sonata de natal

Hoje é dia de natal e em vez de rever A felicidade não se compra e acreditar que minha existência é muito importante para a vida de todos ao meu redor, assisti Sonata de Outono. A cada novo filme do Bergman me certifico que esta foi a maior alma encarnada em corpo na história da humanidade – depois de Jesus, o aniversariante do dia.

Fiquei muito surpreso com a primeira cena, quando um personagem fala direto para a câmera, nos olhos e para o espectador, com sua esposa Liv Ullmann desfocada no fundo da cena. Falta desbravar boa parte da filmografia do diretor, mas até então não tinha visto essa quebra de ilusão tão direta em seus filmes. E só fiquei surpreso, achei curioso. Como também os pensamentos altos de Ingrid Bergman, recurso que sempre soa mais para informar ao espectador que pela necessidade do personagem pensar em voz alta. Essa opção, inclusive, além de também não ser muito comum em suas obras – toda reflexão e pensamentos costumam surgir em off -, faz Sonata de Outono um filme pouco – ou nada – silencioso. Alguém está sempre tocando piano ou despertando alguma angústia adormecida dentro de si. E é o que Liv e Ingrid fazem na maior parte do tempo.

Falam, e falam pra caralho! Liv quando morrer irá para o céu e sentará ao lado de Deus por sua cena com Ingrid na madrugada, à pouca luz, como Sven sabia fazer, questionando se a satisfação secreta de uma mãe é a infelicidade da filha. Eu ria de nervoso e quase chorava de desespero. Porque nunca vi – devo ter visto, mas não lembro, só tem Liv na minha cabeça agora – uma atriz expor as palavras como aqui. As palavras são devastadoras, e só conseguem sair com um ímpeto incontrolável pois alguém as guardou por muito tempo, estão pesadas e duras demais para ganharem o ar. E Liv é brilhante por dizer não apenas com emoção, mas por revelar, pela voz e olhos carregados de lágrimas, o quanto seu discurso representa na relação com sua mãe. Ingrid também é outro absurdo, mas meu amor dessa vez vai todo pra Liv.

Quando há o piano, e só se ouve o piano, a voz é a imagem de Bergman. Bergman é foda porque nunca deixou de dizer, e sempre disse até mesmo quando seus atores nada diziam. Há um discurso quando Liv está ao piano e outro na vez de Ingrid tocar o instrumento, mas em ambos Bergman nos desconcerta e intensifica a relação entre as duas personagens – e se lembrarmos que Ingrid logo ao chegar na casa da filha diz sorridente que poderia morar lá para sempre, tudo se torna ainda mais terrível ao fim do filme. O final. Como todo filme do Bergman, termino sabendo que preciso rever. Mas o final. Talvez a principal impressão seja a de que nenhuma relação precisa de plena verdade. Quando as palavras não são medidas, no dia seguinte o pedido de perdão quase sempre é necessário para as relações se manterem amistosas.

Sonata de Outono é top 5 do Bergman.

E tem a pequena participação do Gunnar já meio velhinho dando apenas uma risada numa cena perto do fim – o que seria seu penúltimo trabalho com o diretor.

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