gomorra

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Serei direto: não gostei.

Muito se tem falado desta produção italiana, candidata oficial do país para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro – e me arrisco a dizer que será um dos cinco indicados. No Festival do Rio deste ano, eu ouvi Gomorra para lá, Gomorra para cá. Mas deixei passar. Eis que o filme finalmente entra em circuito nacional já como um mito, vencedor de diversos prêmios, incluindo o de Cannes, e um gerador de grandes expectativas.

Seu cartaz na versão nacional o intitula como o “Cidade de Deus italiano”. Assisti ao filme do Meirelles quando achava comédias românticas os melhores filmes do mundo e como ainda não o revi, não sou dos mais idôneos para averiguar o grau de exatidão da frase, mas percebe-se que Gomorra já nasceu querendo ser grande.

Ao menos no quesito violência, posso dizer que Gomorra perde de nocaute para o longa brasileiro. Não falo de violência gratuita, de cabeças voando de um lado para o outro da tela, mas não dá para esperar pouca coisa de um filme que retrata uma das grandes máfias italianas; falo de algo visceral, imagético de uma intensidade capaz de transportar o espectador para a realidade hostil relatada. Se a brilhante seqüência inicial transborda desse requisito, além de outros apuros técnicos, como a marcante trilha sonora e a fotografia e direção de arte quase monocromáticos que compõem um diálogo admirável entre si, o restante não faz jus ao esperado.

A questão é que o longa narra cinco histórias diferentes, tendo, cada uma delas, enfoque num determinado personagem, o qual, direta ou indiretamente, possui algum ligação com a máfia napolitana. E a minha questão é ter achado três dessas cinco histórias muito desinteressantes, fazendo-me perder a atenção do todo. A montagem prejudica o ritmo e dificulta a fluidez da história, e no geral, o filme acaba perdendo sua força. Ou melhor, ainda que demore chegar a vez de tomarem a tela, o fragmento do menino que deseja trabalhar ativamente na máfia e o dos dois garotos embasbacados com suas conquistas suicidas são os maiores atrativos entre um amontoado de personagens e cenas arrastadas que integram as demais histórias.

E por mais que seja clara a intenção do roteiro em explorar ao máximo as múltiplas formas de atuação de Camorra na comunidade, por isso a diversidade entre as narrativas apresentadas, o resultado não consegue ser mais que cansativo e fastidioso.

Apesar do ritmo, o diretor Matteo Garrone emprega uma câmera semi-documental, mas ainda com certo requinte, que ao menos esteticamente faz de Gomorra um bom exemplar. Optando em diversas cenas manter o foco apenas no ator mais próximo à câmera, fazendo com que todo o restante da cena perca sua nitidez, Garrone compõe plano-seqüências primorosos, como aquele em que o menino busca uma arma perdida após um tiroteio e o que acompanha, numa visão área, um personagem passeando entre corpos baleados no chão.

Este último exemplo é o momento mais impactante do filme, junto com a sequência inicial e final. O problema é o que se compreende entre elas.

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  1. Jeff, eu já achei o filme digno de quase uma nota 10! Tudo funciona, desde a técnica que procura retratar uma Itália nojenta e suja, passando pelo espetacular roteiro e desembocando no magistral trabalho do elenco. Acredito que o filme conseguiu se pronunciar e mostrar todo o funcionamente da feroz Camorra e isto foi absurdamente ousado da parte de Matteo. Belíssimo filme, sem dúvidas! Mas não vai levar o Oscar, pode apostar…

    Abraços!

    • KAU: É, rapaz, percebo que estou sozinho no mundo. hehe Dentre todas as críticas que li sobre o filme, apenas uma foi negativa. Enfim, é a velha subjetividade. Concordo com algumas coisas que disse, mas comigo Gomorra não funcionou. Fazeroquê? []s!

  2. Já eu concordo com o KAU (como você viu lá no Multiplot, Jeff). Para mim, ele se preocupou em dar um panorama geral do que é Camorra e as suas conexões. Por isso aquela edição crua e o tom quase que documental a obra. Aliás, isso foi um dos fatores que me levam a gostar mais desse filme do que Cidade de Deus (que cada vez mais começa a cair no meu conceito, muito por conta da imagem “plastificada”, mais limpinha, e a edição que vai ao caminho contrário ao de Gomorra).

    • Adney, para mim a impressão também foi essa, de querer mostrar as tantas influências e ações da Camorra. Mas, além das histórias chatas, achei mal costurado, a edição não favorece. Eu olhei para o relógio infinitas vezes. É, infelizmente não deu. []s!


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