cinema 2008 | o [meu] cinema brasileiro

Há quem odeia o cinema nacional. Geralmente, qualquer um que adora [porque é incrível como as pessoas sentem prazer em dizer que o odeia!] vociferar esse tipo de sentimento pelo nosso cinema, não o conhece com folga. Eu também não o conheço como deveria. Aliás, recorrendo à minha memória e às minhas listas de filmes assistidos, prática que iniciei tardiamente em 2005, a quantidade de produções brasileiras é ínfima se comparada ao total de obras conferidas anualmente.

Não assistir a alguns foi uma questão de escolha...

Não assistir a alguns foi uma questão de escolha.

Em 2008, a intenção era reverter esse quadro. Não consegui, ainda que a vontade tenha sido grande. Foram apenas 12 [vergonha mode on] lançamentos brasileiros que me deslocaram pra o cinema num total de, segundo site Filme B, 81 produções! Mais triste que isso é constatar que este caso particular foi um reflexo do quadro geral de público em longas nacionais: fica entre 9 e 10% o índice de participação de espectadores em produções brazucas. Perdemos o hábito de ir ao cinema de uma forma geral ou nos acostumamos a deixar passar obras produzidas por nosso país?

Os dois. Nenhum dos dois. Um pouco de cada amontoado a tantos outros motivos. Filmes brasileiros, que são sempre minoria no nosso circuito de estréias, encaram em sua data de lançamento grandes produções norte-americanas de um apelo comercial infinitamente maior, além de terem sua exibição restrita a um pequeno número cinemas, podendo contar inclusive com poucas sessões – foram muitos os longas que deixei de assistir por contarem somente com uma sessão diária em horário inconveniente. No dia 18 de julho, por exemplo, o bom Nome Próprio, de Murilo Salles, disputou público nada menos que com a continuação do Homem-Morcego. São estatísticas que acabam desfavorecendo nossas produções, mas também há de se levar em conta o desejo do público em assistir tanto a um filme como a outro – e esse fator é tão decisivo quanto os números.

Você viu? Nem eu.

Mas não assistir a outros foi culpa do sistema.

Mas nem sempre a vontade é suficiente. Um dos longas nacionais mais elogiados do ano foi Meu nome é Dindi, o primeiro de Bruno Safadi. Fui deixar para conferir na semana seguinte da estréia e, para a minha surpresa, precocemente, ele já não estava mais em cartaz – vale dizer que era em um dos cinemas cariocas que mais exibem filmes brasileiros. Sete dias são suficientes para um filme formar público? Se não, imagine três. Foi o que ocorreu com o longa de Paulo Pons, Vingança, o qual após seu final de semana de estréia, sobreviveu em apenas três das doze salas em que estreou – e ainda com menos sessões do que inicialmente. [Para saber mais sobre essa anomalia e lamentável situação que nossos filmes enfrentam,  veja aqui o texto completo do diretor Paulo Pons.]

Entre o martelo e a bigorna, tenho tentado uma relação mais próxima com o nosso cinema. E cada ótimo filme que o Brasil produz, mais apaixonado e orgulhoso fico da arte que, sim, somos capazes de realizar com maestria. Prova disso foi o ano de 2008, que mesmo tendo assistido a poucos filmes, foi o suficiente para o saldo geral ser muito positivo. Em especial, deve-se isso a quatro produções [duas presentes na lista abaixo], as quais merecem destaque numa escala muito além da do cinema  nacional. E em como qualquer país que produza arte  cinematográfica, nem sempre o resultado foi  muito satisfatório. Já em alguns, deu vontade de chorar de desgosto.

