro – tanto que ganhou um Pulitzer-, alguns elementos se perdem na adaptação para o cinema. É inevitável! O que não desmerece, em hipótese alguma, o filme em si. Porém, eu acho que a última frase se enquadra perfeitamente no palco italiano. É que no cinema ainda há aquele tempo de condução do olhar depois do “último ato”. Já no teatro, uma frase daquelas com luzes se apagando e cortina caindo devem ficar boas para deixar o espectador imobilizado quando o pano cair e a luz for apagada.

    Não vi a peça, são apenas conjecturas.

    Abs!

  6. antes de qquer coisa, adorei o still q vc colocou do filme, achei barbaro. sobre o longa, sou suspeito pra falar pq achei a atuação de streep excepcional. ela consegue conduzir seu personagem mto bem e expressa sua personalidade autoritaria e metodica atraves mesmo de um olhar. o roteiro é criativo, ja q nao pesa pra nenhum lado, deixado o proprio espectador, interpretar nas entrelinhas o caso do padre. por fim, viola davis de fato marca sua participacao, q é curta, mas comovente e segura.

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