foi apenas um sonho

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É um filme desconcertante. Culpa daquela maldita trilha sonora do Thomas Newman, culpa daqueles personagens instáveis, culpa daquelas imagens tão clássicas e bonitas mas carregadas de um vazio palpável. Não vazias de significados; pelo contrário, somos capazes de sentir o vazio, a ausência, a fragilidade num relacionamento de aparências. Como o próprio filme que Sam Mendes realiza: aparentemente belo, porém inquietante.

Onze anos se passaram para os atores Leonardo DiCaprio e Kate Winslet dividirem a tela novamente. E desde a primeira discussão do casal Wheeler que tomamos parte logo com poucos minutos de filme, percebe-se uma retomada bem mais amarga e diferente do romance vivido a bordo do Titanic no longa de 1997. Se os sentimentos dos personagens não são os mesmos, o talento de cada ator hoje é inegável e está mais que certificado – e, por conta disso, serei mais um a dizer que o trabalho de ambos é o que de melhor Foi Apenas um Sonho [preferia Revolutionary Road, mas…] tem a nos oferecer. Desde a primeira cena juntos até o último momento do filme, é incrível como se mantém perfeitos em retratar a oscilação e instabilidade sentimental passado pelo casal Wheeler; quando estão em seus momentos de sonhar, em busca de uma imagem típica de família feliz, com o pai que trabalha para sustentar a casa enquanto a mãe cozinha e cuida do lar e das crianças, a calmaria, ainda que frágil, pode ser sentida pela mansidão e sorrisos compartilhados entre eles. Porém, ainda nesse momento otimista, o sexo, na única vez revelado, parece marcado pela distância carnal e afetiva e não dura o suficiente para o prazer de ambos [aliás, para a personagem de Kate, ao contrário de seu marido, a vida sexual parece sempre insatisfatória]. Em contrapartida, as constantes brigas do casal são ditadas por uma interpretação intensa e visceral dos atores, de tão realistas colocam o espectador num papel desconcertante por estar fazendo parte daquela situação.

Não chamei a trilha sonora de maldita no início do texto por ela ser ruim. Chamei-a desta forma por ser capaz de alavancar o tenso desconforto que é assistir Foi Apenas um Sonho – já que estamos em fase de premiação, sinto-me na obrigação de dizer a injustiça de ausentarem o trabalho de Newman desta temporada de prêmios, uma vez que achei, inclusive, uma trilha ainda melhor que a muito elogiada [inclusive por mim] de Alexandre Desplat por Benjamin Button. Por sua vez, Sam Mendes retorna com uma  direção precisa, investindo em tomadas lentas – quase sempre se aproximando ou se afastando dos atores -, as quais são enriquecidas ainda mais com a linda fotografia e direção de arte, ambos contribuindo para a criação de um clima ameno que funciona como uma brilhante oposição da desordem das pessoas que habitam aquele espaço. Pois não é só o casal protagonista que se mostra imperfeito. O que vemos é uma estrutura familiar fragilizada pela mentira que habita cada lar apresentado pelo longa. Tudo é aparente devido à ausência de verdade neste filme extremamente realista.

nota | 8,5
mais informações | imdb

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  1. Já viu.
    hunf, Zé!

    “[…]as constantes brigas do casal são ditadas por uma interpretação intensa e visceral dos atores, de tão realistas coloca[m] o espectador num papel desconcertante por estar fazendo parte daquela situação.”

    é mesmo?!

    • Dari, não, é tudo mentira! xD É isso mesmo – bem, ao menos foi para mim. E obrigado pela correção. Era o sono. xD Beijos!

      Kau, hahahahaha! Mas ele convence sim, ao menos não tive o que reclamar dele. E já estréia sexta agora, cara, não perca tempo. Como não morro de amores por Wall-E, acabei preferindo essa trilha mesmo. []s!

  2. Vi 10 min. de filme e achei a interpretação de Kate formidável neste tempo. DiCaprio, pelo oq percebi, não convence com aquela carinha de bebê birrento. Vou esperar estrear daqui umas semanas hahahaha.

    E gosto da trilha de Thomas, mas presiro sua outra trilha neste ano: de Wall-e.

    Abraços!