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41#10| ENTRE LENÇÓIS | de Gustavo Nieto Roa
Até havia dado uma nota um pouco maior para Entre Lençóis em comparação ao próximo filme, mas basta eu lembrar desta bomba para constatar o quanto é um longa falho em todos os aspectos. O amontoado de clichês não permite a história ir além do lugar comum enquanto tenta discutir relações amorosas. Ao menos, o filme pode ser útil em aulas de cinema na pauta “Como NÃO empregar uma trilha sonora corretamente”.
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61#9 | ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO | de José Mojica Marins
Todos adoraram. Eu odiei. Odiei porque o universo repulsivo criado por José Mojica não me atrai em nada.
Talvez seja um mundo sagaz e visceral demais para o meu gosto. Se tem uma palavra que define bem Encarnação do Demônio é “repugnante”. E para o filme ser bom, ele precisa no mínimo ter boas atuações de seu elenco, fator que este está longe de possuir.
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81#8 | ORQUESTRA DOS MENINOS | de Paulo Thiago
Orquestra dos Meninos tem problemas intermináveis, que vai desde o elenco – com atuações extremamente caricaturais -, passando pela edição – que não contribui para uma narração fluida -, roteiro – fraco ao desenvolver muitas das situações inseridas no decorrer da trama, a qual, diga-se de passagem, é pessimamente finalizada -, desembocando na direção, ora piegas em demasia – vide a terrível cena da chuva. Em outras palavras: não presta.

91#7 | ROMANCE | de Guel Arraes
Romance é o típico filme legalzinho [com esforço] que não precisava ter existido. Brincando com situações pertinentes presentes no meio televisivo e teatral, o filme de Guel Arraes em diversos momentos soa enfadonho e desinteressante e, como muitas das produções da lista, poderia ser muito pior se não contasse com um elenco competente. Quando a sessão terminou, passou cinco minutos para eu esquecer que estive numa sala de cinema instantes antes.

51#6 | PRETÉRITO PERFEITO | de Gustavo Pizzi
Você sabe o que foi a Casa Rosa? Eu moro Rio de Janeiro e não sabia. Por isso fui assistir ao documentário que conta partes da história desta Casa, um antigo prostíbulo muito requisitado em outras épocas e que hoje funciona como boate. Os melhores momentos são os que acompanham uma antiga prostituta da Casa, e no mais, vale apenas como uma curiosidade frívola.

71#5 | NOME PRÓPRIO | de Murilo Salles
A única certeza que tive ao término da sessão de Nome Próprio foi do imenso talento de Leandra Leal – e de como ela é gostosa também. Sua entrega para o papel tornam todos os conflitos e instabilidade de sua personagens palpável  e, sem dúvida, é a força motriz de um filme estranho, que talvez não seja tão profundo quanto tenta parecer. Mas o saldo  é positivo.

untitled-1#4 | ÚLTIMA PARADA 174 | de Bruno Barreto
Melhor do que eu imaginava, mas ainda assim cheio de debilidades. Ainda que funcione parcialmente graças ao bom elenco, e no final das contas seja um bom filme, a direção limitada de Bruno Barreto realiza uma obra que acaba sendo pequena no meio de tantas outras de tema semelhante.

102#3 | FELIZ NATAL | de Selton Mello
Feliz Natal poderia ser muito mais se Selton Mello não fizesse questão de tentar ser autoral em cada frame. Seus zooms excessivos e enquadramentos que às vezes acabam não enquadrando muita coisa podem se tornar excessivos depois de um tempo de projeção. Mas no saldo geral,  seu trabalho de estréia na direção revelou seu talento também por trás da câmera e que, de excelentes atores, o cinema brasileiro está bem servido.

31#2 | ERA UMA VEZ… | de Breno Silveiro
Breno Silveiro atestou seu talento como diretor, provando que seu trabalho anterior, 2 Filhos de Francisco, não foi sorte de principiante. Sua capacidade em compor belas imagens com o auxílio de uma boa fotografia e criar uma narração envolvente e intensa é notável. Era uma vez… foi mais uma prova disso. Uma história de amor
em meio à criminalidade carioca que não fugiu de alguns clichês, mas todos bem usados,  e um elenco cativante; o filme só tem como problema os seus últimos minutos, falhos e incoerentes.

21#1 | ESTÔMAGO | de Marcos de Jorge
Estômago é o filme mais original da lista. Com um roteiro que passeia por vários gêneros e mostra seu lado mais sombrio nos últimos minutos e uma direção inspirada do promissor Marcos Jorge – nota para o desfecho da trama em que compõe um plano-seqüência brilhante à la Hitchcock e entrega uma das grandes cenas do ano -, o resultado beira a excelência. Quanto a João Miguel, definitivamente se consagra como um dos melhores atores brasileiros da atualidade, por mais uma vez ser responsável pela metade da força do filme.

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Próximo post: melhores filmes [e é lá que estarão os dois filmes brasileiros não comentados aqui].

