o lutador

thewrestler

Há diretores que nasceram iluminados por alguma divindade do Cinema pois não conseguem errar em nenhum trabalho – vacilam, mas não erram. Quentin Tarantino é a prova máxima dessa teoria, já que até agora parece imune à falhas. Dos vivos, Lynch, Jeunet, Fincher, Burton, Thomas Anderson e mais alguns também entram fácil para o grupo. E Darren Aronofsky faz parte, com folga, do “mais alguns”. Pi, sua estréia em longas, é ponto fraco de sua carreira se comparado aos que viriam nos próximos anos, ainda que tenha mostrado um talento promissor de imediato. Réquiem para um sonho dispensa comentários e Fonte da Vida é um grande filme subestimado pela maioria.

Em O Lutador, Aronofsky retorna com uma direção extremamente naturalista, estilo que não apenas funciona por conferir um realismo fundamental ao longa como imerge o espectador na vida do personagem Randy. Em todo o filme [e é todo mesmo, com exceção de poucos planos abertos que revelam o cenário mais significativo para Randy e que, de certa forma, o sintetiza], o diretor emprega a câmera na mão, sem rodeios, poucos cortes, zooms precisos sempre em função da realidade do personagem. É exatamente essa a intenção de Aronofsky, entrarmos na perspectiva de Randy e em seu mundo. E uma vez lá, difícil não se envolver com seus conflitos. Essa linguagem também não poderia ser mais apropriada para as cenas de luta livre, instantes em que o filme tende à repulsa de tão realista, pois ainda que o “esporte” seja coberto de mentiras, as cenas parecem as mais verdadeiras possíveis – e Darren também nos quer bem próximos a elas.

Um dos pontos mais interessantes de O Lutador é a de contrapor as duas realidades de Randy, e por todos os motivos, Mickey Rourke pareceu uma escolha ideal para o projeto. A brutalidade nos ringues e a carapaça que lhe insere um aspecto de homem forte e seguro parece ser desmontada em sua vida emocional. Randy é um homem solitário, frágil, perdido, irresponsável e, para ser mais sucinto, é só mais um humano; a fragilidade de seus relacionamentos interpessoais sustenta o intimismo do filme e por ele conhecemos o que verdadeiramente há por trás de uma pessoa aparentemente inabalável e forte. Mas até fisicamente a instabilidade se faz presente em Randy.

No fim das contas, dá para contar nos dedos [de uma só mão] os instantes otimistas da história. Por isso O Lutador pode ser tão brutal quanto entrar no ringue – psicologicamente falando, claro. Encontrei-me desgastado quando os primeiros acordes da excelente “The Wrestler” foram entoados num dos mais brilhantes desfechos que já vi. Ironicamente, o filme mais intenso, mais denso e que requer maior atenção do espectador – ao menos até agora -, além da ótima qualidade de cada aspecto do filme, foi o mais esquecido nas principais categorias das premiações atuais. E por essas e outras o Oscar deste ano está fadado a ser uma grande piada.

nota | 8,5
mais informações | imdb
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  1. Não sou uma grande fã do Darren Aronofsky, mas são opiniões como a que li aqui que me fazem querer MUITO assistir ao filme “O Lutador”.

    • Kamila, ao contrário de você, admiro muito o trabalho do Darren. E ele no Globo de Ouro fazendo aquele gesto foi bem engraçado. hehe Quanto ao filme, não deixe mesmo de assistir. Merece todos os elogios que vem recebendo. []s!

      Lucas, fiquei num dilema se daria 8,5 ou 9. Acho que no fim das contas, a nota não acaba importando muito, mas as nossas palavras, não é? Sem dúvidas o elenco é formidável e um dos poucos acertos da Academia este ano foi ter indicado os dois. Faltou o Darren e o filme, mas fazer o quê? []s!

  2. Gostei muito do filme, acho que até mais que você (daria 9,5, o primeiro dos filmes indicados ao Oscar).
    Achei incrível esse contraponto entre personagem e ator,a lém é claro da direção do Darren e das duas atuações principais, Mickey Rourke e Marisa Tomei nem pareciam que estavam atuando de tão naturais que estavam.

  3. Também acho o Darren Aronofsky um diretor sensacional e novamente ele conseguiu me surpreender com esse trabalho que é um dos melhores do ano – e merecia muito mais que duas míseras indicaçõs ao Oscar. Do Oscar, tô achando que só “Quem Quer Ser um Milionário?” merecia ter sua indicação, pois o esquecimento de “The Dark Knight” e “O Lutador” chega a ser criminoso. E torcida pelo Rourke! Abraço.

    • Vinícius, este ano tudo que eu gostei muito não foi indicado! E os menos bons foram – e Slumdog entra aí. Fazer o que né? O esquecimento de O Lutador, TDK e Dúvida foi realmente um crime. Acho que acabarei torcendo pelo Rourke também… []s!

      Kau, somos dois. E ele não nos desapontou. Dá para confiar em todo mundo. hehe []s!

      Dudu, prepare-se também para esse, pois é preciso. Muito. []s!

      Lucas, também ainda acho The Foutain o melhor dele, mas O Lutador é quase tão bom quanto. []s!

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