  3. Acho que esse filme falha na maioria dos aspectos e penso que você já sabe disso (se viu meu comentário no twitter, hahahaha), mas obviamente apresenta um excelente trabalho dos atores, especialmente da Kate Winslet. Abraço!

  4. Olha eu aqui pela primeira vez … rs … arrisquei tudo colocando este na disputa de melhor filme no lugar de The Dark Knight, já que a academia adora ambos protagonistas, ainda não vi, porque quero ir ao cinema .

    CineClub ▬

  5. Jeff, lendo sua resenha me lembrei de uma apresentação que vi da peça “Navalha na carne”. Foi montada num quarto da Casa Rosa (um antigo prostíbulo), com espaço para apenas 12 pessoas acoadas nos cantos do cômodo. Para piorar, quer dizer, para melhorar, choveu muito naquela noite e faltou luz. O barulho da chuva no telhado de amianto era ensurdecedor. A apresentação foi à luz de velas…

    Foi uma experiência extrema! Inesquecível! As cenas de violência eram de um realismo brutal – e não estamos falando de efeitos especiais, pois tratou-se de teatro. Era tudo preparação corporal. Espetacular.

    Tudo isso para dizer que a violência, quando é “visceral”, como você aponta no texto, mesmo perturbadora ainda é fascinante!

    Abs!

  6. Dei exatamente essa nota ao filme. A trilha realmente é belíssima e o filme é muito bem trabalhado nessa “vida de casal”. Tudo só melhora com as atuações de Winslet e, principalmente, do DiCaprio. Me arriscaria até em dizer que esse é o melhor trabalho do “Leo”.

    Abração!

  7. Ainda não conferi este filme, coisa que quero fazer, mas o que me chama mais a atenção em “Foi Apenas um Sonho” é o fato de que o longa causa reações tão diferentes, que variam do amor ao ódio. Eu gosto do Sam Mendes e do elenco da obra e espero que o filme seja de meu agrado. Bom final de semana!

  8. Gostei bastante do filme. Não é o melhor do Mendes, nem de longe, mas é melhor que a maioria, por exemplo, dos indicados ao Oscar esse ano.
    Não tenho problema nenhum com os diálogos explosivos do filme, acho até que a Kate conseguiu pegar essa explosão e colocar um pouco de sutileza em tudo. O DiCaprio tá bem, mas nada extraordinário, ao contrário da já citada Kate, que praticamente carrega o filme.
    Mas meu maior problema é o personagem do Shannon, uma grande muleta narrativa, falando tudo aquilo que o telespectador já sabe. Muito desnecessário, apesar da sua boa atuação.

    Ah, e o ótimo o blog. Vou voltar mais vezes.

  9. Olá…
    Primeiramente estou no meio do trabalho (sem poder entrar na internet de verdade), acabei caindo nesse blog e me senti impossibilitada de sair daqui e não comentar nada.

    Bom, estou mais que ansiosa pra esse filme. Sério, eu sou uma atípica viciada em Titanic (digo atípica porque eu não enjôo nunca – coisa que fã sempre faz um dia). Então não poderia estar menos contente com a “volta”, diferente, porém real dos dois.

    Segunda coisa: poderíamos nos afiliar?
    Terceira coisa: posso te fazer uma super proposta? :)

    Desculpe-me, tive que ir direto ao ponto… meu chefe apareceu.

  10. Achei bom, mas com ressalvas. Sam Mendes conduz bem, e ter Roger Deakins na fotografia é certeza de espetáculo visual (adoro quando ele utiliza a iluminação para representar o estado de espírito dos personagens), além de ter achado interessante o fato de que o único personagem que percebe que não existe o “sonho norte-americano” é alguém saído de uma clínica psiquiátrica (ainda que seja uma muleta narrativa).

    Entretanto, o diretor quase põe tudo a perder por estender o filme alguns minutos a mais. [spoiler] Se tivesse acabado o filme focando no chro da Kate Winslet, seria muito mais interessante. Mas ele sentiu a necessidade de escrever com todas as letras, de desenhar bonitinho como se estivesse explicando para uma criança de cinco anos, que o sonho norte-americano não existe. [spoiler] Não precisava ele ser tão explícito assim.
    Se terminasse cinco minutos nates, seria um ótimo filme. Mas como isso não aconteceu, acaba perdendo algusn pontos.

    7/10

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