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    • Leonardo, Estômago é excelente, mas para mim não foi o melhor brasileiro do ano. Estão faltando os dois primeiros colocados que entrarão direto no top geral por serem melhores ainda. Mas é um “primeiro lugar” digno. hehe []s e obrigado pela visita!

  1. Jeff, muito legal a sua análise sobre a distribuição dos longas brasileiros nos cinemas. É verdade que este ano de 2008 não compareci muito no shopping para conferir um longa (aqui tem o Cinemark e o Playarte e eles ficam, respectivamente, no ABC Plaza e Shopping ABC), mas existe um ou outro longa do nosso cinema que adoraria ter assistido, especialmente “Nome Próprio”. O problema é que esses filmes nem chegam aqui em Santo André e quando chegam ficam pouco tempo em cartaz (como aconteceu com “Encarnação do Demônio”, longa que só pude assistir no Projeta Brasil). E se meus cálculos não estão errados só tive a oportunidade de ver a dois longas neste ano sendo brasileiros. Desse seu top queria ter visto “Feliz Natal”, mas nem sinal dele por aqui. Até tinha vontade de ver “Entre Lençóis”, só que falaram que é beeem brega, rs.

    Abraços!

    • ALEX, muito obrigado. E eu achando que a minha situação fosse das piores. Como deu pra perceber, aqui não é muito diferente, só não é tão grave como em Santo André. Cinemas de shoppings só estréiam filmes brasileiros se tiver o selo da Globo Filmes ou algum global no elenco, como foi o caso de Entre Lençóis – que não é só brega, cara, é ruim MESMO -, e daí tenho que contar com os cinemas “alternativos” [não curto muito a palavra, mas não achei outra mais apropriada]. Bem, espero que tenhamos mais sorte em 2009. hehe []s!

      VINÍCIUS, muito obrigado, cara. Depois dos seus 4 fico até mais aliviado. hehe Quanto à problema de distribuição, está claro agora que isso não é um problema particular de ninguém, né? =/ “Linha de Passe” é obra-prima e só não foi comentado aqui porque está no top 10 geral, que será postado em breve. Você é mais um que fala bem de “Chega de Saudades”; até tentei alugá-lo antes de fechar o top, mas não tinha na locadora. De qualquer forma, irei conferir assim que puder. []s!

      KAMILA, que bom!, pena nem sempre ser fácil, né? “Linha de Passe” foi o meu preferido, um dos grandes filmes do ano – e por isso não foi comentado aqui neste post. []s!

  2. Puxa, adorei seu texto, realmente sua análise sobre o cinema nacional desse ano foi ótima! Bem, se você está com vergonha por ter visto somente 12 gilmes dos nacionais de 2008, então não deve conhecer minha situação. Vi apenas 4 (!!!) filmes dos lançados nesse ano, hahaha. Sei, realmente aqui é uma vergonha, mas como desculpa tenho o problema da distribuição, já que a maioria dos longas que queria ver (“Linha de Passe”, “Última Parada 174” e “Romance”) não deram. Bem, dos que vi, o melhor sem dúvida é “Estômago”, realmente muito original, apesar de ter gostado muito também de “Chega de Saudade”. Abs!

  3. Eu tento sempre prestigiar o cinema brasileiro, mas não assisti a tantos filmes nacionais como você, neste ano de 2008. Meus favoritos foram: “Linha de Passe”, “Feliz Natal”, “Romance”, “Estômago” e “Nome Próprio”.

  4. Como o único nacional que eu vi este ano não está nesta lista e você já conhece a minha opinião sobre ele, deixo registrado somente o comentário parabenizando sua “retrospectiva 2008” xD

  5. Que coisa… não vi NENHUM dos filmes que você citou, Jeff. Alguns até tive vontade de ver, como Estômago, Nome Próprio e Encarnação do Demônio… mas o primeiro não durou muito em cartaz e os outros dois sequer estrearam por aqui (se estrearam, deve ter sido em algum cinema longínquo). Se bem que, esse ano, vi Meu Nome Não É Johnny que é… bem… deixa pra lá… nem vale a pena comentar.

    É impressionante que, mesmo com aquela lei que obriga os cinemas a manter um filme nacional em cartaz, eles não consigam segurar os filmes que realmente valem a pena e insistam nas asneiras que a Xuxa e o Didi continuam fazendo

  6. Pingback: melhores de 2009 «


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